Não faça guerra

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Decapitação na França, ataque a hotéis na Tunísia e explosão suicida no Kuwait deixam 67 mortos. Estado Islâmico assume dois atentados

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 27/06/2015 00:00
 (foto: Fethi Belaid/AFP)
(foto: Fethi Belaid/AFP)






Saint-Quentin-Fallavier, a 40km de Lyon, leste da França, 9h36 (hora local). Yassin Salhi, 35 anos, lança o automóvel contra o portão da fábrica de gás industrial Air Products, de propriedade norte-americana. Depois de atingir cilindros e provocar forte explosão, ferindo duas pessoas, Yassin é dominado por bombeiros ao tentar abrir garrafas de acetona. Dentro do carro, os agentes encontram o cadáver decapitado do patrão, de 54 anos, além de uma faca de trinchar. Sobre o portão, a cabeça da vítima fincada, ao lado de duas bandeiras com inscrições em árabe.

Sousse, Tunísia, às margens do Mar Mediterrâneo, meio-dia (hora local, 11h em Lyon). Dois extremistas disfarçados de banhistas chegam à praia em um jet ski e recolhem fuzis AK-47 e granadas escondidos sob um guarda-sol. Os turistas são surpreendidos enquanto se bronzeiam. A matança termina dentro do hotel, depois que um dos militantes é executado e outro, detido. O número de mortos chega a 39 ; a maior parte de britânicos, além de belgas, alemães e tunisianos.
Cidade do Kuwait. Um homem-bomba se explode em meio a 2 mil fiéis da Mesquita Imã Al-Sadiq, matando 27 e ferindo 200.



Três atentados quase que simultâneos, em três continentes, na sexta-feira ; sagrada para o islã ;, e no início do mês do Ramadã, deixaram o mundo perplexo. No dia em que executou 145 civis em Kobani, na Síria, o Estado Islâmico (EI) reivindicou os atentados na Tunísia e no Kuwait. ;O soldado do califado (;) Abu Yahya Al-Qayrawani (;) conseguiu atingir o alvo no hotel Imperial;, declarou um comunicado da facção, ao destacar que a maioria das vítimas era de ;indivíduos de Estados da aliança cruzada que combate o Estado do califado;. O Departamento de Estado norte-americano investiga se as ações foram coordenadas. Em comunicado divulgado na terça-feira, o EI apelou aos jihadistas para que se expusessem ao ;martírio;, como forma de marcar o Ramadã ; ;tempo de calamidade para os infiéis;, uma referência aos cristãos, xiitas e sunitas ;apóstatas;.

A chef britânica Olivia Leathley, 24 anos, e o namorado, Mike Jones, escolheram o balneário de Sousse pela beleza paradisíaca. No entanto, o casal encontrou o inferno. ;Nós estávamos em nosso quarto quando escutamos estrondos altos. Olhamos pela sacada e tudo o que vimos foram turistas correndo. Não sabíamos o que tinha acontecido. Como nossos amigos estavam à beira da piscina, descemos para ter notícias deles;, relatou ao Correio, enquanto aguardava o momento de deixar o ClubHotel Riu Bellevue Park e embarcar de volta para Manchester. ;Quando estávamos nas escadas, alguém gritou ;Corram!’ O terrorista tinha entrado no hotel e começado a atirar. Então, corremos para salvar nossas vidas;, acrescentou. Olivia e Mike se refugiaram num pequeno escritório, nos fundos do prédio.



No mesmo hotel, o também britânico John Yeoman, 47, ouviu os tiros quando curtia a piscina, situada entre a praia e o hotel. ;Pensamos que fossem fogos de artifício. Mas, então, houve mais tiros, e as pessoas passaram por nós, gritando e correndo em direção aos quartos;, contou ao Correio. A reação dele foi a mesma. ;Quando eu corria até o apartamento, uma garota me disse que estava na praia e que viu um homem com um fuzil disparando contra as pessoas. Uma vez em meu quarto, pude escutar explosões e rajadas de armas de fogo. Utilizei a cama como barricada para bloquear a porta. Fechamos as cortinas e nos sentamos no chão. Foi então que vi colegas gritando que o atirador estava no hotel. A espera pela polícia pareceu durar anos;, desabafou. O presidente tunisiano, Beji Caid Essebsi, viajou até Sousse, visitou alguns dos 36 feridos no hospital e prometeu ;medidas necessárias, mas dolorosas;. Foi o segundo atentado sofrido pela Tunísia em quatro meses. Em 18 de março, dois extremistas mataram 20 turistas no Museu do Bardo, em Túnis. Ontem, o governo anunciou que vai fechar ao menos 80 mesquitas.

Barbárie

Em Lyon, Emilie Despres, 23 anos, experimentou o medo. Horas depois do ataque à fábrica Air Products, helicópteros sobrevoavam a área. ;Os policiais estão em toda parte. A região de Ródano-Alpes está em alerta vermelho pelos próximos três dias. Pensava que esse horror jamais chegasse à porta de casa, especialmente em uma cidade pequena;, comentou à reportagem. Ela considera a decapitação algo ;horrível e bárbaro;. ;Isso vai representar um golpe na imagem dos muçulmanos na França, mas não podemos colocá-los no mesmo saco.;



O presidente francês, François Hollande, interrompeu a participação numa cúpula da União Europeia, em Bruxelas, e retornou a Paris. Antes de embarcar, declarou: ;Não temos dúvidas de que o ataque pretendia explodir o prédio. Ele carrega as marcas de um ato terrorista;. Policiais detiveram quatro pessoas suspeitas de conexão com o atentado, inclusive a mulher e a irmã de Yassin Salhi ; um francês de 35 anos, nascido em Pontarlier (leste), com ligações salafistas e pai de três filhos.

Yves Trotignon, ex-agente do serviço secreto francês DSGE, afirmou ao Correio que novos ataques jihadistas eram aguardados, mas não em Lyon. ;O modus operandi (um carro destruindo cilindros de gás) é novo. Ainda que isolados, os três atentados poderiam ser usados pelos jihadistas para celebrarem o que pensam ser o começo de algo gigantesco;, advertiu. Por sua vez, Magnus Ranstorp, especialista em terror pelo Colégio de Defesa Nacional da Suécia, crê que tudo não passou de coincidência. ;Os ataques compartilham o fato de serem parte da ideologia salafista-jihadista, no estilo do EI, da Al-Qaeda ou da Ansar Al-Sharia. Na Tunísia, o foco dos jihadistas é desestabilizar o país. A França foi alvo por causa da operação militar contra o Estado Islâmico.;


Repúdio internacional

A comunidade internacional repudiou os atentados, ao citar a ;barbárie; e o ;ódio cego;. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, chamou os ataques de ;espantosos; e pediu que os responsáveis sejam ;levados à Justiça;. A Casa Branca classificou os atentados de ;abomináveis;. Em nota, o Itamaraty ;deplora o incremento dos atentados terroristas;. ;Trata-se de atos criminosos, perpetrados por extremistas em nome de ideias incompatíveis com as regras mais elementares de convívio e de respeito aos direitos humanos. A intolerância religiosa e o recurso à violência indiscriminada, praticados sob qualquer pretexto, merecem o mais veemente repúdio.;



Sobreviventes


;Chegamos a Sousse no último domingo e ficaríamos aqui por mais três dias. Estávamos tendo uma semana incrível, até isso ocorrer. O

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