Pequenos negócios, grandes clientes

Pequenos negócios, grandes clientes

Nas entrequadras do Plano Piloto e de outras áreas nobre do DF, sobrevive um tipo de empreendimento quase familiar. Os proprietários de quiosques e bancas oferecem serviços variados e mantêm uma relação de amizade com a vizinhança

» PALOMA SUERTEGARAY
postado em 01/07/2015 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)






O quiosque de Lourivaldo Conceição, 51 anos, já integra a paisagem da Quadra 4/5 da Octogonal. Na pequena banca, ao lado da comercial, o sapateiro faz consertos de calçados, bolsas e malas há 17 anos. ;Ao longo desse tempo, conheci muitos vizinhos da redondeza, que hoje são meus fregueses fixos e me procuram quando precisam arrumar alguma coisa;, relata. Negócios como o de Lourivaldo se espalham por toda a cidade e fazem parte do dia a dia do brasiliense. Nas calçadas das entrequadras, nas áreas nobres da capital, é possível encontrar chaveiros, costureiros, relojoeiros e tantos outros comércios. Além de facilitar a rotina de quem mora na área, esse tipo de empreendimento traz vantagens econômicas para os proprietários, como custos mais baratos e proximidade com os clientes.

;As áreas comerciais de entrequadra foram projetadas, inicialmente, para abrigar pequenas atividades, como verdureiro, peixeiro e açougueiro. Com o crescimento da cidade, essa configuração mudou, mas vários quiosques permaneceram, já que a população precisa desses serviços por perto;, esclarece o presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Distrito Federal (Fecomércio), Adelmir Santana. Ele explica que, por surgirem novas bancas permanentemente ; e várias ficarem sem regularização ;, não há dados sobre quantos negócios do tipo existem em Brasília. Santana destaca alguns benefícios desses empreendimentos. ;Eles não precisam pagar os aluguéis caros do centro de Brasília e ficam perto dos clientes, o que é bom para os negócios;, comenta.

Lourivaldo fatura R$ 4 mil brutos por mês com a sapataria. Do total, restam um pouco menos de R$ 3 mil para sustentar a família. Ele mora com a mulher e tem dois filhos. Na mesa de trabalho, ele continua usando a mesma máquina de costura dos primeiros anos do empreendimento, feita de ferro. Apenas o som da televisão, acomodada num canto, acompanha o sapateiro enquanto ele faz os consertos do dia. ;Aprendi o ofício com meu cunhado, que também me passou o ponto. Esse espaço é muito bom, recebo cerca de 15 clientes por dia e não me falta o que fazer. Como apenas pago uma taxa de pouco mais de R$ 100 mensais para ocupar a área, é possível manter o negócio;, relata.

Variedade

Nas bancas e nos quiosques pelas ruas de Brasília, é possível achar diversos serviços. Alguns estabelecimentos, inclusive, oferecem mais de um, com o objetivo de atrair mais clientes. É o caso da RJ Relojoaria, localizada na 214 Sul, que também faz cópias de chaves e trabalha com artigos de segurança eletrônica e tevê a cabo. ;Estamos aqui há cinco anos. Oferecendo um bom serviço, conseguimos uma clientela fixa, o que permite que a gente continue se mantendo;, afirma um dos funcionários do quiosque, Isaque Monção, 20 anos, morador do Novo Gama. Para ele, a localização da banca e a proximidade com os fregueses são pontos muito positivos. Ele aprendeu a profissão com o dono do negócio e, atualmente, está encarregado de treinar um aprendiz.

Boa parte dos quiosques se estabeleceu há um certo tempo, mas continuam surgindo novos negócios entre os blocos da capital. O calígrafo Arlindo Ferreira da Silva, 51 anos, montou a banca na 306 Norte há apenas dois anos. ;Sou militar aposentado e aprendi a caligrafar no meu tempo de serviço. Moro na quadra ao lado e, para aproveitar o tempo, decidi praticar minhas habilidades;, conta. Fazer gravações em alianças, canetas, medalhas e troféus é a especialidade de Arlindo, mas ele também se encarrega de amolar alicates e outros serviços. ;Além de receber muitos clientes, é bom para me manter ocupado. Como minha casa fica perto, é bem confortável.;


Para saber mais

Importância de regularizar

Algumas entidades fazem críticas contra empreendimentos como os quiosques e as bancas nas ruas. ;Eles pagam um preço muito pequeno por estar ali, o que pode ser desleal com as lojas convencionais. Além disso, muitos não são regularizados. É importante que a fiscalização seja aumentada e que a taxa de ocupação de área pública seja reajustada;, defende o presidente do Sindicato de Comércio Varejista do Distrito Federal, Edson de Castro.

Para se formalizarem, os empreendedores precisam ir à Coordenadoria de Cidades, na 509 Norte, e pedir uma autorização temporária, que deve ser renovada a cada 30 dias. O documento demora cerca de uma semana para ser expedido. É necessário apenas pagar uma taxa diária de R$ 0,22 por metro ocupado pelo quiosque, trailer ou similar usado.

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