MAIOR ABANDONADA

MAIOR ABANDONADA

Entregue à própria sorte, o time de Dunga nunca esteve tão só no Chile: presidente ausente, dirigentes de primeira viagem, impotência nos bastidores e perda do craque-capitão Neymar deixaram o elenco à deriva

Marcos Paulo Lima
Marcos Paulo Lima
postado em 30/06/2015 00:00
 (foto: Nelson Almeida/AFP)
(foto: Nelson Almeida/AFP)


Aos 100 anos, a Seleção Brasileira é uma espécie de senhora largada em um asilo do futebol. Única pentacampeã do mundo, milionária, badalada e cheia de história para contar, vive um presente melancólico. Até o único ;bisneto; que dava tratamento de luxo à amarelinha virou as costas após um dia de fúria contra a Colômbia na fase de grupos da Copa América. Os dirigentes cuidam da galinha, ou melhor, do canarinho dos ;ovos de ouro;, a distância, com um desleixo incomum. Impotente e sem representatividade nos bastidores do torneio, a CBF negou fogo na batalha com a Conmebol pela redução da pena de Neymar. Rivais, e até mesmo a torcida, perderam o respeito pela camisa verde-amarela. A última prova de maus-tratos ao uniforme cinco estrelas foi a segunda eliminação consecutiva nos pênaltis diante do Paraguai no último sábado.

O abandono da Seleção vai do alto escalão às quatro linhas. Alvo de investigações no escândalo da Fifa, o presidente Marco Polo Del Nero não arrasta os pés do Brasil. Principalmente depois do retorno às pressas ao país após a prisão do antecessor, José Maria Marin, na Suíça. Refém de si mesmo, Del Nero não deu as caras na Copa América. Muito menos enviou um dos quatro vices ou, no mínimo, algum presidente de clube ou federação ao Chile. Ricardo Teixeira, por exemplo, era figura carimbada até mesmo dentro do ônibus da delegação. Na Copa América de 2011, na Argentina, chegou a dar carona no ;baú; da Seleção ao amigo Sandro Rosell, ex-mandatário do Barcelona, em uma tentativa (bem-sucedida, diga-se de passagem) de aproximá-lo de Neymar. Marin também era visto com frequência infiltrado entre os jogadores e a comissão técnica nas copas das Confederações (2013) e do Mundo (2014).

Marco Polo Del Nero nomeou um político, um marqueteiro e um empresário para acompanharem a Seleção, no Chile. Nenhum deles influente na Conmebol. O secretário-geral da CBF, Walter Feldman, era um calouro no cargo. Ex-deputado federal, coordenou a campanha de Marina Silva na última eleição presidencial. Atirá-lo tão cedo na cova dos leões da Copa América foi, no mínimo, imprudente. Além dele, o diretor de Marketing, Gilberto Ratto, está no Chile. O cargo de chefe de delegação é do empresário João Dória Júnior. A missão sempre exigiu dedicação exclusiva para a resolução de questões burocráticas. Porém, o executivo teve autorização para um vaivém de Santiago a São Paulo durante o torneio.

Estrela solitária de uma Seleção carente de talento, Neymar foi a ausência mais sentida dentro das quatro linhas. Não há dúvida de que ele fez falta contra a Venezuela e o Paraguai e fará também nos dois primeiros jogos das Eliminatórias para a Copa de 2018. O Correio mostrou na semana passada que o time só jogou sem seu único fora de série 10 vezes. Foram três derrotas ; todas para adversários posicionados no top-10 do ranking da Fifa, e sete vitórias diante de equipes ausentes no G-10.

Amigos do tetra

Entregue à própria sorte, o técnico Dunga se escora em parceiros do tetra. A semana de ensaios para o duelo com o Paraguai teve entrevistas do auxiliar-técnico Mauro Silva e do preparador de goleiros Taffarel. Em mais uma prova do abandono da Seleção, Taffarel contou que ele e o segurança Fernando, da CBF, tentaram, em vão, convencer Neymar a entrar para o vestiário em vez de aguardar o juiz chileno Enrique Osses no túnel. Pretendia evitar que o craque tomasse satisfação sobre a expulsão. ;Eu presenciei muita gente tentando levá-lo, puxando, falando, mas aquela foi uma decisão dele;, lamentou.

Mauro Silva evitou polêmica. ;Não cabe a mim analisar o Neymar aqui. A minha comissão pode fazer isso. Tenho a minha opinião, mas devo passar internamente, não posso expor aqui;, desconversou na entrevista coletiva. Enquanto isso, outro tetracampeão, o coordenador de seleções Gilmar Rinaldi, segue de plantão com o extintor nas mãos para apagar focos de incêndio. Há cheiro de fritura no prédio da CBF, na Barra da Tijuca, mas Marco Polo Del Nero jura que não.

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