Conexão diplomática

Conexão diplomática

postado em 27/06/2015 00:00
 (foto: Ricardo Moraes/AFP - 1/1/15 )
(foto: Ricardo Moraes/AFP - 1/1/15 )


Parceria sobre retas transversas

A visita da presidente Dilma aos Estados Unidos, no início da semana que entra, está colocada desde já na categoria dos acontecimentos que os lados envolvidos observam com ligeiras diferenças de perspectiva. Em comum, o Planalto e a Casa Branca buscam firmar no noticiário a famosa ;agenda positiva;. A diferença principal é a importância que esse tratamento assume para um e outro governo. Do ponto de vista de Washington, a retomada plena do relacionamento com o Brasil pode não ser propriamente um negócio da China, mas tem sua importância nos arranjos do âmbito hemisférico ; o que, na linguagem diplomática americana, significa aquilo que diz respeito aos vizinhos ao sul do Rio Grande.

Nos gabinetes correspondentes do Departamento de Estado, o movimento da chefe de Estado brasileira parece ser recebido como a conclusão de um ciclo. Ainda que não represente uma reorientação integral na condução do Itamaraty, a viagem, com agenda concentrada no espírito dos negócios, sinaliza intenções convergentes, ainda que enfocadas a partir de parâmetros e coordenadas desencontrados, como na descrição da geometria para retas transversas ; aquelas que não têm pontos em comum e trafegam sobre planos paralelos.

Ao norte do Rio Grande, a economia coleciona sinais de recuperação e retomada, após anos seguidos de retração. Por aqui, ao contrário, depois de ter resistido à primeira onda ; ou marola ; da crise de 2008/2009, a atividade de todos os setores sente o peso da combinação entre recessão e inflação. Nesse quadro, a partir de dinâmicas opostas, é possível projetar um ponto onde os interesses dos dois países podem se encontrar.

Gangorra

Talvez a diferença mais marcante entre os momentos vividos por Barack Obama e Dilma Rousseff seja a margem de manobra política de que dispõe cada um. O presidente americano recebe a colega no marco de um período no qual se dedica a construir aquilo que a história política dos EUA consagra como o ;legado;. A visitante, por outro lado, tem pela frente três anos e meio de um segundo mandato iniciado sob o signo dos escândalos de corrupção, do isolamento político e da popularidade em queda livre. Como resultado, enquanto a Casa Branca apenas contabiliza os lucros de virar a página do escândalo de espionagem ; responsável pelo cancelamento de uma pomposa visita de Estado, inédita desde os anos FHC ;, o Planalto mira claramente em algum tipo de ;agenda positiva; que permita à presidente fazer dos encontros em Nova York, Washington e São Francisco uma espécie de ;marco inaugural; para o relançamento de um governo envelhecido precocemente.

Maomé e a montanha

Na leitura feita pelo Departamento de Estado, a viagem de Dilma não apenas premia um esforço desenvolvido pela diplomacia americana ao longo de um ano e meio, com seguidas incursões do vice-presidente Joe Biden, que aproveitou todo tipo de ocasião ; até mesmo a Copa do Mundo de 2014. Agora, Washington saboreia o que se apresenta aos seus olhos como um movimento no sentido de sul para norte: é o governo brasileiro quem levanta as obstruções e responde ao convite reiterado, sem contrapartida explícita além da conclusão de acordos pontuais de interesse mútuo.

American way

Nesse aspecto, o formato acertado para a visita, cuja programação inicial foi expandida para incluir escalas de Dilma em Nova York e na Califórnia, retrata fielmente o senso prático que distingue os americanos. Envolvidos, como o Brasil, em complicadas negociações comerciais com a União Europeia, os EUA preferem trocar declarações conceituais ambiciosas por anúncios no espírito que os mineiros ; como a presidente brasileira ; definem como ;pão, pão; queijo, queijo;.

Guantanamera

É com o mesmo espírito pragmático que Washington se permite questionar, polidamente, a introspecção da diplomacia brasileira nos anos Dilma. Emissários qualificados ressaltam que, longe de representar um estorvo, as posições por vezes divergentes expressas pelo Planalto e pelo Itamaraty sobre temas de alcance global correspondiam às ambições de um parceiro determinado a entrar na ;primeira divisão;.

É com essa aparente boa vontade que o governo Obama vê, hoje, o papel desempenhado pelo Brasil nas mudanças em andamento em Cuba. Embora não o façam explicitamente, os representantes americanos aplaudem o engajamento do Brasil na abertura econômica e diplomática do regime de Havana, que se apresta a concluir com Washington os detalhes finais para a reabertura das respectivas embaixadas, depois de meio século de estranhamento.


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