Tem que comer terra

Tem que comer terra

postado em 20/06/2015 00:00

Não tem lógica, nem conhecimento, nem razão, nem teoria que dê conta de Brasília. Tantos e quantos bam-bam-bans da arquitetura e do urbanismo, daqui e de fora, que tentaram produzir uma narrativa sobre a cidade esbarram, a maioria deles, num desconserto: para apreender a cidade é preciso comer poeira, rachar os beiços, resfolegar nos vazios, tropeçar na falta de calçadas, se perder nos desnivelamentos dos setores centrais. E suspender, nessa travessia, o conhecimento teórico sobre a lógica das cidades e dos princípios do urbanismo moderno.


Brasília é o sertão em concreto.
É a caatinga do Planalto Central.
Brasília dói, mas é bom.
É doce, mas não é mole.


Brasília é a miragem da utopia contaminada pelo vírus da especulação imobiliária, da ganância política e outros de igual malignidade.


Os que aqui chegaram nos primeiros tempos têm no corpo uma Brasília que os novatos desconhecem ; e nunca terão conhecimento dela. Não poucas vezes, sinto falta desse tempo não vivido. Do mesmo modo que me faz falta ; incompletude ; a vida sem cidades. Esse ter de se adaptar aos bons modos da civilização fustiga a liberdade de existir do jeito que se é.
Brasília é o território da não cidade, da pré-história das cidades. Aqui, somos caçadores-coletores da metrópole. Há uma selva de carros, uma floresta de vazios, sempre um desconhecido a ser desbravado.


Brasília tem parques, mas não tem sombra. Tem arquitetura, mas não tem calçada. Tem riqueza, mas não tem igualdade.
É a capital do poder, mas nela nos sentimos, dia após dia, governo após governo, desgovernados.


Brasília é a nossa tragédia e a nossa glória. Ela nos confirmou como brasileiros de uma Nação que se fazia moderna e se juntava, finalmente, num só território ; porque finalmente interligado.


O mais incrível é que Brasília resiste a tudo ; talvez porque seja miragem, talvez porque o gesto que a criou seja de tamanha grandeza e verdade que convenceu a Unesco de sua condição de um bem da humanidade. E continua soberana, mesmo afogada por outdoors, invasões, esculhambações e omissões.


Quem faz tudo isso não comeu a terra de Brasília. Quer pegar o seu do que não lhe pertence.

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