95 anos de muita alegria

95 anos de muita alegria

Maria Rita chegou a Brasília em 1959. Alimentou os candangos e até o presidente Juscelino no restaurante que montou no canteiro de obras com o marido. Hoje, ainda ativa, recorda-se com orgulho do tempo de pioneirismo

» AILIM CABRAL
postado em 20/06/2015 00:00
 (foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
(foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)


Em meio a muitos risos e lembranças, Maria Rita Chaul, 95 anos, orgulha-se de fazer parte da história de Brasília. A mineira de Abaeté chegou à capital, ainda em construção, para, ao lado do marido, Geraldo Chaul, tornar-se uma das primeiras comerciantes da cidade. O ano era 1959 e Brasília, ainda um sonho. Por aqui, fincou raiz, criou os sete filhos e viveu um casamento feliz de mais de seis décadas.

O convite para desbravar a nova terra partiu de um compadre do casal, o engenheiro Jofre Parada. Também pioneiro, ele propôs que a família viesse montar um restaurante para atender aos candangos que trabalhavam no canteiro de obras. Geraldo era gerente de uma loja, em Goiânia, e não pensou duas vezes. Mudou-se para o Planalto Central em 1958. Maria Rita veio um ano depois, com os filhos do casal.

A história Maria Rita e Geraldo começou 16 anos antes, em 1942, quando ela, aos 25 anos, e ele, aos 20, se casaram. A união foi um escândalo para a época, já que era incomum um casal formado com uma mulher mais velha. O companheirismo, porém, sempre foi a marca registrada do casal, que se manteve unido até 2002, quando Geraldo morreu. Também foi fundamental no início desse novo capítulo na vida da família. O restaurante ficava na Cidade Livre, no Núcleo Bandeirante, e funcionava no andar de baixo da casa onde moravam. ;Eu gostava demais de viver lá. Mas, como os barracos eram de madeira, acontecia muito incêndio e eu temia pelos meus filhos;, lembra a pioneira.

Maria Rita levantava antes de o Sol nascer. Às 6h, os trabalhadores chegavam para tomar café da manhã, antes de seguirem para o canteiro de obras. O almoço e o jantar dos candangos também tinham endereço certo: o Restaurante Ipê, na Avenida Central da Cidade Livre. Mas os trabalhadores, clientes de todos os dias, não eram os únicos do estabelecimento. O mais ilustre frequentador, também o mais amado por Maria Rita, era o ex-presidente Juscelino Kubitschek. ;De vez em quando, ele ia lá com o compadre Jofre e levava meu filho mais velho para andar de carro. Era um homem muito bom.;

Ao ser questionada sobre o que pensou ao ver os barracos e o barro de onde ia morar, depois de sair de uma cidade grande como Goiânia, Maria Rita tenta conter uma risada: ;Gostei, achei ótimo. A gente estava ganhando bastante dinheiro, né?;. Enquanto Geraldo se ocupava com outros trabalhos, como venda de carros, Maria Rita se focava no restaurante ; a principal fonte de renda da família por pelo menos 10 anos. Na nova cidade, o casal teve mais dois filhos. Uma delas, a professora Márcia Helena Chaul, 55 anos, foi a 12; pessoa a ser registrada em Brasília e teve o nome escolhido por engenheiros que frequentavam o restaurante.

Em 1962, a família recebeu um terreno na recém-nascida W3 Norte. Maria Rita levou os filhos e o restaurante para o novo endereço. O movimento do estabelecimento, no entanto, caiu vertiginosamente. Dois anos depois, Geraldo alugou uma casa na Asa Sul, na antiga Quadra 30, correspondente à atual 710 Sul. ;Quando nos mudamos, eu fui aos bancos e às lojas próximas e chamei as pessoas para conhecerem nosso restaurante. Todas iam almoçar com a gente;, conta Maria Rita.

Na nova casa, o Restaurante Ipê funcionava na sala e Maria Rita cozinhava com a ajuda de uma empregada. E assim foi por mais cinco anos. A aposentadoria da vida de cozinheira veio quando o marido foi chamado para trabalhar no governo, nas concessões de táxi e ônibus. A família se mudou para a 708 Norte, onde Maria Rita mora até hoje. Para não ficar parada, a pioneira passou a costurar, e vestiu as primeiras noivas da capital.

A festa

Na semana passada, Maria Rita reuniu os sete filhos, os 12 netos, os 14 bisnetos e a trineta para celebrar os 95 anos. Parentes de todas as regiões do Brasil também vieram ver a pioneira cantar e dançar. Ela passou dias ensaiando a canção Malandrinha, de Martinho da Vila: ;Ah! Se eu pudesse tu estarias num altar. És a rainha dos meus sonhos, és a luz, és malandrinha, não precisas trabalhar;. Uma missa na capela Nossa Senhora da Consolata, na 311/321 Norte, abriu as comemorações, que seguiram na Grande Loja Maçônica do DF, na 909 Norte. ;Foi lindo. Tinha um rapaz com um violão, e ele me acompanhou enquanto eu cantava. Dançar mesmo, eu só dancei um pouquinho;, conta, aos risos.

Feliz, Maria Rita pergunta: ;Para quem acabou de fazer 95 anos, eu estou bem, né?;. A ativa pioneira continua cozinhando para a família. Assiste a programas de culinária e até testa receitas novas, sem nunca deixar de lado o tradicional pão de queijo mineiro. Sai para caminhar, cuida dos jardins do prédio onde mora e gosta de acompanhar esportes pela tevê. O preferido é o vôlei, e Giba, o grande ídolo da matriarca. ;Acordo a hora que for para assistir aos jogos de vôlei. Na minha época de solteira, eu jogava e era muito boa;, conta, orgulhosa.

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