Exterminador do presente

Exterminador do presente

Estudo apresenta evidências de que uma extinção em massa de animais está em curso no planeta devido à ação do homem

Roberta Machado
postado em 20/06/2015 00:00
 (foto: Gil Cohen Magen/AFP - 29/12/14)
(foto: Gil Cohen Magen/AFP - 29/12/14)




Ainda que existam pessoas que insistem em fechar os olhos diante das consequências da ação do homem sobre o meio ambiente, os efeitos devastadores dessa relação desleal não podem ser negados. Ambientalistas apontam que, mesmo com a mais otimista das projeções, a taxa de extinção atual das espécies de vertebrados é 114 vezes maior do que seria sem a atividade humana. Em uma análise publicada hoje na revista Science Advances, especialistas apresentam evidências de que o Homo sapiens deu início à sexta extinção em massa da história do planeta, um fenômeno que pode causar danos irreversíveis pelos próximos milhões de anos. O estudo serve de alerta para a urgência do problema, que só pode ser amenizado com ações imediatas.

Para medir o tamanho do impacto humano sobre a diversidade dos vertebrados, os pesquisadores compararam o número de animais que desapareceram do planeta nos últimos 500 anos com a chamada taxa de extinção natural, isto é, o número de espécies que era eliminado da Terra antes da expansão da atividade humana. Com base em fósseis e no tempo estimado de existência de cada grupo de animais antigos, calculou-se que o mundo perde dois tipos de mamíferos a cada 10 mil espécies todos os séculos.

O número usado pelos pesquisadores é o equivalente ao dobro da taxa de extinção natural empregada em outras estimativas semelhantes. Para chegar a dados considerados mais ;realistas; que as projeções tradicionais, os autores produziram duas listas distintas: uma conservadora, com base nas 617 espécies de vertebrados que desapareceram dos seus hábitats desde 1500, e outra ainda mais restrita, que não leva em conta os 279 bichos que só existem em cativeiro ou cuja extinção ainda não foi confirmada.

Em qualquer uma das projeções, a participação humana no processo de defaunação é clara: a estimativa de desaparecimento das espécies de vertebrados desde o avanço da civilização é de oito a mais de 100 vezes maior do que a taxa de extinção natural. A maioria dos casos se concentra no último século, mostrando que o impacto da civilização sobre a biodiversidade tem acelerado rapidamente. Sob a estimativa conservadora, seria esperado que nove tipos de animais desse grupo tivessem sido eliminados da natureza, mas a lista tem 468 espécies a mais, incluindo 69 mamíferos, 80 pássaros, 24 répteis, 146 anfíbios e 158 peixes cuja extinção pode ser diretamente responsabilizada ao homem. Sem a atividade humana, seriam necessários entre 800 e 10 mil anos para que esse mesmo número fosse naturalmente eliminado do planeta.

Conservador
Os autores do estudo ressaltam que os resultados apresentados são limitados e que o impacto humano sobre a biodiversidade é provavelmente maior. ;A taxa varia a cada grupo, e nós fizemos suposições muito otimistas;, ressalta Paul Ehrlich, professor da Universidade de Stanford, nos EUA, e um dos autores do estudo.

A estratégia busca desarmar qualquer argumento que se baseie na possível manipulação de índices para superestimar a crise ambiental. ;Há vários políticos e outros comentaristas que são ignorantes ou pagos para não compreender (a situação), como aqueles que negam que existe um problema com a ruptura climática antropogênica;, critica Ehrlich. Mas mesmo os questionadores mais incrédulos não podem negar os resultados de uma análise feita a partir de dados conservadores, argumenta.

O fenômeno antropogênico é comparável ao extermínio dos dinossauros, ocorrido há 66 milhões de anos. No entanto, essa pode ser a transformação ambiental mais acelerada em 4,5 bilhões de anos de existência da Terra, em que o desaparecimento acelerado de espécies sempre era causado por atividades vulcânicas ou queda de meteoros. Em vez de severas mudanças climáticas que perduram por milhares de anos, a atual extinção em massa é causada pela introdução de espécies nativas, pela emissão de carbono, pelo desmatamento impulsionado pela agricultura e outros reflexos do desenvolvimento recente da humanidade.

Medidas
O sumiço constante dos animais desencadeia uma série de efeitos sobre o ecossistema, como a polinização feita pelas abelhas e o processo de purificação da água, mudanças que devem começar a cobrar o preço da humanidade nas próximas três gerações. ;Se isso continuar, a vida vai levar milhões de anos para se recuperar, e a nossa própria espécie provavelmente desaparecerá mais cedo;, alerta Gerardo Ceballos, pesquisador do Instituto de Ecologia da Universidade Autônoma do México.

Para evitar esse cenário, os autores alertam que são necessários ;esforços rápidos e intensivos para conservar as espécies que já estão ameaçadas e diminuir as pressões sobre as suas populações, como a perda de hábitat, a exploração exagerada para ganhos econômicos e a mudança climática;. De acordo com a Lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN, na sigla em inglês), cerca de um quinto das espécies de vertebrados é ameaçado de extinção. Em média, 50 novos tipos de mamíferos, aves, répteis e peixes entram para a relação todos os anos.



617
Total de espécies de vertebrados que desapareceram de seus hábitats desde 1500




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