A internet que liberta (mas que também oprime)

A internet que liberta (mas que também oprime)

Artistas, pesquisadores e cineastas debatem, no Festival Latinidades, a web como território de disseminação de diálogos e resistências

» Adriana Izel
postado em 23/07/2015 00:00
 (foto: 

Reprodução/Youtube

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(foto: Reprodução/Youtube )




O crescimento da internet possibilitou que a sociedade conquistasse um novo espaço, em que cada um pode se expressar e disseminar informação. Essa liberdade fez com que movimentos relacionados a diferentes causas, inclusive a negra, conseguissem derrubar algumas barreiras impostas pelo preconceito e garantir visibilidade em seu discurso.

;Nas antigas plataformas era inadmissível que a comunidade negra tivesse visibilidade. A internet veio para quebrar isso e não só para o movimento negro, mas para todos os outros. Ela tem um valor fundamental de revelação. Quando você cria um blog, você se posiciona;, comenta Dom Filó, produtor, videomaker e criador do Cultne, maior acervo digital de cultura negra do país.

Dom Filó estará hoje ao lado da atriz, produtora e roteirista Kênia Maria, da artista plástica e cineasta Everlane Moares e do músico e fundador da Casa de Cultura Tainã, Mestre TC, na mesa de debate A internet como território negro: afroimaginários, diálogos e resistência, marcada para as 10h no Cine Brasília (106/107 Sul). A discussão faz parte da programação do Festival Latinidades ; Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha ;, que começou ontem e segue até 26 de julho na capital (confira a programação completa no quadro ao lado).

O quarteto discutirá na mesa o poder da internet tanto como um território positivo para o movimento negro quanto um espaço de disseminação de pensamentos racistas. ;Temos a internet hoje como uma chamada ;antena negra;. A partir dessa antena, temos condições de falar sobre nós mesmos e mostrar o nosso olhar. Quero apresentar na palestra todo esse desdobramento, que faço no Cultne, com documentários e um acervo de conteúdo que passa pela questão da cultura da educação até a violência policial;, completa.

Kênia Maria é criadora do canal no YouTube Tá bom pra você?, em que atua ao lado do marido, o ator Érico Brás (Tapas & beijos). No projeto, o casal questiona a ausência do negro na indústria audiovisual e, principalmente, na publicidade. Um dos vídeos mais famosos faz uma crítica à falta de famílias negras nos comerciais de margarina. ;Pretendo focar minha fala no pensamento da ausência de representação. É como se os negros não comesscem margarina, não escovassem os dentes, as mulheres negras não usassem absorvente... Encaro o trabalho do canal como um ato político;, explica.

Sobre a internet, a carioca vê a plataforma como um território que exerce um papel importantíssimo, apesar de ainda não ter atingido o espaço ideal. ;Por falta de organização e mobilização, a gente perde muita coisa. A internet vem para tirar a cortina dos olhos, mas acho que ainda não alcançou tudo que poderia;, lamenta.

Redes sociais
A produtora Kênia Maria acredita que o fato do Brasil ainda ser um país racista é o que faz com que a internet propague situações racistas. ;A internet é um território livre e como o Brasil é um país racista acontecem crime e abusos. Existe uma mobilização de grupos que atacam pessoas como a jornalista Maria Júlia Coutinho, do Jornal Nacional, e até uma criança de uma escola no interior de São Paulo. Temos que combater o crime de racismo na internet, mas para isso o movimento negro precisa se fortalecer e se organizar e, isso não ocorre, por questões históricas, e o racista explora esse fato;, destaca.

Para o produtor Dom Filó, a internet possui os dois lados: o bom e o ruim. ;Se a internet não tivesse as redes sociais ela seria uma plataforma elitizada. Elas são hoje o mote da web. E como tudo, dentro da rede há quem saiba utilizar para o bem e quem não;, defende.

A coordenadora do Festival Latinidades, Bruna Pereira, afirma que a proposta do evento é exatamente focar no lado da internet como uma plataforma que presta um serviço para o movimento negro. ;A internet é um espaço também de enfrentamento ao racismo, que dá visibilidade ao que está acontecendo e denuncia. Além de ser um local de circulação das produções negras;, afirma.

www.correiobraziliense.com.br
Confira a programação completa do Latinidades.



Duas perguntas / Kênia Maria

Você é criadora do canal Tá bom pra você? Quando criou o que pretendia discutir?
O canal foi lançado na internet em maio de 2013 e foi uma ideia que partiu da minha filha. Queríamos questionar a ausência dos negros na indústria audiovisual e na publicidade. Principalmente nos comerciais e no fato de que os negros são mais de 50% da população. Ou seja, quase a maioria, e não são representados. Então, temos esse humor que debocha desse fato de parecer que não fazemos parte. É uma provocação.

O Festival Latinidades tem como foco as questões das mulheres negra. Como você vê o cenário para as mulheres negras?
Eu sou a criadora do canal e roteirista da maioria dos vídeos, mas o meu marido (o ator Érico Brás) costuma ser chamado para falar do Tá bom pra você? Eu sinto que ainda sou colocada em uma posição inferior mesmo sendo empresária, criadora, trabalhando, atuando. Ainda sou a mulher do ator Érico Brás. Acho que as mulheres negras têm questões bem particulares. E isso é um capítulo a parte do movimento negro.

Festival Latinidades
Até 26 de julho, no Cine Brasília (EQS 106/107 ; Asa Sul). Com debates, exibições de filmes, shows, oficinas e festas. Inscrições para as mesas em www.afrolatinas.com.br. Entrada franca. Transporte: Bicicletário, linha de ônibus gratuita da Rodoviária do Plano Piloto para o local e estacionamento no Colégio La Salle (906 Sul), com serviço de van.


Hoje

10h ; Mesa A internet como território negro: afroimaginários, diálogos e resistência. Com Kênia Maria, Dom Filó, Everlane Moraes, Mestre TC e mediação de Juliana Nunes.

14h ; Sessão de curtas com exibição de Kbela (Yasmin Thayná), Mulheres de barro (Edileuza Penha de Souza), Personal vivator (Sabrina Fidalgo) e Caixa d;água ; Qui-lombo é esse? (Everlane Moares).

15h ; Mesa A representação das mulheres negras no cinema. Com Ceiça Ferreira, Juliana Vicente, Janaína Damaceno, Viviane Ferreira e mediação de Flora Egécia.

17h ; Mesa Encontros mostras e festivais: difusão da produção cinematográfica/audiovisual negra e africana. Com Sabrina Fidalgo, Esperanza Bioho Perea Martinez, Pascale Obolo e mediação de Janaína Oliveira.

18h30 ; Orques

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