O desafio do desenvolvimento sustentável

O desafio do desenvolvimento sustentável

Para grande parte dos especialistas em questões ambientais, a adoção de padrões de consumo menos agressivos à natureza deve prejudicar o crescimento econômico

» Humberto Rezende
postado em 01/07/2015 00:00

Apesar de extremamente necessária para a saúde do planeta, uma mudança na forma como as pessoas consomem, tornando-a ambientalmente mais correta, pode prejudicar o crescimento econômico dos países. A percepção é da maioria dos especialistas da área do meio ambiente ouvidos em uma pesquisa apresentada ontem no Seminário Internacional sobre Padrões de Consumo para o Desenvolvimento Sustentável, realizado em Brasília. O estudo, conduzido por Antônio Carlos Filgueira Galvão, diretor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), revela o quanto o enfrentamento das mudanças climáticas é um desafio complexo, que envolve diferentes variáveis e interesses.

Para enfrentar o aquecimento global, todos os países precisam realizar uma série de mudanças que afetam, principalmente, a forma de mover a economia. Usar menos combustíveis fósseis, como petróleo e carvão; apostar mais nas energias renováveis; e parar de derrubar florestas para transformá-las em áreas de plantio são algumas delas. Adotar essas e outras medidas significa promover a produção e o consumo sustentáveis, que também está intimamente ligada à geração de riquezas. Segundo Galvão, tem sido mais fácil para os governos adotarem medidas que tornem a produção menos agressiva à natureza, pois isso pode ser feito por meio de ações como novas legislações e políticas fiscais e de incentivo à indústria. ;A ideia de padrões de consumo é muito mais complicada, pois envolve a mudança de hábitos culturais arraigados;, explica. Por isso, tanto o estudo quanto o seminário focam nesse último aspecto, diz.

Participaram do levantamento 579 especialistas que trabalham com a questão ambiental, sendo a maioria do Brasil (67%), da França (13%) e da Suécia (4%) ; uma forma de comparar as percepções dos profissionais de um país em desenvolvimento com as daqueles de duas nações europeias. Para mais da metade dos brasileiros e dos franceses ouvidos, a transição para padrões de consumo que promovem o desenvolvimento sustentável faria o crescimento ocorrer de forma mais modesta ou o tornaria nulo ou negativo. Entre os suecos, o pessimismo se mostrou maior, com mais de 60% deles pensando dessa maneira.

Quando um estudo semelhante, com especialistas dos mesmos países, foi feito na época da Rio+20, conferência ambiental realizada na capital fluminense em 2012, havia mais otimismo, com um número maior de pessoas que acreditavam ser possível crescer de forma igual ou melhor com a adoção de uma economia verde. Galvão ressalta, no entanto, que alguns ambientalistas veem os dados com otimismo, uma vez que, quando se considera o universo de especialistas que afirmam ser possível adotar um consumo consciente mantendo algum grau de crescimento (seja menor, igual ou maior que o atual), os índices ficam em torno de 90% nas três nações.

;Na verdade, o que os dados mostram é que precisamos debater o tema com mais propriedade;, avalia o diretor do CGEE, organização social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Não é possível ignorar o fato que o desafio não é apenas mudar a forma de produzir e consumir para degradar menos o meio ambiente, mas fazer isso sem aumentar problemas como o desemprego, um dos reflexos do baixo crescimento. Para Galvão, o Brasil tem, a médio prazo, o desafio de ;inocular mais qualidade ao seu crescimento;. Isso significa ser menos dependente das commodities, que geram muito emprego, mas com remuneração mais baixa, e fortalecer a indústria e a inovação. O país, apesar de muitos obstáculos, tem alguns trunfos que podem ajudá-lo, como grande potencial para adoção de energias verdes, a eólica e o etanol, por exemplo; uma cultura estabelecida de reciclagem; e uma agricultura pujante, cada vez mais eficiente em produzir mais em menos espaço.

Prioridades
O estudo capta bem a diferença de necessidades vividas por países desenvolvidos e em desenvolvimento. Hoje, sabe-se que uma economia menos agressiva ambientalmente deve ser construída por todos, mas o que cada um fará é a origem de todos os impasses. Como mudar a economia pode significar crescer menos, ninguém quer se comprometer com metas muito ousadas. No centro desse debate, está o financiamento pelos países ricos de tecnologias verdes para serem adotadas pelos mais pobres, que não têm como arcar uma revolução nos meio de produção sem sacrificar seus orçamentos ou outras ações ainda necessárias, como a universalização do acesso ao saneamento básico.

Essa diferença de visões aparece quando os especialistas são perguntados sobre qual deve ser o foco para a implementação do 10YFP, um programa internacional coordenado pelas Nações Unidas para aprimorar, nos próximos 10 anos, a cooperação entre países visando acelerar a transição rumo a um consumo e uma produção sustentáveis. Para os brasileiros, o principal ponto deve ser a transferência e o acesso a novas tecnologias, um dado que não aparece entre as principais sugestões de franceses e suecos, que dão mais destaque à adequação de recursos financeiros, capacitação e desenvolvimento de redes profissionais e medidas com a taxação maior de produtos pouco duráveis. Para Galvão, o debate do financiamento é central hoje, mas se torna um grande desafio em tempos de crise econômica como agora. ;Há um grande consenso sobre as necessidades, mas há também diferentes interesses que precisam ser enfrentados para entrarmos em uma trilha de cooperação internacional;, avalia.

Para a botânica Laure Emperaire, do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD, na sigla em francês) ; instituição parceira do CGEE no seminário, ao lado do governo sueco e outras entidades brasileiras ; há um desafio a ser superado. ;Estamos com dificuldade de implementar um conjunto de ações comuns para alcançar um consumo socioambientalmente sustentável;, avalia.

Emperaire faz questão de acrescentar o fator social na discussão por considerar que o debate passa pelo respeito à diversidade cultural. Segundo ela, a busca por um consumo sustentável deve, obviamente, se pautar pelo baixo impacto ambiental, mas é preciso evitar o excesso de normatização que impeça modelos de produção e consumo tradicionais, especialmente em relação a sistemas alimentares diferenciados. ;Precisamos abrir para o grande público a importância da diversidade na forma de produzir;, defende, considerando fundamental, também, a divulgação, para o grande público, do conhecimento científico sobre as limitações do planeta para suportar os atuais padrões de consumo.

Outros dois pontos que ela considera valiosos são a construção de

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