CPI vai ao ataque contra Catta Preta

CPI vai ao ataque contra Catta Preta

Deputado Hugo Motta, aliado de Eduardo Cunha, rebate declarações de Beatriz Catta Preta, que revelou ter sofrido "ameaças veladas" por parte de integrantes do colegiado

EDUARDO MILITÃO
postado em 01/08/2015 00:00
 (foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados - 24/3/15)
(foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados - 24/3/15)


O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), acompanha passo a passo os movimentos da CPI da Petrobras ; acusada pela advogada Beatriz Catta Preta de fazer ;ameças veladas; a ela a fim de intimidar a defensora e seus clientes, que acusam parlamentares de cometerem crimes na Operação Lava-Jato. O principal canal do deputado é o presidente da CPI, Hugo Motta (PMDB-PB), indicado para o cargo pelo próprio Cunha. Ambos negam o controle, mas o grupo aliado do dirigente máximo da Câmara tem apresentado uma série de requerimentos para constranger delatores. Ontem, os peemedebistas reagiram às acusações da advogada e negaram qualquer ingerência sobre a comissão ou alguma tentativa de ameaça. Motta subiu o tom e disse que há ;indícios; de ;alguns atos ilícios que ela tenha cometido no âmbito do processo da Lava-Jato;.

Hugo Motta criticou a advogada e disse que, apesar da decisão do STF de impedir que ela revelasse dados dos clientes e de seus honorários, a convocação da defensora estava mantida. ;O que é mais estranho é uma advogada criminalista alegar que está sendo ameaçada e não trazer nenhum fato concreto;, ironizou. ;E vir a um jornal de rede nacional querer usar a vitimização para esconder, talvez, alguns atos ilícios que ela tenha cometido no âmbito do processo da Lava-Jato;, acrecentou o presidente da CPI.

Outro aliado de Cunha na CPI é o deputado Celso Pansera (PMDB-RJ), professor de português em seu primeiro mandato e que apresenta a maioria dos requerimentos polêmicos. Saíram do gabinete dele os dois pedidos ; ambos aprovados ; para quebrar os sigilos da mulher, da filha e da irmã do doleiro Alberto Youssef. O delator o chamou de ;pau-mandado do senhor Eduardo Cunha;. Pansera rejeita a pecha de perseguição: ;Quem é que achaca? O bandido ou o deputado?;, afirmou ele ao Correio. O deputado também conseguiu aprovar requerimento para que Catta Preta explicasse a origem dos honorários. Os três requerimentos da CPI foram derrubados no Supremo Tribunal Federal (STF).

Na quinta-feira, Catta Preta disse, em entrevista à TV Globo, que recebia ;ameaças veladas; de integrantes da comissão, e que essa ;pressão; aumentou após o novo depoimento de seu cliente Júlio Camargo ; ele disse ao juiz da 13; Vara Federal de Curitiba, Sérgio Moro, que Cunha lhe cobrou US$ 5 milhões de propina na venda de dois navios-sondas para a Petrobras.

;Autonomia;
Eduardo Cunha foi às redes sociais ontem se defender das suspeitas de controle da CPI e de intimidação indireta. ;Não participei, não participo nem participarei de qualquer decisão sobre investigações da CPI, que tem a sua autonomia;, assegurou. O presidente da Câmara disse que Catta Preta foi convocada antes do depoimento de Júlio Camargo. ;Desconhecia a sua convocação, que se deu, com certeza, antes do delator mudar de versão. E se pesquisarem na mídia, como fiz, fica claro que ela foi convocada antes do delator depor no último dia 16.; Antes disso, porém, já corria a informação no Congresso de que Júlio Camargo havia mudado seu depoimento e acusado Cunha. Segundo Catta Preta, uma oitiva já foi prestada na Procuradoria-Geral da República, mas não se sabe se isso ocorreu antes da convocação da CPI.

Hugo Motta disse que a empresa britância Kroll ; contratada pela Câmara para conduzir uma investigação própria ; pode ter delatores entre seus alvos. ;Os delatores, confessadamente, assumiram que cometeram delitos. Nós precisamos investigar se eles devolveram tudo que desviaram no âmbito da Petrobras;, disse o peemedebista. Para o deputado Júlio Delgado (PSB-MG), a intenção da CPI é anular toda a Operação Lava-Jato. ;A Kroll foi colocada para encontrar algo que fosse divergente, anular as delações e dar uma grande gelatina;, afirmou. Ele duvida que Cunha não interfira na investigação da CPI após decretar sigilo ampliado do trabalho da empresa investigativa. ;Como não tem interferência?;, questionou.

O deputado Ivan Valente (PSol-SP) disse ontem que pedirá a quebra de sigilo bancário de Eduardo Cunha e sua convocação na CPI. ;Para provar sua versão, Eduardo Cunha deveria abrir os seus sigilos fiscal, bancário, telefônico e telemático. Seria coerente com sua política ofensiva, mas isso ele não faz;, ressaltou o socialista, por meio de nota. O deputado defende a convocação de Júlio Camargo, que, segundo Valente, nunca ocorreu por pressão de Eduardo Cunha.

;Para provar sua versão, Eduardo Cunha deveria abrir os seus sigilos fiscal, bancário, telefônico e telemático. Seria coerente com sua política ofensiva, mas isso ele não faz;

Ivan Valente (PSol-SP), deputado

;Não participei, não participo nem participarei de qualquer decisão sobre investigações da CPI, que tem a sua autonomia;
Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara


; Personagem da notícia


Histórico na Satiagraha e no mensalão
Responsável por fechar nove das 24 delações premiadas decorrentes das investigações da Operação Lava-Jato, a advogada Beatriz Lessa da Fonseca Catta Preta (foto) tem histórico de atuação em casos de grande repercussão, como a Operação Satiagraha e o mensalão. No escândalo, descoberto em 2005, ela conduziu a delação de Lúcio Funaro, um operador financeiro próximo do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Formada pela Universidade Paulista (Unip), a advogada atuava, até fechar seu escritório, na área do direito penal empresarial. Sua tarefa é defender investigados acusados de crimes tributários e contra o sistema financeiro. Segundo a revista Veja, a advogada é casada com Carlos Eduardo Catta Preta, um ex-cliente, que foi preso em 2001 transportando US$ 50 mil falsos. Ela o defendeu e os dois se apaixonaram. O marido foi condenado a prestar serviços comunitários em 2003. O casal tem dois filhos. (EM)

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação