Um ano de barbáries

Um ano de barbáries

Estado Islâmico celebra primeiro aniversário do califado e inspira os chamados "lobos solitários". Analistas veem risco de atentados

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 30/06/2015 00:00
 (foto: Kenzo Tribouillard/AFP )
(foto: Kenzo Tribouillard/AFP )



;A bandeira do Estado Islâmico, a bandeira do Tawhid (monoteísmo), se levanta e tremula. Sua sombra cobre a terra de Aleppo a Diyala. Sob ela, as paredes dos tawaghit (governantes que reivindicam os direitos de Alá) foram demolidas, suas bandeiras caíram e suas fronteiras acabaram destruídas. (;) Os muçulmanos estão honrados. Os kuffar (infiéis) são desonrados.; Em 29 de junho de 2014, Abu Bakr Al-Baghdadi anunciou a criação de um califado nas áreas conquistadas pelo Estado Islâmico (EI), grupo fundado por ele próprio um ano antes. Al-Baghdadi se intitulou califa e ordenou que todo o islã lhe jurasse obediência. A reinstalação do governo regido pela sharia (lei islâmica) desde o colapso de Abdülmecid II, o último dos califas, nove décadas atrás, seduziu seguidores de Alá.

Em um ano de califado, os jihadistas executaram mais de 3 mil sírios, expulsaram 60 mil do norte do país; impuseram o horror, com decapitações e execuções cruéis; obtiveram a lealdade de grupos extremistas no exterior, como o Boko Haram (Nigéria) e o Al-Shabaab (Somália); e inspiraram os ;lobos solitários;, elementos radicalizados que afirmam agir em nome do EI.

Três dias após um militante matar 38 turistas no resort tunisiano de Sousse, incluindo 30 britânicos, o premiê do Reino Unido, David Cameron, alertou: ;Há pessoas no Iraque e na Síria que estão planejando realizar atos terríveis no Reino Unido;. Um dos principais inimigos do Ocidente, o clérigo salafista Anjem Choudary afirmou ao Correio que os britânicos ;deveriam se sentir bastante amedrontados e tomar medidas de precaução;. ;Um atentado similar ao que ocorreu em 7 de julho de 2005 é muito mais provável hoje do que dez anos atrás;, advertiu, por telefone, de Londres. ;O regime de Cameron tem imposto as leis mais draconianas neste país, ao tomar passaportes e aprisionar pessoas. Ele sabe que será confrontado, em solo britânico, muito em breve;, emendou.

Alberto Pfeifer, professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP), lembra ao Correio que o califado islâmico começou por Estados considerados mais frágeis sob o ponto de vista político: enquanto o Iraque tenta se reerguer, depois da ocupação anglo-americana, a Síria mergulha na guerra civil. ;Os jihadistas podem buscar expandir o califado para Líbano, Jordânia, Turquia, Irã e Kuwait. A ameaça existe, mas o custo seria mais alto;, disse. O analista crê que o Ocidente segue sob o risco de ataques isolados.

O analista político sírio Ammar Abdulhamid vê as ações de lobos solitários como grave ameaça. ;Elas podem envolver alguém que estivesse fora do radar antes de ser radicalizado. Além disso, a escolha dos alvos é difícil de prever, pois dependeria da predileção desses indivíduos.;

Autora de A Fênix Islamista: o estado islâmico e a reconfiguração do Oriente Médio (Ed. Bertrand Brasil), a italiana Loretta Napoleoni admite a possibilidade de ataques nos próximos dias. ;Na cultura muçulmana, o aniversário é muito importante e tem grande simbolismo;, disse. O risco maior, segundo ela, parte dos lobos solitários. ;Desde os atentados de 11 de setembro, muçulmanos têm se organizado para cometer atentados. Os massacres na Tunísia e no Kuwait ; na sexta-feira, um homem-bomba matou 28 xiitas numa mesquita ; foram feitos para marcar o primeiro aniversário do grupo;, comentou. Ela reforça que o EI se expandiu, ainda que sob circunstâncias hostis. ;A facção tem sido alvo de ataques da coalizão e de tropas iraquianas e curdas, mas ganha força. O último ano foi muito bom para o grupo, em termos de propaganda, um importante método de recrutamento.; Napoleoni estima em 200 mil o número de combatentes do Estado Islâmico.

Prisões

A Tunísia anunciou a prisão de um grupo suspeito do atentado de sexta-feira em Sousse e mobilizou mil soldados para patrulhar as praias do Mar Mediterrâneo. Os ministros do Interior Bernard Cazeneuve (França), Thomas de Maizi;re (Alemanha) e Theresa May (Reino Unido) visitaram o local da tragédia e depositaram flores. O titular da mesma pasta na Tunísia, Najem Gharsalli, anunciou que os detidos integram uma rede envolvida no ataque. ;Prometo que estes assassinos serão levados à Justiça;, disse.




Unesco vê ;crime de guerra;

A Unesco denunciou, em resolução adotada em Bonn, os ;ataques bárbaros; do EI contra sítios arqueológicos na Síria e no Iraque. ;Os ataques intencionais a edifícios consagrados ao culto religioso, à educação, à arte, à ciência ou à caridade, bem como a monumentos históricos, podem constituir crimes de guerra;, afirma. A resolução cita ;profunda preocupação; com a cidade de Palmira (Síria). Em fevereiro, os jihadistas destruíram estátuas de um museu em Mossul, no Iraque.


Eu acho

;O último ano foi de incrível sucesso para o Estado Islâmico. A quantidade de recursos humanos e de conquistas militares está além das expectativas. Os jihadistas não lutam apenas contra Iraque e Síria, mas contra os americanos, os sauditas e aliados. O Estado Islâmico chocou o mundo inteiro.;

Anjem Choudary, clérigo salafista em Londres e um dos principais jihadistas inimigos do Ocidente



;Para o Estado Islâmico, os ataques dependem apenas da prontidão operacional. É possível que os jihadistas queiram comemorar o primeiro aniversário do califado, não necessariamente hoje (ontem). Ataques podem ocorrer uma semana antes ou na semana posterior ao aniversário.;

Ammar Abdulhamid, analista sírio e ativista pró-democracia baseado em Washington

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