Sinais precoces

Sinais precoces

Pesquisa sugere que, nos primeiros dias de vida, crianças manifestam indícios de que são mais propensas a desenvolver transtornos do comportamento

ISABELA DE OLIVEIRA
postado em 27/06/2015 00:00

;Aquele que vê as coisas crescerem desde o início terá melhor visão delas;, concluiu Aristóteles ao observar 20 ovos de galinha em diferentes estágios embrionários para resolver uma questão que intrigava os gregos de 300a.C.: como o ovo vira pintinho? A observação do filósofo parece nortear uma pesquisa publicada esta semana na revista Scientific Reports. O objeto de estudo, no entanto, são crianças. E a pergunta a que os cientistas buscam responder é: será possível perceber traços de transtornos do comportamento em bebês ainda nos primeiros dias de vida?

A equipe liderada por Angelica Ronald, da Universidade de Londres, queria entender até que ponto o comportamento das crianças é influenciado por sua constituição biológica, e não pelo meio em que crescem. Para isso, começou por analisar a atenção de 180 recém-nascidos. Quando as crianças tinham apenas entre 1 e 4 dias, os especialistas analisaram a capacidade que tinham de fixar o olhar em imagens que lhes eram mostradas. ;Notamos que, mesmo com alguns dias de vida, existem grandes diferenças na forma como os recém-nascidos olham para as coisas, o que mostra que eles não são ;folhas em branco;;, diz a pesquisadora sênior do trabalho.

Numa segunda fase, 80 dessas crianças passaram por nova avaliação aos 3 e aos 10 anos, por meio de questionários preenchidos pelos pais. Esses dados mostraram que, no grupo de pequenos que, anos antes, tinham passado mais tempo olhando a série de figuras, havia menos crianças hiperativas e impulsivas. Esses traços, incluindo ainda problemas disciplinares, eram mais comuns nos sujeitos que fixavam pouco a atenção nos primeiros dias de vida.

Primitivo
Segundo Ronald, a pesquisa sugere que pelo menos uma parte do comportamento de uma criança é inata, não sendo, portanto, completamente moldado pela criação. A cientista não rastreou as origens de tais particularidades, mas elabora algumas hipóteses. Em crianças mais velhas e adultos, a atenção depende, basicamente, da sobreposição de dois sistemas do córtex cerebral envolvidos com a cognição: as redes cíngulo-opercular e frontoparietal. Estudos de neuroimagem mostram que, trabalhando em conjunto, elas atuam na capacidade de autocontrole.

No entanto, até os 3 meses de idade, o sistema cortical não se desenvolveu completamente, pois ele depende dos estímulos ambientais. Até essa fase, a atenção é controlada por estruturas subcorticais do cérebro, aquelas mais primitivas ; especula-se, inclusive, que os primeiros hominídeos tivessem praticamente apenas esses sistemas em funcionamento. Os resultados de Ronald e colaboradores, portanto, apontam que esses mecanismos superbásicos também atuam na formação da personalidade e no controle da atenção logo após o bebê nascer.

Além disso, outras investigações apontaram que diferenças na capacidade de atenção das crianças se devem ou a uma predisposição genética ou hereditária ou a efeitos ambientais que afetam o desenvolvimento intrauterino. Sabe-se, por exemplo, que dificuldades extremas de atenção, tais como transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH), são parcialmente hereditárias. Mas esse novo estudo, Angelica Ronald adverte, não aborda diretamente a questão. ;Mais investigações são necessárias para verificar se a variação genética contribui para o comportamento e o temperamento na infância;, explica.

Há ainda outro complicador. Mesmo que as influências sejam parcialmente genéticas, elas poderão responder a intervenções ambientais. ;Por isso, pode ser que intervenções precoces consigam melhorar a atenção das crianças que têm dificuldade com isso. Nossa pesquisa é somente a ponta do iceberg: precisamos de mais dados para considerar essa estratégia;, diz a pesquisadora.

Sem alarde
Angela Donato Oliva, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, adverte que pais e mães não precisam se preocupar caso seus recém-nascidos não consigam fixar o olhar em um objeto por muito tempo. ;Quando essas variáveis são observadas, há apenas uma indicação. Se mais pesquisas confirmarem esses resultados, então, acredito que poderão ser desenvolvidos métodos para identificar uma predisposição ao TDAH, um transtorno de epidemiologia alta, visto em 5% das crianças;, considera a também professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Não há, portanto, determinantes (leia Duas perguntas para). Pode ser que uma criança propensa geneticamente a desenvolver TDAH não desenvolva o transtorno se for estimulada precocemente. Ela cita, por exemplo, dados brasileiros que sugerem uma maior incidência do distúrbio em populações mais pobres. ;Nesse caso, parece que o meio contribui para isso;, acrescenta Angela Oliva. Se o problema é detectado logo, ela diz, há possibilidade de adotar ações preventivas para estimular a criança. Os pais também precisam de atendimento sociopedagógico para aprender a lidar com a situação. ;Os resultados não são motivo para neurotizar;, aconselha a especialista.

Duas perguntas para

Angela Donato Oliva, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia e professora da UERJ e da UFRJ

Os resultados apresentados no estudo fazem sentido?
Sim, mas devem ser encarados com muito cuidado. Podemos dizer que ele abre portas para uma série de questões, mas de jeito nenhum devemos vê-los de maneira reducionista. Se não, jogaremos fora várias outras variáveis importantes para o desenvolvimento da criança, como o estilo e a história dos pais, o contexto ambiental e a estimulação. Não estamos na Idade Média para acreditar em apenas uma influência. Além disso, os autores admitem limitações. Não usam o eye tracking (rastreador de olhos), equipamento que verifica com precisão o olhar da criança; e os questionários são respondidos pelos pais, que podem ser tendenciosos. Mesmo assim, há fundamentos. Em um experimento na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), filmamos bebês durante 30 dias. Depois de um tempo, por acaso, descobrimos que três deles eram autistas. Resolvi rever os vídeos e convidei alunos que não sabiam da situação para avaliarem as imagens. Eles constataram, realmente, alterações na forma de olhar das crianças.

Então, há muita atividade na mente dos bebês?

Pensava-se que os bebês reproduziam movimentos irregulares e aleatórios, mas descobriram-se padrões de movimento de braços, pernas e olhos. Eles refletem estados de consciência diferentes: sonolência e sono tranquilo ou ativo, estados de alerta tranquilo e ativo, e choro. Assim que a c

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