Deus e a natureza

Deus e a natureza

DOM JOSÉ FREIRE FALCÃO Arcebispo emérito de Brasília
postado em 01/08/2015 00:00



Se Deus não existisse, não haveria explicação para a criação. Se fossem diferentes as massas das partículas que compõem o universo ; próton, nêutron, elétron, bóson, afirmam os cientistas ; a Terra seria outra. A explicação está num Ser infinito, que não se confunde com o universo e é o seu autor. Autor, especialmente, da criatura humana. Somos o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é amado, é necessário. Não só a criatura humana, mas todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. ;O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus;, ensina o papa Francisco, em sua notável encíclica Laudato Si.

;Sendo criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado e amoroso. Há um mistério a contemplar numa folha, numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre;, destaca o papa. Tudo está interligado, daí a importância da Amazônia para o conjunto do planeta e para o futuro da Humanidade. A existência humana e a natureza ambiental são inseparáveis, por isso a preocupação com o meio ambiente deve unir-se ao amor sincero pelos homens. Não haverá uma nova relação com a natureza sem um ser humano novo, e isso implica reconhecer e valorizar a sua capacidade de conhecimento, vontade, liberdade e responsabilidade. A grandeza da criatura humana, destaca Francisco, está na ;capacidade de conhecer, amar e dialogar;.

O respeito pela natureza não exclui a intervenção do ser humano sobre ela. ;No entanto, embora o ser humano possa intervir no mundo vegetal e animal e fazer uso dele quando for necessário para a sua vida... as experimentações sobre os animais só são legítimas quando razoáveis e se contribuem para a cura de vidas humanas. Se há interdependência entre o ser humano e a terra que ele habita, é preciso respeitar as comunidades aborígenes com suas tradições culturais.; Nota o papa Francisco: ;Não são apenas uma minoria entre outras, mas devem se tornar interlocutores, especialmente quando grandes projetos afetam seus espaços. Com efeito, para eles, a terra não é um bem econômico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados, que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam interagir para manterem a sua identidade e os seus valores;.

O sumo pontífice defende o ;apreço pelo próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade, para que se possa reconhecer a si mesmo no encontro com o outro, que é diferente;, lembrando que não é salutar um comportamento que pretende cancelar a diferença sexual, ;porque já não se sabe se confrontar com ela;. São ainda inadmissíveis, segundo ele, as grandes distâncias sociais e a indiferença dos que que têm posses, e do Estado, para com os pobres e necessitados.

Não há como negar, em nosso país e na sociedade mundial, a existência dos fossos sociais. ;São cada vez mais numerosas as pessoas descartadas, privadas dos direitos humanos fundamentais;, ressalta o papa, ao fazer um apelo à solidariedade e a uma opção preferencial pelos mais pobres. ;Não podemos esquecer o destino comum dos bens da terra nem deixar de contemplar a imensa dignidade dos pobres à luz das mais profundas convicções da fé.;

O dever primordial dos governantes, particularmente em nosso país, é o de erradicar a miséria e promover o desenvolvimento integral de cada cidadão. Combater o consumo escandaloso de setores de nossa população e a chaga da corrupção. Erradicar a criminalidade organizada, o tráfico de pessoas, o narcotráfico e toda forma de violência. Não podemos esquecer que cada criatura reflete algo de Deus e tem uma mensagem para nos transmitir.

;A natureza está cheia de palavras de amor, mas como poderemos ouvi-las no meio do ruído constante, da distração permanente e ansiosa, ou do culto da notoriedade?;, pergunta o papa. É muito simples, para qualquer um de nós: agradecendo a Deus antes e depois das refeições. Não perdendo a oportunidade de uma palavra gentil, de um sorriso, de qualquer pequeno gesto que semeie paz e amizade.

Na consciência de habitarmos uma casa comum, que Deus nos confiou, rezemos: ;Deus Onipotente, que estais presente em todo o universo e na mais pequena das vossas criaturas, Vós que envolveis com vossa ternura tudo o que existe, derramai em nós a força do vosso amor, para cuidarmos da vida e da beleza;.

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