O direito a uma cidade humana

O direito a uma cidade humana

Em entrevista ao Correio, o antropólogo inglês David Harvey, um dos mais importantes teóricos sobre as questões urbanas na atualidade, fala sobre a a especulação imobiliária, a explosão da violência, a invasão das bicicletas e as mobilizações sociais

Severino Francisco
postado em 27/06/2015 00:00
 (foto: Carlos Silva/CB/D.A Press - 19/9/14)
(foto: Carlos Silva/CB/D.A Press - 19/9/14)



Com o processo vertiginoso de globalização, as cidades de todos os pontos do planeta foram assoladas pelos poderosos e milionários interesses da especulação imobiliária e dos megaprojetos de urbanização que desumanizaram os espaços urbanos. Ao mesmo tempo, surgiram mobilizações populares no sentido de preservar a qualidade de vida, de ocupar as vias com bicicletas, de garantir lugar para os pedestres e de frear o delírio dos interesses corporativos que enriquecem meia dúzia de pessoas espertas em detrimento do interesse público. O antropólogo inglês David Harvey é um dos mais importantes pensadores das questões urbanas na atualidade. Ele formulou um novo conceito de direito à cidade. Para Harvey, isso não se resume ao acesso aos bens existentes, mas sim ao direito de transformar a cidade em um lugar de todos e não de alguns privilegiados. Ele é autor de vários livros sobre o clássico O capital, de Karl Marx. O curso que concebeu sobre o livro de Marx, disponibilizado no site da Cuny, em 2008, já obteve mais de 700 mil acessos. Ele acaba de lançar no Brasil Paris, a capital da modernidade (Ed. Boitempo), em que analisa as transformações urbanas e culturais da cidade francesa no século 19. A globalização, a especulação imobiliária, a invasão das bicicletas e as mobilizações sociais pela qualidade de vida nas cidades são temas abordados nesta entrevista.



O capital é um livro muito mais comentadodo que lido entre os que compõem a coleção. Hoje em dia, O capital é mais lido?
Não tenho nenhuma pesquisa sobre isso. Mas sei que muitas pessoas leram O capital com a ajuda dos vídeos que fiz. Tive muitos feedbacks positivos, porque é um livro difícil e muitas pararam de ler. Com os vídeos, elas conseguiram continuar. Espero que seja mais lido agora, mas quem sabe;

Por que alguém deve ler O capital? O que ficou ultrapassado e o que se mantém atual no livro?
Uma das primeiras razões para se ler O capital é porque trata-se de um livro fabuloso, é incrível quando você se acostuma com alguns dos movimentos do estilo de Marx. É uma peça maravilhosa da literatura. E porque tem algumas poderosas ideias analíticas que fazem com que você compreenda a vida ao seu redor. Para mim, tem sido uma revelação por poder ensinar qualquer momento histórico, pois sempre fornece vários exemplos que posso pegar das situações que estão ocorrendo ao meu redor e procurar no texto do Capital e dizer: ;Veja, aqui é onde Marx fala sobre isso. Veja, ele fala exatamente sobre isso;. Ele fala de maneira unificada, assim, todas as partes das nossas experiências podem ser colocadas juntas e formar uma análise.

Quando falo aos estudantes sobre as práticas contemporâneas de emprego em Bangladesh e quando as fábricas entraram em colapso, não há diferença nenhuma sobre o que Marx falou e o que ocorre nesses espaços atualmente.

Por que há cidades pelo mundo que se tornam lugares tão hostis para os seres humanos? E de que maneira a globalização afeta a vida e a estrutura das rotinas nas cidades?
Cada vez mais, as cidades foram criadas para que o capital seja investido; não para que as pessoas vivam nelas. O capital não se importa com um ambiente decente para se viver, mas se preocupa em fazer um projeto, absorver muitos projetos, muito capital, fazer um projeto que dê muito lucro. As cidades foram construídas para as questões da rentabilidade, não para as questões de vivência. Acho que, cada vez mais, pessoas estão impelidas para ter uma terra muito rentável, pois aquela terra pode ser palco de um condomínio, prédios. Há muito deslocamento ocorrendo nas cidades, e isso, na verdade, é muito hostil.

Um dos conceitos importantes que Marx destaca é o tempo de giro do capital ,que significa uma tendência de qualquer capital em continuar a estimular as coisas...
O que significa que o tempo está constantemente encolhido e comprimido e, na verdade, a vida nas cidades está ficando mais apressada em vários aspectos, pois o tempo de giro está sendo impulsionado a se tornar cada vez mais rápido e rápido. Você vê isso nas decisões de investimentos. Essas decisões demoram menos de segundos para serem tomadas em Wall Street. E o dinheiro vai para todo lugar do mundo em segundos. Então, temos essa forma de capital que está se movendo extremamente rápida. E isso está colocando pressão no homem e nas vidas deles. Isso significa que as cidades têm essencialmente se tornado reféns de um processo de circulação de capital que é acelerado. Significa que temos de acelerar nossas vidas, e isso torna a vida mais estressante.

Como essas mudanças têm afetado a explosão de violência nas cidades?
Acredito que as pessoas estão cada vez mais, perdendo o controle da qualidade de suas vidas diárias. Isso significa que elas estão ficando alienadas em suas condições de vida e crescentemente alienadas nas condições do seu trabalho, que se tornou automático e sem sentido. Alienadas do processo político, pois as pessoas sentem que não há uma consulta democrática sobre grandes projetos ocorrendo nas cidades. Então, há uma alienação generalizada. Uma população alienada tende a ser muito passiva até que algo acontece e ela fica extremamente raivosa. Estamos vendo muitos protestos nas cidades, que levam a uma onda de violência, como Londres, Estocolmo, Paris, Istambul, aqui no Brasil.

O que significa essa onda de violência?
Acho que esses momentos de violência são expressões de descontentamento, o que sugere que devemos pensar em melhores maneiras de consultar as pessoas e elas se sentirem participantes da democracia e achar maneiras de criar significados em suas vidas. Encontramos indivíduos fazendo isso por meio da criação de institutos para definir significados para suas vidas e novas maneiras de viver suas vidas ou se juntando a grupos religiosos, que conferem algum significado. Acho que a religião nas cidades é uma resposta a essa condição material alienante. Então, precisamos confrontar tudo isso. E parar de nos concentrar em não apenas encontrar empregos para as pessoas, mas empregos significantes, não só casas, mas moradias decentes em um ambiente culturamente rico.

Como concebeu o ;direito à cidade;?
Isso é sobre como tentar estabelecer o direito de todos de ter o controle da natureza do conjunto urbano que os cerca. Não é o direito sobre algo que já existe. É o direito de mudar o que existe, é menos alienante; é algo mais enriquecido. Acho que esse direito à cidade deve pertencer a todos. O que vemos hoje são alguns moldando as cidades do jeito que querem e desejam, excluindo os outros da cidade. Quan

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