Eu não desperdiço

Eu não desperdiço

Conheça soluções encontradas por moradores da cidade para não jogar no lixo alimentos que podem ser reaproveitados. Estudo da FGV indica que exageros gastronômicos cometidos por brasileiros começam no supermercado

postado em 30/06/2015 00:00

O país conhecido como um dos maiores celeiros do mundo também peca pelo exagero. Mais de 30% do que é produzido no Brasil vai para o lixo, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Parte desse desperdício se dá dentro da casa dos consumidores. E por conta de hábitos descomedidos. Estudo recente da Fundação Getulio Vargas, em parceria com a Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, indica que o problema ocorre principalmente pelas compras e pelo preparo feitos em excesso.

O estudo avaliou 30 famílias brasileiras e 20 norte-americanas por meio de entrevistas em casa e fotos feitas durante os processos de preparo, ingestão e descarte de alimentos. Ao analisar os dados, os estudiosos concluíram que o maior fator para o desperdício nos dois países é simplesmente comprar demais. Segundo o pesquisador Gustavo Porpino, trata-se de uma consequência cultural. ;O gosto pela fartura na mesa é um traço muito presente nas famílias brasileiras. A compra abundante gera estoque farto, que, por sua vez, favorece o preparo em abundância. O resultado muitas vezes é mais desperdício;, explica.

Adepta do preparo em abundância, a dona de casa Lucilene Santos, 43 anos, começou a se preocupar com a quantidade de comida que era jogada fora em sua casa há pelo menos seis anos. A partir daí, passou a aproveitar o que sobrava para preparar novos pratos. ;Você vai botando na geladeira e vai estocando. Aí falei: ;vamos dar um tempero porque a coisa está ficando difícil;. Este ano está pegando. Eu nunca passei tanto aperto quanto agora. Está tudo caro;, reclama.

Benjamin Ginoux, 30, também aposta no controle do desperdício de alimentos pensando no bolso. ;Tem dois jeitos de virar rico: ganhar mais dinheiro ou precisar de menos dinheiro;, diz. O professor de francês começou a se preocupar com a questão ainda na faculdade. Formado em economia na Bélgica, Benjamin abordou, em seu mestrado no Brasil, o movimento dos sem terra no Ceará. Durante a tese, se interessou pela trajetória do alimento desde o campo até o prato. Em Brasília, acabou descobrindo uma rede de pessoas que, preocupadas com o meio ambiente, passaram a tomar medidas para promover o consumo sem excessos.

De nacionalidade francesa, Benjamin acredita que, por ter vivido a escassez da guerra, o europeu criou uma consciência em relação ao alimento, mas que há também um descuido grande lá. ;Basicamente, é a mesma cultura. Do ponto de vista da sociedade de consumo, o desperdício não é ruim porque, a partir do momento em que você compra o produto, gera o PIB, e é a única coisa que importa;, critica o francês.

Em casa, Benjamin começou a compostar os restos de alimentos. Cascas, talos e tudo mais que não é consumido vira adubo. A compostagem vai direto para o jardim de temperos e, assim, o professor evita jogar comida fora. Nutricionista do Conselho Federal de Nutricionistas, Luiza Torquato alerta que é importante diferenciar restos de sobras. ;Resto é o que está impróprio para o consumo. Sobra é o alimento que você, às vezes, fez em maior quantidade, vai armazenar, manter em temperatura adequada e de forma que possa ser consumida depois;, detalha. Segundo Torquato, o indicado é que as sobras sejam cozidas acima de 70;C para matar possíveis micro-organismos presentes.

Compras mensais
No estudo da FGV e da Universidade de Cornell, Gustavo Porpino também descobriu que estratégias como compras mensais acabam gerando mais desperdício do que as semanais. Isso porque a primeira requer que as famílias planejem muito bem as refeições, mas as evidências mostram que poucas, de fato, conseguem fazer isso. ;Também há a tendência de esse tipo de compra envolver mais produtos supérfluos, que podem terminar sendo esquecidos na despensa;, completa. Segundo o pesquisador, a solução mais simples é estar preparado: nunca sair de casa sem antes fazer uma lista de compras bem elaborada.

A consultora em gastronomia Amanda Paz, 24 anos, vai às compras semanalmente justamente para evitar desperdícios. Manter uma horta em casa também ajuda no projeto. Além disso, com o que sobra dos preparos, ela cria outros pratos. ;O que eu tento é mudar o tempero. Fazer um caldo, botar tudo no liquidificador e colocar mais alguns legumes. Sempre dá para reaproveitar. E, quando sobra muito, tem o minhocário;, conta.

O sistema de reciclagem com minhocas foi adotado pela consultora há dois meses. Segundo ela, é uma espécie de composteira, mas que age mais rápido por conta da ação das minhocas. Enquanto a primeira leva cerca de seis meses para dar adubo, o minhocário só precisa de um mês. Amanda ressalta que aproveitar os restos de comida é um passo importante para a preservação do meio ambiente. ;O meu lixo pode ajudar a terra a se recompor e criar vida. É uma forma de estar sempre multiplicando vida;.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação