Dor de smartphone

Dor de smartphone

O uso excessivo de celulares tem aumentado os casos de tendinite, além de afetar o pescoço, os olhos e os ouvidos

Daniel Camargos
postado em 20/06/2015 00:00
 (foto: Jewel Samad/AFP - 9/5/12)
(foto: Jewel Samad/AFP - 9/5/12)


Belo Horizonte ; Nos bancos das praças, dentro dos ônibus, caminhando pelas ruas e até na solidão de quartos escuros, as pessoas digitam usando freneticamente os polegares na tela dos smartphones. Quando estão com o celular em mãos, se isolam do mundo, com a visão focada nas pequenas telas iluminadas e, às vezes, plugadas em fones de ouvido. O hábito que permite e facilita a interação virtual, porém, quando em excesso, pode provocar uma série de prejuízos à saúde. Desde problemas de visão até inflamação nos tendões da mão, passando por lesões no aparelho auditivo e dores no pescoço e na coluna. Não é difícil imaginar a dimensão do problema quando se considera que, no Brasil, o número de telefones móveis já ultrapassa o de habitantes.

O ortopedista Pedro José Pires Neto, eleito para ser o próximo presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia de Mão (SBCM), alerta que o principal vilão é o WhatsApp. ;As pessoas usam o polegar com mais intensidade para digitar e ocorre a sobrecarga nessa articulação;, explica. O médico faz uma diferença entre as pessoas que precisam digitar no telefone para trabalhar e as que estão apenas se divertindo. As primeiras correm mais riscos. Quando alguém está, por exemplo, fechando um negócio, costuma ficar ansioso, o que eleva a carga de tensão. ;Se o assunto é sério, a musculatura fica mais tensa e, às vezes, há queixas de dor na raiz do polegar;, conta. ;Quem usa os celulares de forma mais lúdica, no ônibus ou no banco de praça, está sorrindo, teoricamente feliz, e não chega a ter problemas.;

Para evitar a dor, segundo o ortopedista, a dica é simples: reduzir o uso. ;Trata-se de uma questão de causa e efeito. Se o efeito é a dor, precisa-se cessar a causa;, detalha. Se não for possível ficar sem usar os aplicativos, a solução pode ser trocar o equipamento por um tablet com a tela maior ou um notebook. Outra dica é mudar a posição e digitar usando outros dedos, como o indicador. A postura inadequada, com o pescoço abaixado e a coluna curvada, também pode levar a dores. ;Todo vício de postura pode provocar desconforto;, destaca o ortopedista. Contra isso, uma alternativa é aumentar a letra das mensagens para melhor visualização, evitando, assim, a inclinação da cabeça. Controlar a força do toque, procurando empregar baixa pressão, também ajuda a prevenir dores.

Onipresente
São 283,5 milhões de telefones celulares no Brasil, o que representa mais de um aparelho por pessoa, considerando que somos uma nação de 204 milhões de habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Há dois anos, a auxiliar administrativa Tatiane Caldeira, 28 anos, trocou seu aparelho simples por um smartphone. ;Eu o uso mais como um computador do que como telefone, principalmente para acessar as redes sociais;, explica, ao interromper um diálogo no WhatsApp.

Tatiane também usa o aparelho para ouvir música enquanto está no transporte coletivo. E corre risco sem saber. ;Quem está no ônibus precisa aumentar o volume para superar o barulho do ambiente, e, quando isso ocorre, aumenta a possibilidade de danos ao sistema auditivo;, alerta o presidente da Sociedade Mineira de Otorrinolaringologia, Cheng T. Ping. Ele explica que o que prejudica a audição é a intensidade do som, associada ao tempo que a pessoa passa com o fone na orelha. ;Se usa ocasionalmente, não há problema, mas, se escuta em um volume alto por oito horas ao dia, pode causar danos;, detalha.

A escolha do tipo de fone (intracanal e de concha) pode prevenir problemas. Segundo, o fone de concha tende a ser menos lesivo. ;Nos aparelhos novos, há um alerta para a faixa de volume que pode danificar a audição;, destaca. Os perigos não se estendem à audição, alerta o médico: ;Quando a pessoa está com o fone, tende a prestar menos atenção ao ambiente, o que favorece acidentes;, destaca. O médico reforça ainda os cuidados durante corridas ou caminhadas. ;Quem corre com o fone na orelha precisa aumentar o volume por causa do barulho da respiração, das passadas e do ruído dos carros. Além de poder afetar a audição, o usuário fica mais exposto a acidentes.;




Nova síndrome
A revista médica The Lancet batizou essa síndrome da pós-modernidade de ;WhatsAppinite;, uma inflamação nos tendões causada pelo uso excessivo dos aparelhos de comunicação. Segundo a revista, que traz o relato do primeiro caso da doença ; em uma mulher de 34 anos ;, se trata de uma tendinite ou inflamação nos tendões ocasionada por movimentos repetitivos. A paciente chegou ao hospital com fortes dores nas mãos e contou que havia passado cerca de seis horas trocando mensagens de feliz Natal pelo smartphone. Os médicos indicaram a ingestão de anti-inflamatório e a abstinência total do telefone.





Mais míopes
O médico inglês David Allamby fez um levantamento e constatou que o número de jovens com miopia subiu 35% no Reino Unido desde o lançamento dos primeiros smartphones, em 1997. Outro problema apontado pelo médico é que a miopia ; antes estabilizada por volta dos 21 anos ; está sendo desenvolvida por pessoas mais velhas. Uma das causas, segundo ele, é que as pessoas seguram os aparelhos muito próximo dos olhos, entre 18cm e 30cm de distância, inferior à de um livro (40cm). O médico batizou a doença como screen sightedness (miopia de tela) e prevê que, em 20 anos, até metade das pessoas com mais de 30 anos terá desenvolvido o distúrbio.


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