Ódio sem limites

Ódio sem limites

Colonos judeus atacam duas casas em vilarejo na Cisjordânia, queimam vivo um bebê e ferem gravemente os pais e o irmão da criança. Presidente Abbas promete ir à Corte de Haia, e Hamas anuncia que todos os israelenses são alvos legítimos

Rodrigo Craveiro
postado em 01/08/2015 00:00
 (foto: Fotos: Jaafar Ashtiyeh/AFP)
(foto: Fotos: Jaafar Ashtiyeh/AFP)


Enrolado na bandeira palestina e com a cabeça coberta pelo keffiyeh, o tradicional lenço nas cores preta e branca, o pequeno Ali Saad Dawabsheh, 18 meses, tornou-se símbolo da intolerância, do ódio e de um conflito marcado pela lógica ilógica da vingança. Por volta das 2h15 de ontem (20h15 de quinta-feira, em Brasília), duas casas do vilarejo de Duma ; na parte norte da Cisjordânia, a 17km da cidade de Nablus ; foram incendiadas por três colonos judeus encapuzados. Ali foi levado ao hospital com quase 100% do corpo queimado e não resistiu. Os pais e o irmão, Ahmed, de 4 anos, tiveram queimaduras de terceiro grau entre 60% e 90% do corpo e estão internados em estado grave.

Do lado de fora da casa, os assassinos deixaram mensagens pichadas na parede: ;Longa vida ao rei, o Messias; e ;Vingança;, sob a estrela de Davi. O movimento fundamentalista islâmico Hamas prometeu retaliação e anunciou que todos os judeus são considerados ;alvos legítimos;. Nos arredores de Nablus e em Hebron, manifestantes palestinos entraram em confronto com as Forças de Defesa de Israel (IDF), durante protesto contra a morte de Ali.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, condenou ;outro crime cometido pelos colonos e pelo governo israelense; e anunciou que levará o caso ao Tribunal Penal Internacional, em Haia (Holanda). ;Ninguém nos impedirá de fazer isso. Nós queremos que o mundo aja. (;) É um crime de guerra;, declarou. O premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, telefonou para Abbas e sugeriu união no combate ao extremismo. ;Todos em Israel estão chocados pelo ato de terror hediondo contra a família Dawabsheh. (;) Devemos lutar, juntos, contra o terrorismo, não importa de que lado ele venha;, afirmou o primeiro-ministro ao palestino.

Pouco depois de ficar diante do leito de Ahmed, na sala de emergência do Hospital Sheba, em Tel Aviv, Netanyahu voltou a lamentar a tragédia. ;Eu acabo de visitar um garoto lutando pela vida próximo aos pais, que estão entre a vida e a morte. O Estado de Israel tem os melhores médicos para recuperar a boa saúde do garoto e salvar os pais. (;) É difícil permanecer perto do leito de um garoto, quando você sabe que o irmão mais novo dele foi assassinado. Você se pergunta: ;Por que um ato tão terrível?; Terrorismo é terrorismo. Nós pegaremos os assassinos e os levaremos à Justiça.;

Cerca de uma hora depois do atentado, o ativista palestino Zakaria Sadah ; coordenador da organização não governamental Rabbis for Human Rights (;Rabinos pelos Direitos Humanos;) na Cisjordânia ; visitou a casa dos Dawabsheh. Por telefone, ainda em Duma, ele contou ao Correio que a família dormia em um mesmo quarto, o qual ficou completamente destruído. ;O Exército israelense bloqueou a entrada do vilarejo. Os moradores estavam bastante preocupados com a vida da família hospitalizada;, relatou. ;O grupo responsável pelo crime se chama Nikamah (;Vingança;, em hebraico) e costuma vigiar o povo palestino na Cisjordânia. Foi um ataque conhecido como ;price tag;, o qual ocorre depois da demolição de casas de colonos judeus.; Segundo Sadah, é impossível prever a reação dos palestinos. ;Não podemos impedir que eles tentem capturar os criminosos e entregá-los à Justiça;, afirmou.

Morte em Gaza
Musheer El-Masri, um dos líderes do Hamas, tentava ontem absorver outro golpe. ;Há cerca de duas horas, Israel assassinou um de meus familiares;, explicou, por telefone, ao Correio. Mohammed El-Masri, 17 anos, foi morto por militares ao se aproximar da cerca que limita a zona de segurança, de 300m de largura, na fronteira de Gaza com Israel. ;A ocupação destruiu a paz e tem cometido vários crimes contra o meu povo. Nós apelamos à Autoridade Palestina para que permaneça do lado do povo palestino e enfrente os crimes da ocupação. E pedimos aos parceiros internacionais para que emitam sua opinião contra a ocupação israelense.;O tom mais radical veio com Hussan Badran, um dos porta-vozes do grupo. ;Esse crime fez dos soldados da ocupação e dos colonos, em todos os lugares, alvos legítimos;, disse.

Especialista do Centro para Estudos Estratégicos Besa (em Ramat-Gan, a 47km de Jerusalém), Eytan Gilboa criticou a postura do Hamas. ;Enquanto Israel condena atos horríveis como esse, o Hamas louva terroristas que matam crianças e bebês;, lembrou. O iraquiano Alon Ben-Meir, professor de relações internacionais da Universidade de Nova York, defende que os autores do crime enfrentem ;o máximo peso da lei; e duvida de um ciclo de ataque e vingança. ;Os palestinos vão esperar para ver como as autoridades israelenses vão proceder com a investigação e se os criminosos serão capturados logo. Mas haverá uma elevação da tensão nas próximas semanas;.

Eu acho...

;Eu fiquei chocado. Foram as tristes cenas de luto que me chocaram. Eu jamais tinha algo pior do que esse ataque em toda a minha vida. Foi um ato terrorista. Os dois atacantes estavam mascarados e não disseram nada. Apenas atearam fogo às duas casas. Uma delas estava vazia. Na outra, havia a família do bebê morto. Os colonos não entraram nas casas, atacaram pelo lado de fora.;
Zakaria Sadah, coordenador da ONG Rabbis for Human Rights na Cisjordânia. Esteve na casa da família Dawabsheh uma hora após o ataque

;A ocupação tem cometido muitos crimes contra o nosso povo. Os partidos palestinos precisam enfrentá-los. Pedimos à Autoridade Palestina que conclua a reconciliação com o Hamas. Instamos o povo palestino a sair às ruas e enfrentar a ocupação. Também queremos que a Autoridade Palestina liberte todos os prisioneiros do Hamas.;
Musheer El-Masri, um dos líderes do movimento fundamentalista islâmico Hamas. Perdeu um familiar morto pelas forças de Israel, ontem, em Gaza

Pontos de vista
Por Eytan Gilboa

;Ato horrível de terror;
;Foi um horrível ato de terror, o qual chocou todo mundo aqui. Cada partido e segmento da sociedade israelense, incluindo o presidente Reuven Rivlin e o premiê Benjamin Netanyahu, condenaram nos mais fortes termos o assassinato do bebê e prometeram deter e punir os terroristas.;

Especialista israelense do Centro para Estudos Estratégicos Besa (em Ramat-Gan, a 47km de Jerusalém)



Por Hatem Bazian

;Campanha racista;
;O assassinato de Ali é a continuação de uma campanha de terror levada a cabo pelos colonos racistas contra os palestinos, mas ocorre com o apoio tácito do governo e do Exérci

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