Ivan, o terrível!

Ivan, o terrível!

» Anna Beatriz Lisbôa Especial para o Correio
postado em 30/06/2015 00:00
 (foto: 
Michelle Rolim/Divulgação)
(foto: Michelle Rolim/Divulgação)

"Para mim, ir a Brasília vai ser um grande sacrifício, viu?;, confessa o diretor carioca Ivan Cardoso, antes de ser homenageado no Festival Internacional de Filmes Curtíssimos, que ocupou o Cine Brasília no início do mês. O que irrita o mestre do ;terrir; (mistura entre terror e comédia) na capital federal é a política ; mais especificamente, a corrupção. ;Eu só lamento uma coisa: não existir a guilhotina de Paris aqui no Brasil. Ela ficaria cega, mas cortaria muita cabeça;, ataca Cardoso, misturando franqueza brutal e um humor sinistro característico.

O contato do cineasta de 62 anos com o cinema começou aos 17, época em que conheceu o poeta e letrista Torquato Neto (ele encarnou o melancólico vampiro tropical de Nosferatu no Brasil, primeiro curta-metragem do diretor) e o artista plástico Hélio Oiticica, a quem cita como um de seus mestres. Mais tarde, Rogério Sganzerla completou a formação de Cardoso ensinando-o a ;ser malcriado;, lição que aplicou ao longo da carreira. As cores do tropicalismo, a inquietação do cinema marginal e a irreverência das chanchadas cariocas pulsam na obra do cineasta que transformou o super-8 em arte.

Em entrevista ao Correio, o diretor de O segredo da múmia e As sete vampiras fala de seu novo filme, o inédito O bacanal do diabo e outras fitas proibidas de Ivan Cardoso, inspirado nas antigas sessões de cine-jornal dos cinemas da Pathé (uma produtora francesa). Em tom apocalíptico, o diretor decreta o fim da arte e revela sua indignação com o Brasil, com o governo e com o cinema brasileiro.

O bacanal
O filme é a antítese do cinema brasileiro feito hoje em dia. Para começar, foi realizado com dinheiro do meu bolso. Sabe o que é Cineac? É um cinema da Pathé, que era uma espécie de cinema passatempo, onde passavam jornais. Depois, virou pornô, mas originalmente passavam cine-jornais. Fiz uma paródia desse tipo de sessão. O bacanal tem 24 filmes de três, dois minutos ; de duração variada, mas nessa faixa. Se eu parar de filmar hoje, até eu morrer, eu tenho filme para montar. Sou fotógrafo também, então sempre tive muita facilidade em filmar.

Jackson do Pandeiro
Nessa programação de 24 filmes, tem uns oito que são dos anos 1970, filmes que eu não tinha terminado e são verdadeiras joias cinematográficas. Tem um clipe com o Jackson do Pandeiro, um cara pouco documentado. Tem uma adaptação de História do olho, de Georges Bataille. E o resto eu fiz em vídeo. Agora, sem um tostão de lei de espécie alguma. Essas leis aí só serviram para beneficiar quem não é cineasta. Ou então cineasta que gosta de ficar mamando, cineasta petista. Há 13 anos que eu não ganho nada. Agora, quanto o Luiz Carlos Barreto ganhou? Estou feliz de estar longe disso. Eu não trabalho mais com dinheiro do governo. Cineasta chapa-branca, para mim, não é cineasta.

A arte acabou
O meu filme é para você assistir dançando. É muito melhor você ver um filme dançando do que dormindo. E o filme brasileiro você só pode assistir dormindo. Nem a mulher do diretor assiste. O meu filme é dedicado a Décio Pignatari. A última vez que eu telefonei para o Pignatari, ele estava me contando umas histórias de artistas e tal e, no meio do telefonema, ele caiu na gargalhada e perguntou para mim: ;Ô, Ivanzinho, você não sabe que a arte já acabou?; Isso foi três anos antes de ele morrer. Ele já estava com Alzheimer, mas eu não sabia. E, de fato, acabou tudo, por que a arte não iria acabar?

Cinema digital
Acho gozadíssimo que o cara faz um filme com uma máquina digital e diz: ;É igualzinho a cinema, é igualzinho a negativo.; É porque ele não é fotógrafo. Ele não sabe nem aproveitar a tecnologia nova que tem na mão. Se ele quiser que seja igual a cinema, ele é uma besta quadrada. Primeiro, porque ele não sabe diferenciar uma coisa da outra. Segundo, que deram um avião supersônico e ele quer continuar usando o supersônico como se fosse um quadrimotor a hélice. O maior problema é a miopia institucionalizada. Todos os cineastas agora são míopes. Não tem filme bom. Tem o Tarantino, tem o Godard que ainda está vivo, e acabou.

Homem do cinema
Eu sou um homem do cinema. Você quer ver cinema? Veja meu filme. Dediquei minha vida ao cinema, não ao dinheiro do cinema. A frase do Sganzerla é: ;Defender as pessoas é fácil, mas os filmes é muito difícil.;A coisa é tão discrepante que os produtores viram diretores. Quanto mais dinheiro botarem no cinema, mais picareta vai ter. É igual a centro espírita: quando o dinheiro entra pela porta, o espírito sai pela janela. E olha que você está falando com uma pessoa super comercial. Um primeiro filme aí custa mais que todos os meus filmes juntos. O exemplo mais clássico é o Guilherme Fontes. Como é que você vai dar tanto dinheiro para quem nunca fez filme? Deu no que deu. Não tem mais critério nenhum. Como é que a Petrobras pode mandar no cinema brasileiro, se não manda nem nela?

A capital federal
Acho que Brasília tinha que virar um grande campo de concentração para prender todos os políticos. Porque, tirando um ou outro, é tudo corrupto.

Manifestações
Eu vou sempre aos protestos. Vamos eu e meu cachorro. Mas se tiver alguém a fim de volta de milico, eu ponho o cachorro em cima. Meu avô era general e me ensinou que militar só serve para fazer duas coisas direito: pintar pedra e meio-fio do quartel de branco. Ele foi o último prefeito de Getúlio Vargas aqui no Rio de Janeiro. Eu vejo o Brasil com muita tristeza. Quando eu vejo a guerra do tráfico na minha cidade, policiais negros dando geral em meninos negros e pobres que só têm um calção. E ainda querem levar essas pessoas para a prisão. Será que a vida já não sacanaeou demais elas? Será que elas têm que sofrer mais ainda?

Drogas
Sou a favor da liberação da maconha e de todas as drogas. Se os políticos que são drogas estão soltos, por que as drogas estão proibidas? Quem deveria ser proibido é a Dilma, o Lula, o Eduardo Cunha e o Renan. São as maiores drogas do Brasil. Eles não estão livres? Por que as drogas estão proibidas? Agora, tudo dá errado aqui. Foram fazer essa lei contra a homofobia e o que aconteceu? Deram palanque para o Silas Malafaia. O Brasil é um país condenado ao horror e é um país horrível. Aqui, de uma situação horrível, nós vamos para uma mais horrível ainda: do Lula nós viemos para a Dilma, do Jean Wyllys nós vamos para o Silas Malafaia.

Novos cineastas
Se eu fosse pai deles, eu os incentivaria a serem doutores ou policiais, que nem dizia Raul Seixas. Porque futuro como cineastas eles não vão

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