Agressão racista

Agressão racista

Homem se desentende com dona de comércio em Vicente Pires e a ofende com xingamentos racistas. Em 2015, o MP denunciou 43 pessoas pelo crime

» Luiz Calcagno
postado em 23/07/2015 00:00
 (foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)


O desentendimento entre um cliente e a dona de um restaurante self-service de Vicente Pires terminou em injúria racial e danos materiais. O suspeito, de 29 anos, queria que a empresária Carmem Célia Bispo dos Santos, 46, organizasse um bufê para um casamento. Ela disse que não fazia esse tipo de serviço, e ele reagiu com xingamentos racistas e quebrou pratos, copos e material do estabelecimento. ;Ele disse que não gostava de negros, da raça negra, e que negros não podiam ter restaurantes. Eu respondi que não sabia se podíamos ou não, mas que eu tinha. Não sabia que isso ainda existia;, lamenta. A vítima registrou ocorrência na 21; Delegacia de Polícia (Taguatinga Sul).

O caso aconteceu no último sábado, por volta das 12h30. Carmem e a filha, Ana Célia Santos, 23, não reagiram às agressões. O homem estava vestido com roupas femininas e, quando chegou ao restaurante, levava uma garrafa de cachaça. ;Quando ele chegou, começou a se servir e me perguntou quanto eu cobraria para fazer 60 almoços. Eu disse que não trabalhava com isso. Ele começou a incomodar os clientes e, em seguida, insistiu, dizendo que era trabalho para gente fina. Eu disse, novamente, que não faria. Foi quando começaram os xingamentos e a quebradeira;, lembra.

;Absurdo;

Carmem conta que pensou em não denunciar o agressor, mas, depois, decidiu registrar a ocorrência ;para evitar que o problema se repetisse com outras pessoas;. ;Eu desanimei. Teria de fechar o restaurante e passar a tarde na delegacia. Mas isso não devia acontecer, não hoje. Não quando o presidente do país mais poderoso do mundo é um negro eleito duas vezes;, queixa-se. A filha também se sentiu atingida pelas ofensas. Ana Célia lembrou que o agressor parecia embriagado. ;A gente se sente humilhado. É um absurdo existirem pessoas com essa atitude em pleno século 21.; Carmem nasceu em Amarante, no Piauí, e trabalhou no Distrito Federal como empregada doméstica por 20 anos. Nunca sofreu algo parecido.

A polícia não revelou o nome do acusado. Ele está preso e responderá por injúria racial, com pena de até 3 anos de prisão. Neste ano, o Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) denunciou 43 pessoas pelo crime. Além disso, de janeiro a abril, o número de casos foi 183% maior do que o registrado no mesmo período do ano passado. A Secretaria de Políticas para as Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos registrou 944 casos de injúria racial nos últimos três anos.

A coordenadora do Movimento Negro Unificado, Jacira Silva, defende que casos como esse deveriam ser tratados como crime de racismo, que é inafiançável e imprescritível. ;Defendemos uma revisão na legislação. Buscamos mecanismos para isso. O argumento do delegado é amparado pela lei, pois a discriminação aconteceu com uma pessoa. Mas o cumprimento da norma sempre leva a esse entendimento, do crime de injúria e não de racismo. Mesmo assim, é importante que as pessoas denunciem sempre. A Carmem está de parabéns. Além de procurar a polícia, deve-se registrar ocorrência no Disque-Racismo, do GDF, número 156, opção 7;, recomenda.

Memória

2015

Abril ; A jornalista Cristiane Damacena sofreu diversas ofensas raciais nos comentários de uma foto dela publicada em redes sociais no dia 24. Depois das agressões, milhares de pessoas deixaram recados de apoio à jovem.

2014

Fevereiro ; A manicure Tássia dos Anjos, 22 anos, trabalhava em um salão de beleza, na 115 Sul, quando sofreu agressões verbais por parte de uma das clientes, a australiana Louise Stephanie Garcia Gaunt. A acusada a chamou de ;raça ruim; e foi presa em flagrante. No mesmo dia, a cobradora Claudinei Gomes, 33 anos, foi vítima de insultos racistas por parte de uma passageira.

2013
Junho ; Nathércia de Andrade Rabelo foi presa ao agredir verbalmente funcionários de uma padaria da Asa Sul. Segundo as vítimas, ela não concordou com o preço cobrado por um suco e gritou que os atendentes ;eram negros que queriam roubá-la;.

2012
Abril ; O médico Heverton Menezes chegou atrasado à bilheteria do cinema, em um shopping na Asa Norte, e queria passar à frente de quem estava na fila. Diante da recusa da bilheteira Marina dos Reis, ele a agrediu verbalmente: ;Seu lugar não é aqui, lidando com gente.Você deveria estar na África, cuidando de orangotangos;.

Março ; Após receber quase 70 mil denúncias, a Polícia Federal prendeu dois homens que planejavam um ataque a estudantes de ciências sociais da UnB. Por meio de um site, o ex-estudante da instituição Marcelo Valle Silveira Mello e o especialista em informática Emerson Eduardo Rodrigues postaram mensagens combinando o suposto massacre.

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