Ponto a ponto Deborah Evelyn

Ponto a ponto Deborah Evelyn

Em cartaz na cidade, atriz fala ao Correio sobre política cultural, aprendizado com a arte e a chegada dos 50 anos

» Igor Silveira » Vinicius Nader
postado em 20/06/2015 00:00
 (foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
(foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)


Ela sabe o que quer
O público das novelas costuma ligar a figura de Deborah Evelyn a personagens desequilibradas. Mas a atriz de sorriso fácil e simpatia ímpar está longe disso. Lúcida, a intérprete se mostra otimista ao dizer que as pessoas caretas no Brasil ainda são minoria, sonha com o dia em que a cultura do Norte tenha o mesmo valor que a produzida no Sudeste e ainda defende que os internautas assumam suas opiniões nas redes sociais. Versátil, Deborah pode ser vista em performance arrebatadora em Hora amarela, em cartaz até amanhã no Centro Cultural Banco do Brasil, e se prepara para uma personagem complexa em Regra do jogo, título provisório da próxima novela das 21h.

Brasil careta?
Não sei se dá para generalizar: ;O brasileiro tá encaretando;. O que eu acho é que, quando tem um assunto polêmico, quem se manifesta mais são as pessoas contra. A gente vive um momento em que essa bancada evangélica é uma loucura. Nosso Estado é laico, não é possível que fazer uma oração no Congresso não seja proibido! Vai fazer uma reza em casa; Eu não sou contra, cada um faz a reza que quiser, mas nosso Estado é laico! Cada um tem o direito de ter a sua religião, ter a sua fé, agora, não pode impor para o outro a sua crença, a sua verdade, seja lá qual ela for; Até porque eu não acho que exista uma única verdade.

Manifestações
Eu acho que essas pessoas ; que eu quero crer que não sejam uma maioria ; estão com uma força muito grande de sair às ruas e fazer esse tipo de coisa. Uma criança não pode ver duas mulheres se beijando por quê? É uma atitude de amor! Mas matar pode, né? Então eu não sei se o público está ficando mais careta ou se as pessoas estão tendo um lugar onde se manifestar, porque eu não posso acreditar que a gente está caminhando para uma coisa pior, né? Não sei se eu estou sendo ingênua. Espero que não.

Anonimato na rede
Fico profundamente incomodada com as pessoas que se escondem atrás do anonimato nas redes sociais, porque eu acho, verdadeiramente, que todo mundo tem que ter o direito de expor sua opinião. Agora, porque se esconder? Eu mesma não sei se vou para a internet falar alguma coisa ou se não vou. Eu não me escondo atrás de um pseudônimo, não boto outra foto. Acho que as pessoas têm que assumir o que elas falam, principalmente, quando você está falando mal de alguma coisa, indo contra alguma coisa; Então embase a sua opinião e mostre quem você é!

MILITÂNCIA
Nós somos seres políticos desde que nascemos. Se o artista acredita em alguma coisa fortemente ao ponto de abraçar aquilo e usar a imagem dele para isso, acho lindo. Quando a gente tem que aprender a conviver em sociedade, a respeitar o limite do outro e a lutar para que o seu limite seja respeitado, isso já é política! Poucas vezes na minha vida eu me engajei em campanha, por exemplo, porque nas vezes que eu me engajei realmente acreditava. Chegou uma hora que eu parei de me engajar porque, infelizmente, parei de acreditar. Não em política, porque ela existe por si só, mas em quem é oferecido para gente abraçar ou não.

Opinião sempre
A minha opinião eu dou sempre porque eu tenho uma opinião e porque eu acho que ela tem ser dada, tem que ser ouvida, assim como a de todo mundo. Todos têm que poder ter o direito, só que de uma maneira civilizada e pacífica. Vai fazer uma manifestação, lindo; mas não precisa ter violência. Você perde a razão se, no meio de uma manifestação, é violento. A gente tem que aprender a conviver com a diferença e a achar legal a diferença.

Política cultural
Está muito centralizada no eixo Rio-São Paulo e nas principais capitais. A gente tem um país enorme, que culturalmente é riquíssimo. Tem estrangeiro que vai para Manaus e fica louco com o bumba meu boi e isso nunca foi para o Rio de Janeiro, por exemplo. Mas uma peça minha vai para Manaus; Por que é que não existe essa troca? Acho as leis de incentivo importantíssimas, mas elas são bem complicadas. Não acho que solução seja tirar, mas elas são de uma burocracia que é de enlouquecer e é uma burocracia burra. Eu não vejo a cultura sendo valorizada no nosso país, e a cultura é o espelho de um povo. Quando você viaja, vai para outro país e vê a exposição de um artista local ou assiste a um espetáculo, você vê aquele povo falando de si.

PROPOSTAS
A gente vive em um país que tem muitas deficiências, onde as pessoas morrem em corredores de hospital porque não tem leito. Eu não acho que a cultura seja menos importante do que isso, mas eu acho que tem muita coisa para ser feita em várias áreas no Brasil: social, cultural, econômica;Tem pouco mais de 6 meses que a gente saiu de uma corrida eleitoral e me chamava muita atenção de que em todos os debates ninguém apresentava uma proposta voltada para a cultura.

Cinema e teatro
Fiz muito pouco cinema na minha vida, só cinco filmes. Então é um veículo do qual tenho pouco conhecimento. Mesmo assim fiz coisas incríveis porque trabalhei com Cacá Diegues, Sergio Rezende, diretores muito bons, e foi muito prazeroso. Comecei com teatro, fiz na IAB, na USP, tudo. Tenho um prazer descomunal em fazer teatro. Essa coisa de você fazer, fazer, fazer, você vai pegando aquele personagem. Esses dias eu estava falando com a Monique (Gardenberg, diretora de Hora amarela), que queria que ela estivesse em Brasília porque o espetáculo está outro.

Novelas
Comecei bem cedinho em televisão e eu realmente gosto, mas é outra história. Porque teatro tem aquela coisa do público, que é genial, de não se repetir todo dia, que é ótimo. Tem gente que acha ;ai que saco fazer todo dia a mesma coisa;, mas não é a mesma coisa todo dia. Televisão é praticamente o oposto disso, cada dia é uma coisa diferente. Você não está em contato direto com o público, mas tem também uma urgência e tem uma coisa que é o personagem fica na sua mão, uma novela tem 180 capítulos, começa meio assim, tem aqueles dois meses para começar, mas lá para o capítulo 30, o personagem também é seu, aí você brinca com ele mais 160 capítulos assim.


PAPÉIS fortes
Gosto muito de personagens fortes, daquele personagem que você pode sair de você e fazer ele. Fiz muita mocinha no começo da minha carreira, quando eu era muito menina. Mas rapidamente comecei a fazer a mocinha que já não era tão mocinha, que já era meio esquisita. E eu adoro porque são personagens mais fortes que você pode criar alguma coisa. As cenas de café da manhã em família f

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