Uma meta que é ficção

Uma meta que é ficção

Rosana Hessel
postado em 27/06/2015 00:00
 (foto: Evaristo Sa/AFP - 29/4/15)
(foto: Evaristo Sa/AFP - 29/4/15)
O sistema de metas no Brasil tem sido uma ficção na maioria dos anos, desde que foi criado em 1999. O regime foi adotado após o Plano Real domar a inflação, que chegou a 2.477% em 1994, mas só garantiu carestia abaixo do centro da meta em três ocasiões: 2000, 2006 e 2009 ; ano da crise financeira global. Para piorar, em três dos quatro anos do governo da presidente Dilma Rousseff, a inflação ficou acima de 6%, muito próxima do limite estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

A expectativa é de que, em 2015, estoure o teto da meta, de 6,5%. O Relatório Trimestral de Inflação do Banco Central (BC), divulgado nesta semana, prevê que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegará a 9% no fim deste ano. Pela prévia do indicador de junho, a alta acumulada em 12 meses já está em 8,8%, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ao descumprir a meta de inflação, no entanto, o BC não sofrerá punição nem seu presidente, Alexandre Tombini, perderá o cargo.

As opiniões dos especialistas se dividem quanto à eficiência do regime. ;A inflação dos últimos cinco anos encostou no teto, mas isso não quer dizer que o sistema não seja eficiente. No entanto, está claro que o BC deixou de perseguir o centro da meta. Com isso, uma taxa de 6% a 6,5% passou a ser considerada dentro da normalidade;, analisou o especialista em inflação Salomão Quadros, coordenador do Núcleo de Estudos do Índice Geral de Preços (IGP) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

O presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon), Paulo Dantas Costa, considera o regime de metas de inflação ineficiente, devido ao grande número de erros do governo. ;Estamos pagando o preço por um conjunto de pecados que foram cometidos no passado. O represamento de preços da energia e dos combustíveis foi terrível;, disse ele, destacando que esses dois itens são responsáveis por cerca de 70% do aumento do custo de vida neste ano. Ele alertou que 2015 será um ano ;perverso;.

Quadros acredita no sistema de metas de inflação porque ele é adotado por muitos países e a maioria vem conseguindo controlar o custo de vida. Economias emergentes, como Chile, México e Peru, possuem metas de 3%, e têm conseguido manter os índices de preços próximos disso. O Brasil tem a maior meta da América Latina e está entre os países que possuem as maiores do mundo. Ela só não é superior às metas de nações em crise como Ucrânia (de 9%) e Zâmbia (de 7%). Entre os países do Brics, somente a Índia tem uma meta maior: de 8% para este ano. Mas já sinalizou redução para 4% até 2017.

Na última quinta-feira, o CMN reduziu a margem de tolerância de 2,0 pontos percentuais para 1,5 ponto para a meta de inflação de 2017, com as presenças de Tombini; do ministro da Fazenda, Joaquim Levy; e o do Planejamento, Nelson Barbosa. O teto passará dos atuais 6,5% para 6%.

Para o economista-chefe da INVX Global Partenrs, Eduardo Velho, essa sinalização foi positiva e acabou se refletindo na redução dos juros de longo prazo. Mesmo assim, ele não acredita que o BC conseguirá cumprir o objetivo de de 4,5% no fim de 2016. (RH)




Bem longe do objetivo

Desde 1999, quando o país adotou o regime de metas, a inflação ficou abaixo do centro da meta em apenas três anos

Ano Meta (em %) Banda Piso e teto Inflação
(em pontos) efetiva (em %)
1999 8,0 2,0 6,0 e 10,0 8,94
2000 6,0 2,0 4,0 e 8,0 5,97
2001 4,0 2,0 2,0 e 6,0 7,67
2002 3,5 2,0 1,5 e 5,5 12,53
2003* 3,25 2,0 1,25 e 5,25 9,30
4,0 2,5 1,5 e 6,5
2004* 3,75 2,5 1,25 e 6,25 7,60
5,5 2,5 3,0 e 8,0
2005 4,5 2,5 2,0 e 7,0 5,69
2006 4,5 2,0 2,5 e 6,5 3,14
2007 4,5 2,0 2,5 e 6,5 4,46
2008 4,5 2,0 2,50 e 6,50 5,90
2009 4,5 2,0 2,5 e 6,5 4,31
2010 4,5 2,0 2,5 e 6,5 5,91
2011 4,5 2,0 2,5 e 6,5 6,50
2012 4,5 2,0 2,5 e 6,5 5,84
2013 4,5 2,0 2,5 e 6,5 5,91
2014 4,5 2,0 2,5 e 6,50 6,41
2015** 4,5 2,0 2,5 e 6,5 9,00
2016*** 4,5 2,0 2,5 e 6,5 5,50
2017*** 4,5 1,5 3,0 e 6,0 4,50

(*) O governo fixou metas ajustadas de 8,5% para 2003 e de 5,5% para 2004, pois sabia que não cumpriria o objetivo
(**) Estimativa do Banco Central
(***) Projeções de mercado e da INVX Global Partners

Fonte: Banco Central e IBGE

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