Alta da leptospirose

Alta da leptospirose

Até junho, cinco pessoas morreram contaminadas com a doença no Distrito Federal em 21 casos registrados %u2014 em todo o ano passado, houve 17 infecções e cinco óbitos. A vítima mais recente era triatleta e nadava todos os dias no Lago Paranoá

postado em 20/06/2015 00:00
 (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press - 5/11/13)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press - 5/11/13)

Nos seis primeiros meses de 2015, o Distrito Federal registrou cinco mortes por leptospirose, o mesmo número de todo o ano passado. São 21 infecções constatadas, até agora, ante 17 de todo o ano passado, segundo a Secretaria de Saúde. Na última terça-feira, o órgão confirmou a morte de um triatleta. O relatório final da investigação do possível local de contaminação deve ficar pronto na próxima semana.


A leptospirose é causada pela bactéria Leptospira, transmitida por suínos, roedores e bovinos. No ambiente urbano, o maior risco de contaminação é o contato com água ou alimentos contaminados com a urina desses animais (veja Risco). Para controlar os casos, a Secretaria de Saúde informa que realiza inspeções de acordo com a demanda da população. ;Os técnicos verificam as caixas de esgoto em busca de vestígios de ratazanas, avaliam a área externa das residências e apontam os vestígios dos roedores, assim como as condições do local que favorecem a presença dos ratos;, detalhou a pasta, em nota. Para os infectados, quanto mais cedo começa o tratamento, maiores as chances de cura.


Nesta semana, a morte de um triatleta por leptospirose levantou a suspeita de amigos e familiares de que o Lago Paranoá pode ter sido o meio de contaminação. ;Ele treinava sempre lá. Era o universo dele. Vez ou outra, fazia trilhas, mas nada que pudesse levantar a nossa desconfiança;, afirmou uma colega da vítima, que preferiu não se identificar.


A hipótese de que o contato com a bactéria tenha acontecido no espelho d;água não é descartada por especialistas. Para o químico ambiental Elias Divino Saba, que realiza estudos na água do reservatório desde 2009, pontos do aquífero podem estar contaminados por micro-organismos. Segundo Elias, em alguns deles há níveis de impureza preocupantes. ;Vários podem ser os fatores de contaminação, desde a presença descontrolada de capivaras no local e o despejo de águas pluviais com esgoto clandestino até a infestação do espaço por ratos atraídos por lixo às margens do lago;, advertiu o professor da Universidade de Brasília (UnB).


O infectologista da Associação de Medicina Intensiva Brasileira Fernando Dias explica que a infecção pela doença não necessita do contato direto com a urina de animais contaminados ou de mordedura. ;Na água, mesmo que em menor concentração, o risco é eminente. A Vigilância Sanitária, a Vigilância Epidemiológica e a saúde pública devem estar atentas ao controle e ao monitoramento de possíveis pontos onde há agentes contaminadores;, ressaltou.


Alerta
Estudiosos da qualidade da água ouvidos pelo Correio elencaram dois riscos no Paranoá: o lançamento de água contaminada com esgoto clandestino na rede pluvial e a alta população de capivaras nas proximidades do espelho d;água. O jornal mostrou, em 2012, o crescimento da população desses animais. Na época, havia cerca de 100 capivaras no lago, segundo estimativa da Polícia Militar Ambiental. Hoje, não há números oficiais.


A Associação Amigos do Lago Paranoá chama a atenção para o risco. ;É essencial para a sociedade e para os frequentadores do lago o estudo e o controle dessa fauna e da flora. Precisamos saber o que elas podem causar e quais tipos de doenças elas podem transmitir para a nossa segurança. Essa é uma questão a que a saúde pública precisa estar atenta, pois temos o encontro de animais silvestres no meio de um centro urbano;, alertou o coordenador da entidade e técnico em meio ambiente Guilherme Scartezini.


O professor Reuber Brandão do Departamento de Engenharia Florestal da UnB reforça que as áreas críticas devem ser monitoradas. ;Não sabemos se as capivaras são portadoras dessa bactéria. Também não sabemos o que essa água pluvial pode trazer. Vários fatores podem contribuir para a contaminação no local. O fundamental é entender o uso do lago, respeitar o meio ambiente e monitorar as alterações;, defendeu.


A Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) monitora o reservatório. A empresa informou que ;de um modo geral, a qualidade da água é boa e própria para o uso recreativo;, mas ressalta que os usuários devem estar atentos a áreas impróprias para banho. ;Os pontos de lançamento de águas pluviais são, sim, mais sensíveis a contaminações. Porém, qualquer alteração é detectada pela nossa equipe. As análises de balneabilidade são fundamentadas na concentração de bactérias indicadoras de poluição biológica;, afirma Fernando Starling, analista do sistema de saneamento ambiental da Caesb.


O Instituto Brasília Ambiental (Ibram) e o Centro de Gerência de Zoonoses não acompanham as capivaras e não têm dados sobre esses bichos. ;Elas são um sério problema para o lago, pois não têm predadores naturais e estão em um ambiente confortável para sobrevivência e reprodução. É preciso estudar os locais onde elas estão instaladas, o estado de saúde e identificar o que pode ser feito para controlar essa população;, reconhece Pedro Braga Netto, auditor de Atividades Urbanas do Ibram. Segundo ele, está em elaboração um programa de monitoramento das capivaras.

Diagnóstico
Na fase inicial, a leptospirose pode ser confundida com dengue, gripe, malária e hepatite. Como os sintomas são parecidos, é muito importante estabelecer o diagnóstico diferencial por meio de exames sorológicos ou pelo isolamento da bactéria em cultura. Quanto antes for instituído o tratamento, maior será a chance de evitar a evolução para quadros clínicos graves, que requerem internação hospitalar e podem levar à morte. O tratamento inclui cuidados com hidratação e uso de antibióticos e de medicamentos para aliviar as dores. A vacina só está disponível para ser aplicada em animais. Mesmo assim, embora evite que fiquem doentes, não impede que sejam infectados pela Leptospira nem que transmitam a bactéria pela urina.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação