Itamaraty na berlinda

Itamaraty na berlinda

Senadores brasileiros hostilizados acusam governo de instruir embaixador em Caracas a não acompanhar comitiva, exigem punição ao regime de Maduro e defendem expulsão do Mercosul. Chancelaria nega conivência e pede explicações ao país vizinho

» RODRIGO CRAVEIRO » PAULO DE TARSO LYRA
postado em 20/06/2015 00:00
 (foto: Federico Parra/AF)
(foto: Federico Parra/AF)


Horas depois de desembarcar em Brasília, a comitiva de oito senadores hostilizada em Caracas denunciou a conivência do governo Dilma Rousseff com o incidente, acusou o embaixador brasileiro Ruy Pereira de ter recebido ordens para não prestar assistência à ;missão humanitária; e defendeu a expulsão da Venezuela do Mercosul. Enquanto o Palácio do Planalto manteve silêncio sobre os incidentes da véspera, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, telefonou para a colega venezuelana, Delcy Rodriguez, e pediu explicações. Em outra frente, o secretário-geral do Itamaraty, Sergio Danese, chamou a embaixadora da Venezuela, María Lourdens Urbanejas, e cobrou esclarecimentos. Um dos integrantes da comitiva, o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES) apresentou dois requerimentos à Presidência da Casa, nos quais pede a convocação de Vieira e um convite a Pereira para audiência na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) do Senado.

;Nós temos informações de que o ministro Mauro Vieira determinou que não fôssemos acompanhados do embaixador do Brasil, sob a justificativa de que nossa missão não era oficial;, afirmou Ferraço ao Correio, por telefone. ;Vamos pedir esclarecimentos às autoridades brasileiras sobre o motivo de terem concluído essa orquestração para uma missão oficial do Senado da República;, acrescentou o ex-presidente da CREDN. O parlamentar considerou ;muito estranha; a omissão da representação diplomática brasileira e lembrou que Pereira os recebeu no aeroporto, ;sumiu; e reapareceu somente depois do embarque da comitiva. ;Temos a impressão de que isso foi um jogo combinado entre os ministérios das Relações Exteriores do Brasil e da Venezuela para que a missão não tivesse êxito e não tivéssemos possibilidade de visitar os presos políticos;, comentou. Consultado pela reportagem, o Itamaraty garantiu que não houve envolvimento do governo com os incidentes.


"A Venezuela, por omissão do governo brasileiro, tem violado pré-condições ligadas a cláusulas democráticas. O Brasil se silencia, é omisso e conivente com a escalada de autoritarismo no país vizinho;
Ricardo Ferraço, senador (PMDB-ES)


Às 11h30 de ontem (13h em Brasília), 17 opositores em greve de fome protestaram diante da Embaixada do Brasil em Caracas e entregaram ao conselheiro José Solla carta dirigida ao Senado brasileiro. ;A mensagem apresenta dois motivos principais e um terceiro, agregado ontem (quinta-feira). O primeiro é agradecer a visita dos senadores. O segundo inclui um pedido de desculpas pela agressão. O terceiro aborda solicitação para que Dilma se pronuncie oficialmente sobre os direitos humanos na Venezuela;, relatou ao Correio, por telefone, Juan Guaido, deputado oposicionista do Partido Voluntad Popular e organizador do ato. Em silêncio, os ativistas ergueram um painel com a frase ;Dilma, abra os olhos;.

Sanções

No Congresso, o dia foi de protestos e de críticas ao governo brasileiro. Os parlamentares que viajaram a Caracas pediram que o Brasil requeira ao Conselho do Mercado Comum (CMC), responsável pelo processo de integração do Mercosul, a adoção de sanções duras contra o regime de Nicolás Maduro. A justificativa seria o fato de a Venezuela atropelar acordos firmados entre os membros do bloco. As sanções previstas vão desde a suspensão até a exclusão do bloco. ;A Venezuela, por omissão do governo brasileiro, tem violado pré-condições ligadas a cláusulas democráticas. O Brasil se silencia, é omisso e conivente com a escalada de autoritarismo no país vizinho;, disse Ferraço. O senador mineiro Aécio Neves, presidente nacional do PSDB, afirmou não ter dúvidas de que a Venezuela não vive uma democracia. ;Os opositores são aterrorizados; alguns, presos; as pessoas que discordam do governo na rua são afrontadas e, aqueles que querem se manifestar, como nós fizemos, são impedidos;, declarou.

Ele e os demais sete senadores que viajaram à Venezuela reuniram-se na manhã de ontem para decidir os próximos passos da pressão contra os governos brasileiro e venezuelano. Aécio crê numa ação conjunta de Brasília e Caracas para impedir que a comitiva alcançasse a prisão militar de Ramo Verde, onde o opositor Leopoldo López se encontra preso. Os parlamentares brasileiros ficaram retidos num engarrafamento na saída do aeroporto, e a van foi cercada por manifestantes, aos gritos de ;Chávez não morreu, se multiplicou;. Por sua vez, o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) protocolou requerimento de informação sobre o custo da comitiva. O PT realizou videoconferência com uma missão paralela enviada à Venezuela para prestar apoio a Maduro. Um dos integrantes, o escritor Fernando Morais classificou a comitiva parlamentar de ;provocação política;.



Deboche do vice-presidente

Quando estava presa no trânsito com a comitiva dos senadores brasileiros, na quinta-feira, Lilian Tintori ; mulher do preso político e líder opositor Leopoldo López ; enviou uma mensagem para o vice-presidente da Venezuela, Jorge Arreaza. ;Eu me comuniquei com ele transmitindo-lhe o horror, a angústia que estávamos sentindo e disse que tínhamos muito medo. Pedi que reforçasse a segurança. A resposta dele foi absolutamente irônica e de falta de respeito aos senadores. Eu disse ao vice-presidente que compartilharia a mensagem com os senadores;, contou Lilian ao Correio. ;Se os senadores estão aqui é porque não têm muito trabalho lá. Assim, umas horas a mais ou a menos não fazem diferença. Tome um café;, escreveu Arreaza.

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