TCU será técnico ao julgar as contas de Dilma, diz ministro

TCU será técnico ao julgar as contas de Dilma, diz ministro

A propósito da Operação Lava-Jato, o ministro do Tribunal de Contas da União Bruno Dantas diz que o país não precisa de homens voluntariosos. E sugere ao MP que apresente os nomes e as provas que supostamente incriminam integrantes do TCU

Ana Dubeux Ana Maria Campos
postado em 01/08/2015 00:00
 (foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
(foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)

Em meio ao envolvimento do filho do presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Aroldo Cedraz, nas denúncias de corrupção da Lava-Jato, e suspeitas relacionadas a outros integrantes da Corte, o ministro Bruno Dantas diz que o julgamento das contas de Dilma Rousseff não será contaminado. A análise da execução financeira e orçamentária de 2014, que deve ocorrer neste mês, é considerada um marco na grave crise enfrentada pela presidente da República. Se a gestão for reprovada pelos ministros do TCU, Dilma será julgada pelo Congresso, onde encontra, desde o começo do ano, um ambiente hostil e 12 pedidos de impeachment. Há um ano no cargo, Dantas acredita que a busca e a apreensão na casa e no escritório do advogado Tiago Cedraz não causam, até o momento, constrangimento aos colegas de Aroldo Cedraz: ;O que temos hoje é a palavra de um delator;.

Dantas elogia a atuação do Ministério Público nas investigações, mas pondera que procuradores prestariam um grande serviço ao país se apresentassem quais são os elementos de prova contra integrantes do TCU, citados como suspeitos pela imprensa. ;O que cria, muitas vezes, um ambiente de dúvida e especulação é essa demora entre a acusação e a formalização do procedimento judicial;, observa. Ao comentar as pedaladas fiscais no primeiro mandato da presidente da República, Dantas antecipa: ;O balanço que o governo federal apresentou condiz com a realidade? Os nossos auditores dizem que não;.

Baiano, 37 anos, o ministro tem como característica ser sempre o mais jovem a tomar posse nos cargos que ocupou. Foi assim no TCU, na Consultoria Legislativa do Senado e nos conselhos Nacional de Justiça (CNJ) e Nacional do Ministério Público (CNMP). Bruno deu início à carreira promissora no serviço público depois de passar, aos 19 anos, num concurso de ensino médio do TJDF, onde trabalhou na Vara da Família, em Samambaia. O começo foi difícil, ia de ônibus de Taguatinga, onde morava, para o serviço. Filho de uma funcionária do Banco do Brasil, Bruno enxerga o serviço público como uma revolução social. Antes de chegar ao TCU, ele fez mais de 20 concursos, sendo aprovado em quase todos entre os primeiros colocados. Em entrevista ao Correio, ele fala sobre a carreira, a trajetória como concurseiro e critica o que considera um exagero na exaltação de figuras públicas à frente das investigações da Lava-Jato e do mensalão. ;Eu acredito em instituições fortes. Não acredito em homens voluntariosos.;



O juiz Sérgio Moro estudou bastante a Operação Mãos Limpas e parece inspirado no que ocorreu na Itália. Estamos vivendo uma situação parecida?
Não estudei a Operação Mãos Limpas da mesma forma que ele estudou, mas é possível. Talvez, a gente tivesse que considerar algumas características do Brasil que são bastante diferentes da Itália. Eu acredito em instituições fortes. Não acredito em homens voluntariosos.

O senhor conviveu com o ministro Joaquim Barbosa no CNJ, logo depois do julgamento do mensalão. Nesse período também a imagem do homem se sobrepôs à da instituição, como a de Moro, que tem se destacado. Esses homens fazem a diferença?
Não acredito nisso. Sinceramente, acho que o ministro Joaquim Barbosa teve papel fundamental, mas o que teria sido do julgamento do mensalão, se não fosse o ministro Ayres Britto, presidente do Supremo à época, ter feito todas aquelas reuniões e pautado o processo para ser julgado naquele momento? O que seria do julgamento se não fosse a ministra Rosa Weber, que era a primeira a votar depois do revisor e acompanhou o ministro Joaquim Barbosa em quase tudo? Eu acredito em instituições. O Brasil ; e é natural isso ; sempre mira em heróis. O problema de a gente querer heróis é que, em algum momento, esses heróis acabam eclipsando as instituições. E quando isso acontece, em vez de avançar, a gente retrocede.

As instituições são mais fortes que os homens?
O homem passa. Daqui a pouco, o juiz Sérgio Moro vira desembargador. Como aconteceu com o Fausto de Sanctis. Ele virou desembargador, e aí cadê a Sexta Vara de Combate à Corrupção de São Paulo? Acredito em instituições fortes. Uma coisa muito mais valiosa do que ter um superjuiz é ter uma ordem do CNJ ; e eu participei disso ; que determina a especialização das varas de combate à lavagem de dinheiro, à corrupção. Isso sim é algo que deixa um legado para o país. É claro que homens corajosos, homens destemidos, são algo importantíssimo, mas não podemos perder de vista que somos homens. Somos agentes. Veja aqui as contas do governo. Claro que todo mundo mira o relator, mas é ele sozinho quem vai decidir isso? Foi ele quem descobriu tudo ou foi uma equipe incansável de auditores que se estrutura há mais de 10 anos, passando por cinco presidências? A gente vive um momento de muito culto à personalidade. Para a imprensa, é mais fácil sintetizar tudo numa única pessoa, mas não acredito em avanços a partir de vontades pessoais.

Corrupção e propinas com empreiteiras sempre houve. O que levou neste momento a uma investigação que desbaratou denúncias envolvendo empreiteiras e políticos tão poderosos?

Uma série de fatores. Mas o principal deles foi um correto, adequado e satisfatório aparelhamento das instituições envolvidas. Vai olhar o corpo funcional do TCU. É de dar orgulho a qualquer instituição. O corpo de delegados da Polícia Federal é de dar orgulho a qualquer país, assim como o corpo de procuradores da República. Então, atribuo a uma correta estruturação desses órgãos. Há um certo caldo de cultura que está transbordando agora que é a de mudar o país.

É uma nova geração?

É uma nova ideologia para a classe média brasileira. O serviço público do Brasil hoje é composto por pessoas de classe média, que são aquelas pessoas que nem são pobres o suficiente para não ter esperança nem ricas o suficiente para achar que está tudo bem como está. São pessoas que querem mudar mesmo o país. São pessoas que estão fazendo a diferença.

O TCU considerou, nos últimos 10 anos, 710 empresas inidôneas. As empreiteiras da Lava-Jato pelo envolvimento em crimes
graves devem também ser declaradas inidôneas?

O limite não só do Tribunal de Contas, mas de todas as instituições, é a lei. Três anos atrás, a gente não tinha a lei anticorrupção que responsabiliza as pessoas jurídicas por atos de corrupção. Não tínhamos também uma previsão de acordo de leni

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