"A crise assusta"

"A crise assusta"

Novo chefe da Casa Civil admite que não esperava situação tão grave, mas não aponta culpados. Ele rejeita o título de supersecretário, defende alinhamento do Executivo com a Câmara Legislativa e revela pedido do governador para concentrar esforços na saúde pública

ANA MARIA CAMPOS HELENA MADER MATHEUS TEIXEIRA
postado em 20/06/2015 00:00
 (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)

O novo chefe da Casa Civil, Sérgio Sampaio, assume o principal posto do Governo do Distrito Federal (GDF) com uma postura diferente de seu antecessor, Hélio Doyle. Em entrevista ao Correio, o secretário evidencia seu perfil conciliador e evita fazer críticas até mesmo ao ex-governador Agnelo Queiroz (PT), acusado pela atual gestão de ser o responsável pelo deficit financeiro. Sampaio defende um alinhamento do Executivo com a Câmara Legislativa, afirma ter se ;assustado; com a situação financeira do GDF, mas evita apontar culpados pelas dificuldades.


Apesar de ter o papel de coordenar as ações de todo o governo, o ex-diretor-geral da Câmara dos Deputados rejeita o rótulo de supersecretário. Ele admite não ser um especialista na política do DF, mas conta que tem analisado o funcionamento de todas as pastas do governo e revela um pedido especial do governador Rodrigo Rollemberg (PSB) para concentrar esforços em soluções para o caos na saúde pública.


Doyle, segundo ele, fez ótimo trabalho nos cinco primeiros meses de governo. Agora, diz Sampaio, é dar continuidade às atividades do antecessor. ;Não adianta querer aqui fazer política de terra arrasada;, opina. Amigo do procurador-geral de Justiça do DF, Leonardo Bessa, e alçado ao posto de diretor-geral da Câmara por Aécio Neves em 2001, ele garante que não tem padrinho político nem vinculação partidária.

Política do DF
Como eu atuava na Câmara dos Deputados, e lá os temas são inúmeros, só conseguia acompanhar de perto a pauta da Casa. Não podia trabalhar dissociado da agenda do Congresso, então, me prendia muito a isso. Claro que, como morador da cidade, me interessava, lia. Mas vou ser sincero, eu não era um especialista em política do DF.

Supersecretário
É uma secretaria que faz a coordenação da gestão. Não quero dizer que exista posição de destaque ou posição de supersecretário. Isso não existe. Todo mundo aqui trabalha em igualdade de condições, cada um na sua missão. A Casa Civil tem o papel de coordenar. Se entenderem que isso é ser supersecretaria... Mas creio que não seja.

Trabalhos
O governador me deu muitas linhas de ação. Pediu atenção especial à saúde, que era trabalho que o secretário Hélio Doyle já vinha fazendo junto à secretaria da área. Estamos estudando modelos de gestão de saúde, casos de sucesso, e tem um material muito rico que já foi levantado. A gente pretende partir desse trabalho que já foi feito. Não adianta querer aqui fazer política de terra arrasada. Primeiro, porque não é o caso. Doyle respondia tecnicamente muito bem sobre os temas, desenvolveu um ótimo trabalho até aqui, é muito elogiado por todos. Não tem por que desprezar o que foi feito. Estou tentando me inteirar. Vou tentando absorver o máximo no menor tempo possível. Ver em que ponto estão os estudos para, a partir dali, retomar as atividades.

Saúde
Tem modelos de gestão de saúde, mas também tem questões práticas do dia a dia, pois entende-se que é possível fazer algumas adaptações para melhorar o modelo atual. Temos de tentar trocar a roda com o carro andando, ir melhorando o cenário atual, porque essa é uma obstinação do governador. A questão fundiária é grave e a da mobilidade urbana, também. Em relação à mobilidade, temos a possibilidade de fazer algumas coisas, pois já há recursos captados do governo federal.

Amizade com procurador-geral de Justiça
A gente sabe que cada um tem que exercer seu papel. Não espero nenhuma facilidade do Ministério Público do DF em função de eu conhecer, ser amigo e gostar muito do procurador-geral de Justiça do DF (Leonardo Bessa). Cria facilidade de comunicação. Muitas vezes, o governo precisa mostrar qual é a sua tese e dar argumentos jurídicos que entenda ser válido. E quando nos manifestamos só no papel, o contato não é tão rico.

Relação com Aécio Neves
Tenho relação de admiração, claro. Acho uma pessoa absolutamente correta, admirável e muito boa quando nos encontramos. Mas, digamos assim, não nos frequentamos. E, depois de ser diretor-geral pela primeira vez, saiu o Aécio e entrou o João Paulo Cunha, do PT. Foi uma mudança drástica e permaneci. As pessoas entenderam que era uma vinculação funcional, senão não teria ficado no cargo. Tiveram muitas idas e vindas nesse processo todo, passei por nove presidentes da Câmara, de diversos partidos.

Direita ou esquerda?
Acho que, hoje em dia, isso está superado. Depois da queda do muro de Berlim, isso acabou. Se perguntar para qualquer partido, aqueles antes considerados de esquerda ou direita vão dizer a mesma coisa, que o Estado tem de prover o básico para o indivíduo se desenvolver. O governo tem que dar condições mínimas que atenuem as desigualdades entre classes. Há pessoas que nascem em um meio abastado e outros miseráveis. O papel do Estado é dar condições iguais a todos. Acho que esse é o mantra da política atual.

Câmara
As pessoas dizem que, com os 513 deputados federais, devia ser muito difícil. Mas acho que, com 513, isso se dilui um pouco. Acredito que as duas instituições, os dois poderes (Executivo e Legislativo), têm papéis republicanos, no sentido em que ambos estão buscando satisfazer e atender os anseios do povo. Temos de entender que o deputado deve dar resposta ao seu eleitor, alguém que acredita nele, alguém que acredita em um projeto que ele vendeu e seduziu um grupo de pessoas. Se ele não faz nada e fica parado, não se reelege. Tenho certeza que todos os 24 deputados distritais defendem algumas políticas que o governo também defende. Porque, no fim, todos querem o bem da coletividade. Vamos buscar um alinhamento.

Crise financeira
Assusta. É algo concreto. Temos que deixar claro porque não podemos enganar a sociedade. Temos que falar das dificuldades que enfrentamos. Não estou querendo satanizar nenhum governo, dizer que A, B, ou C, dizer que foi o último governo ou os dois últimos que mais contribuíram para a crise, não quero nominar. Mas a crise é real e muito séria. Quando a coisa se descortinou na minha frente, eu me assustei. Como morador de Brasília, não esperava situação tão grave. A situação é grave, mas tem que ter solução. E o governo foi eleito para isso.

Comunicação
Não só vai haver separação (entre Casa Civil e Comunicação), como estamos estudando redução de estrutura. Sei que Hélio Doyle e todos secretários contribuíram com isso, mas o momento difícil vai exigir mais um esfor

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação