Uma vida dedicada ao jornalismo cultural

Uma vida dedicada ao jornalismo cultural

O repórter Irlam Rocha Lima completa quatro décadas de Correio e lembra os momentos marcantes de sua trajetória

GABRIEL DE SÁ
postado em 27/06/2015 00:00
 (foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
(foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)


Existem personagens cujas trajetórias se confundem com as histórias dos lugares que habitam. O jornalista baiano Irlam Rocha Lima é um desses casos. Afinal, nas últimas quatro décadas, não há o que o repórter não tenha visto ou vivenciado na cena musical da capital federal, que ele ajudou a construir ao abrir espaço para artistas de cujo sucesso desconfiava. Presença constante das noites da cidade, admirado por personalidades da MPB, Irlam foi pioneiro em um segmento jornalístico muitas vezes negligenciado, mas ao qual ele se empenhou em emprestar prestígio e credibilidade. Na semana em que completa 40 anos como funcionário do Correio Braziliense, ele relembra sua trajetória diante dos fiéis leitores.

Nascido e criado em Barreiras (BA), Irlam desembarcou na capital federal na adolescência, em busca de estudos. Penúltimo filho de uma prole de seis, a mãe, viúva que recebia uma pensão modesta, não tinha condições de mandar o rapaz para Salvador, o que seria um caminho natural. Como uma das irmãs já morava em Brasília, ele veio de mala e cuia para ganhar a vida.

A década de 1960 estava na metade e o programa Jovem Guarda bombava nas tardes de domingo. Irlam não perdia um. Morou em Taguatinga, depois em uma pensão na W3 Sul. Estudou no Elefante Branco e passou no vestibular de letras para a Universidade de Brasília (UnB). ;Na época, o curso de jornalismo era um apêndice do de letras. Entrei para este, mas me formei em jornalismo em 1972;, conta ele.

A música já era objeto de interesse desde a infância, na Bahia, quando o serviço de alto-falante da pracinha de Barreiras divulgava Ângela Maria, Orlando Silva e Nora Ney, e chamava a atenção do moleque. As paradas de sucesso das rádios traziam Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. O menino Irlam costumava anotar as letras cantadas por seus artistas preferidos. ;Uma das primeiras músicas que me recordo de ter memorizado foi A noite do meu bem, de Dolores Duran;. Já em Brasília, trampando como office-boy de uma loja de eletrônicos, na Rua da Igrejinha, juntava o que sobrava de grana para comprar LPs. Em Taguatinga, era assíduo nas rodas de violão dos amigos, em que Chico Buarque e a bossa nova davam o tom até o dia amanhecer. ;Eu não tocava nada, mas gostava de cantar;, diz ele.

A Era dos Festivais apresentou a Irlam os artistas com os quais teria mais proximidade durante a trajetória jornalística. A Tropicália de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, principalmente, configurara-se um marco para o futuro repórter, no fim da década de 1960. Baianos como ele, tais artistas, ao lado de Maria Bethânia, são os que ainda hoje falam mais forte a Irlam. Os irmãos Caetano e Bethânia, ele não esconde, são os que mais lhe tocam. Ao longo das quatro décadas de Correio, foram incontáveis as ocasiões que o jornalista conversou com a dupla. Todas as vezes que eles vêm a Brasília, Irlam apressa-se em entrevistá-los. Sai na frente, como um furacão.


Formação
Um dos hábitos de que Irlam não abre mão são as idas ao Rio de Janeiro ; seja nas férias seja para realizar alguma pauta. A primeira vez, ele conta, foi em 1972. Na ocasião, a colossal admiração por Caetano Veloso fez com que ele fosse o terceiro a comprar o ingresso para um show do baiano no Teatro João Caetano, pouco depois da volta do exílio londrino. As noites cariocas lhe trouxeram também a oportunidade de assistir Gal em seu momento mais brilhante, o show Fa-Tal ; Gal a todo vapor, e a musa Bethânia no emblemático Rosa dos ventos.

;Foi um período muito rico para a minha formação e para situar meu gosto musical;, acredita. Irlam já esteve pessoalmente com Bethânia pelo menos uma dezena de vezes. Quando o vê, a Abelha Rainha abre o sorriso e o chama de ;querido;. ;Em uma das vezes que ela veio se apresentar em Brasília, eu estava na produção e ouvi de Bethânia que ela só daria entrevista para o Irlam do Correio;, conta o jornalista Vinicius Nader.

Irlam trabalhava na assessoria de imprensa do Governo do Distrito Federal quando, em 1975, foi convidado para ser repórter da editoria de esportes do Correio Braziliense ; à época dirigido por Ary Cunha ; pelo colega José Natal. Era 24 de junho. Apaixonado por futebol, ele havia estagiado cobrindo jogos no extinto Diário de Brasília. Já no Correio, o interesse pela música fez com que, eventualmente, o jornalista colaborasse para o caderno cultural. ;A primeira grande cobertura que fiz foi do show do Doces Bárbaros, formado por Gal, Gil, Caetano e Bethânia, em 1976;, recorda. No ano seguinte, foi oficializado como repórter do caderno hoje conhecido como Diversão.

O jornalista teve como editor, entre outros, o poeta Reynaldo Jardim e Maria do Rosário Caetano. Entre os colegas, nomes como Glauber Rocha e Rogério Duarte. Todos os shows que vinham à capital passavam por Irlam, e assim ele conheceu Cartola, Milton Nascimento, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Nelson Cavaquinho, Novos Baianos, Ney Matogrosso, Rita Lee, Clementina de Jesus, Raul Seixas, João Bosco e Marisa Monte. A persistência fez com que Irlam se tornasse uma referência na cobertura de eventos musicais na cidade, ofício que, ainda hoje, ele exerce com propriedade e entusiasmo.

Um dos momentos dos quais Irlam se lembra com muito carinho foi quando foi convidado pela conterrânea Ivete Sangalo para acompanhá-la em uma turnê por cidades portuguesas, em 2005. Ele esteve também no primeiro Rock in Rio, em 1985, em que se deparou com a sonoridade do Queen e do Iron Maiden. Na lista de shows internacionais, ainda, nomes como Paul McCartney, Rolling Stones, Prince, Nirvana, Elton John, Stevie Wonder e Red Hot Chili Peppers.

Sons da Noite
Nos últimos 30 anos, Irlam assina uma coluna semanal ; atualmente chamada de Sons da noite ; em que apresenta aos leitores, muitas vezes com exclusividade, os shows imperdíveis que virão à cidade. Muitas vezes, Irlam vai ao Rio antes para conferir as apresentações e publicar suas famosas notas com mais propriedade. O espaço também foi importante para que desse voz a uma das facetas das quais mais se orgulha enquanto repórter, o de dar voz a artistas surgidos em Brasília.

Os ;ilustres brasilienses;, como Irlam se refere a Oswaldo Montenegro, Renato Russo, Cássia Eller, Zélia Duncan, Rosa Passos, Hamilton de Holanda, e ao pessoal do Capital Inicial, Plebe Rude, Natiruts e Raimundos, sempre tiveram espaço de sobra nas reportagens do jornalista. ;Orgulho-me muito de ter contribuído com a cultura musical de Brasília. Mas é preciso, cada vez mais, que as pessoas tomem nota do que rola por aqui;, torce ele. Uma das últimas apostas de Irlam foi o guitarrista Pedro Martins, que vai representar a capital no Montreux Jazz Festival, na Suíça, em julho.

;Muitos artistas só conseguiram reconhecimento em Brasília e fora dela graças à generosidade e impulso dados em começo de carreira, e durante toda ela, p

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