Atestada a riqueza dos pampas

Atestada a riqueza dos pampas

Ao analisar o bioma em 19 países, incluindo o Brasil, cientistas concluíram que a diversidade dele se concentra na biomassa logo acima do solo. A descoberta pode melhorar as práticas de manejo

» Vilhena Soares
postado em 23/07/2015 00:00

A diversidade vegetal é um assunto que divide a ciência. Uma parte dos pesquisadores acredita que existe pouca variedade em ambientes menos hospitaleiros, como pradarias naturais. Outra parcela defende que essas regiões são ricas em quantidade de espécies. Pesquisa divulgada na última edição da revista Science atesta o que defende o segundo grupo após levantamentos em 30 planícies abertas, distribuídas em 19 países.

O grupo internacional de cientistas, incluindo brasileiros, argumenta que as novas constatações podem refletir positivamente na produção pecuária e na preservação vegetativa, ajudando também a entender melhor a flora e a fauna do planeta. A intenção era focar na qualidade e na riqueza natural em campos pouco estudados, mas também em risco de degradação. ;As pradarias são os ecossistemas atualmente mais ameaçados pelas mudanças do uso da terra em todo o mundo;, explica ao Correio Valério De Patta Pillar, professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e um dos autores do trabalho.

O grupo de 62 cientistas identificou espécies de plantas e matéria vegetal nas 30 pradarias, incluindo sítios de pesquisa na região dos campos sulinos no Rio Grande do Sul e nos campos de cerrado de Goiás. Eles encontraram uma grande diversidade vegetal, ao contrário do que indicam trabalhos que seguem a outra linha de estudo, como um publicado na Science há quatro anos. ;O nosso, porém, utiliza uma maior amplitude de dados;, destaca Valério Pillar.

O autor também explica que os espaços analisados são usados geralmente como pasto, e a diversividade deles está ligada ao nível de profundidade dos campos. ;A maior diversidade foi encontrada em níveis intermediários de biomassa vegetal ; que foram coletadas acima do solo ;, enquanto que a diversidade diminuiu à medida que a biomassa foi encontrada mais baixa ou mais alta do que nos níveis intermediários;, destaca.

Preservação
Os novos achados do estudo internacional contribuirão para a preservação desses espaços, já que os dados garantem uma melhor orientação sobre como lidar com essas regiões. ;Os resultados têm implicações globais para a gestão e a conservação da biodiversidade, pois indicam que, pelo menos nos ecossistemas de pradarias naturais utilizadas na produção pecuária, em geral menos produtivas do que pastagens cultivadas, seria possível, através da adoção de boas práticas de manejo, aumentar, até certa medida, a produtividade e, ao mesmo tempo, melhorar as condições para a conservação de uma maior diversidade de espécies;, completa o brasileiro.

O trabalho dos pesquisadores seguirá em busca de mais informações sobre a biodiversidade das pradarias. ;Uma questão que poderá ser explorada pelo nosso grupo é obter mais dados sobre as características intrínsecas das espécies e descobrir quais dessas explicam melhor a variação de diversidade e biomassa nas comunidades vegetais analisadas;, adianta Pillar.

O brasileiro reforça que o estudo se torna ainda mais urgente diante do atual período de mudanças bruscas no clima e de grande ameaça à diversidade. ;A humanidade depende de altos níveis de biodiversidade do ecossistema, mas, devido a alterações climáticas e a mudanças no uso da terra, a perda disso é maior agora do que em qualquer outro momento da história;, diz Valério Pillar.


Extensos campos
Biomas compostos por uma planície, sem árvores e arbustos, com uma cobertura formada por capim baixo em grande quantidade. Esses campos estão presentes em áreas de clima temperado e têm nomes diferentes dependendo da região. Na Europa e na Ásia, são chamadas de estepe; na África do Sul, são conhecidas como veld; na América do Norte, são pradarias; e na América do Sul, são definidas como ;pampa;.

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