O direito à noite

O direito à noite

postado em 27/06/2015 00:00

Desde que este alto de página era um pé de página, defendi vivamente a música no bar (;pai e mãe, ouro de mina, coração, desejo e sina;), assunto que se discute há montanhas de tempo. De volta à mesa, o direito à noite de uns e de outros, seja acordado ou dormindo, me deixou sem sono. Desta vez eu não tinha o que dizer, porque estava em cima do muro, dava razão para os da noite e os do sono na noite.


Até que, passando pela EPGU, a estrada-parque em frente do zoo, vi o anúncio de um bar que está sendo construído às margens do Setor Hípico Sul.


(Vamos e venhamos; É um excesso de interferência no movimento urbano das cidades se criar um setor de hipismo).
Há um bar surgindo nas proximidades das escolas de equitação, quase em frente ao zoológico. Ali, ;tudo o mais, pura rotina; pode ser cantado noite adentro.


Numa cidade de tão invencíveis vazios, rigidamente setorizada, com bairros de oficinas, de armazenamento, de abastecimento, de clubes, de garagens, de grandes áreas isoladas, de postos e motéis, de indústrias, de transporte rodoviário de cargas e até de paiós, há espaço livre para violões e trios elétricos, bossa-nova e carnavais.


Quando anoitece, os setores acima citados e os demais de mesmo gênero se transformam em cemitérios de fantasmas de concreto e metal. Aqui ao lado do Correio, no Setor de Indústrias Gráficas, que já é um Setor de Não Sabemos Exatamente o Quê, já houve uma boate gay, que depois se transformou numa boate de striptease e agora é um edifício de escritórios.
O direito ao sono é legítimo (e eu que pensava que não era?). Mais que legítimo, é uma questão de saúde pública.
O que não se pode é se aproveitar do debate para incutir o preconceito contra a turma LGBT, contra negros e praticantes de religiões de matriz africana, como aponta Juliana Andrade, a Pagul, dona do Balaio, o Beirute dos anos 2015. Juliana contou à revista Encontro que um dos argumentos usados na Justiça em processo contra o bar é que o lugar fica ;cheio de pretos e gays, cheio de macumbeiros;.


Como já se escreveu neste matutino, barulho por barulho, tem coisa mais incômoda do que a zoada dos caminhões de lixo madrugada adentro? O salto do sapato e o secador de cabelos de manhã cedinho, nos apartamentos? E as festas na vizinhança?


A lei do silêncio em vigor já fechou o Tartaruga, na Asa Norte, com sua roda de samba, e já acabou com os shows no Senhoritas Café e no Café da Rua 8, os dois também na Asa Norte. Sabemos todos que as pequenas apresentações em bares formam músicos e público.


Quando Pagul diz que a discussão revela a cara do conservadorismo que tomou conta do país, sabe onde está pisando. Os argumentos conservadores têm tido a nítida simpatia das instâncias com poder de decisão. Mas ainda assim a causa é legítima, os moradores têm direito ao sossego depois de certa hora da noite. E de certa altura da vida.
Por que os da noite em claro, os da cultura, da vivida vivida, não se mudam, de mala, cuia e balaio, para os Setores Desolados do Plano Piloto? Sei, a ideia não é nova. E também não é pra hoje. Pra hoje, é a peleja do projeto de lei de Ricardo Vale.
A propósito, uma das coisas mais incríveis que Brasília me concedeu foi ver Cássia Eller a metro e meio de distância num palquinho do Bom Demais, numa quadra das Setecentos Norte. Naquele tempo, não se dormia.

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