Dólar avança para R$ 3,42

Dólar avança para R$ 3,42

No ano, o real é a moeda que mais perdeu valor ante a divisa dos Estados Unidos. Caiu 28,75%, dos quais 10% somente em julho. Deficit nas contas públicas aumenta a desconfiança dos investidores. Inflação deve subir

Simone Kafruni
postado em 01/08/2015 00:00
 (foto: Federico Parra/AFP - 19/2/15)
(foto: Federico Parra/AFP - 19/2/15)


O rombo crescente das contas públicas, a crise política que será retomada com a reabertura do Congresso e a incapacidade do governo de apresentar medidas que possam reverter o quadro assustador da economia deixaram os investidores em estado de alerta. Para não serem surpreendidos com o possível rebaixamento do país ao grupo de nações consideradas especulativas, muitos recorreram o mercado de câmbio em busca de proteção. Resultado: o dólar disparou ontem, fechando, pela primeira vez em 12 anos, acima de R$ 3,40.

;A moeda norte-americana se valorizou em todo o mundo. Mas, aqui, o movimento de alta foi agravado pelos problemas macroeconômicos;, afirmou Lino Gill, economista da DXI Investimentos. O dólar foi cotado a R$ 3,425 para venda, maior patamar desde 20 de março de 2003, com elevação de 1,59%. Em julho, a valorização da divisa dos Estados Unidos foi de 10,14%, menor apenas que a do peso colombiano (10,54%) e a do rublo russo (10,91%).

No cumulado do ano, porém, o real foi a moeda que mais se desvalorizou ante o dólar num grupo de 50 divisas ; baixa de 28,75%. Em 12 meses, as perdas do real chegam a 51%. ;Infelizmente, quando se olha para a frente, o que se vê é a continuidade da alta divisa norte-americana, por causa do possível aumento das taxas de juros nos EUA ainda em setembro. Além disso, não há perspectiva de melhora da economia brasileira tão cedo;, frisou Gill.

Na avaliação dos especialistas, certamente as perdas do real frente ao dólar não seriam tão intensas se o quadro doméstico fosse mais amigável aos investidores. ;Tudo está jogando contra neste momento;, disse o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito. Ele ressaltou que a valorização da moeda norte-americana vai pressionar a inflação. Por isso, o Banco Central decidiu elevar a taxa básica de juros para 14,25% ao ano, mesmo com o país mergulhado na recessão.

O Brasil também está sofrendo com a queda dos preços das commodities, produtos básicos como minério de ferro e grãos que têm cotação internacional. Essas mercadorias respondem pela maior parte das exportações brasileiras. Se as cotações caem, o país recebe menos dólares, o que empurra o real ladeira abaixo. Entre os analistas, há quem já veja o dólar a R$ 3,60 no fim do ano se os EUA realmente elevarem os juros nos próximos meses e os preços das commodities continuarem em baixa.

Bovespa
A disparada do dólar não impediu que a Bolsa de Valores de São Paulo (BM) também operasse em alta ontem. ;Nem sempre há a correlação de que, quando a moeda norte-americana sobe os preços das ações caem. O otimismo do mercado de capitais foi por conta da divulgação de balanços trimestrais de grandes empresas com números positivos, apesar do viés negativo da economia como um todo;, explicou Lino Gill.

O Ibovespa, principal índice da bolsa paulista, cravou alta de 1,94%, chegando a 50.864 pontos. No mês, contudo, o indicador acumulou perdas de 4,17%. Para Gill, apesar da alta de ontem, a tendência da bolsa ainda é de queda, sobretudo, dos ativos de companhias que são prejudicadas pela valorização do dólar. Das 66 ações que compõem o Ibovespa, 16 encerraram o mês com queda superior a 10%.


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