Conexão diplomática

Conexão diplomática

Não causa estranheza que o filho pródigo tenha feito dos valores democráticos e humanitários o capital inicial da investida

por Silvio Queiroz silvioqueiroz.df.@dabr.com.br
postado em 01/08/2015 00:00
 (foto: Saul Loeb/AFP)
(foto: Saul Loeb/AFP)


Entrou mais um no páreo africano
Pode não parecer muito, à primeira vista, mas a breve visita de Barack Obama à África, na semana que termina, tende a ter algum impacto sobre a política brasileira para o continente. A variável a examinar é quanto de simbólico e quanto de efetivo resultará da turnê do primeiro afroamericano a governar a potência hegemônica pela terra dos antepassados. Isso porque o continente habitualmente visto com esgares de piedade e compaixão é hoje, talvez, a última fronteira global de expansão econômica. É um dos mercados que mais se expandem e uma das regiões do mundo que mais crescem.

Olhando da perspectiva de Washington, a visita de Obama pode parecer algo tardia. Em primeiro lugar, porque resta ao presidente americano um ano e meio de mandato ; tempo para pouco ou quase nada, em termos de ação diplomática. Além disso, a essa altura a nova potência econômica emergente parece ter assegurado por bom tempo uma posição absolutamente dominante no contexto africano. Pequim financia alguns dos principais projetos de desenvolvimento e assegurou para si, como garantia de pagamento, as mais importantes reservas minerais.

Não causa estranheza, nesse contexto, que o filho pródigo de pai queniano tenha feito dos valores democráticos e humanitários o capital inicial da investida. No terreno do capital propriamente dito, aquele que expressa e produz riqueza, a concorrência assegurou a dianteira. Curioso que Obama tenha jogado, além do trunfo emocional da visita de Estado ao Quênia, a cartada do discurso perante a União Africana ; inédito para um presidente dos EUA.

Foi com aparições como essa que Lula desbravou caminhos para empresas brasileiras no continente. Graças a elas, o país passou a ser associado não apenas a Pelé, Ronaldo e Ayrton Senna. Nos anos Dilma, a imagem do Brasil volta a se esfumaçar para os africanos.

Trio de ferro
Como desdobramento da ofensiva presidencial dos anos Lula, o capital brasileiro conquistou espaços estratégicos no mercado africano. O saldo pode ser resumido em três nomes que, hoje, convidam a uma reflexão atenciosa sobre o futuro: Petrobras, Odebrecht e Vale do Rio Doce. A empreiteira, por sinal, entra mais como representação de um setor que tem, ao longo de várias décadas, aparecido como a face do país em diferentes países do mundo dito em desenvolvimento.

Petróleo, mineração e projetos de infraestrutura formam o trio de ferro das possibilidades abertas para empresas do Brasil em terrenos onde, por variadas razões, alguns dos gigantes globais não podem ou não querem se aventurar.Expressam, igualmente, algumas das contradições de uma economia emergente que luta para assegurar lugar entre as que formam a divisão de elite da economia mundial.

Pecados capitais
O fator que interfere no momento, e ameaça deixar o Brasil à margem do mercado africano em período particularmente crítico, é o cerco interno e externo aos porta-bandeiras desse projeto de inserção internacional ancorado na diplomacia Sul-Sul. Petrobras e Odebrecht (assim como outras empreiteiras) estão na mira da Operação Lava-Jato. Como consequência, não apenas veem diminuídas as próprias capacidades de investimento, a curto e, possivelmente, também a médio prazo. Ambas têm negócios expressivos em Angola, para onde se voltam os radares dos investigadores no rastro de possíveis operações irregulares.

No caso da Vale, posicionada entre os grandes investidores e empregadores de Moçambique, outro importante polo da África lusófona, os pecados do capital se relacionam mais diretamente à exploração do trabalho e do meio ambiente.

Papel aceita
No quadro dessa recomposição no tabuleiro africano, com os indícios de que o capital norte-americano finalmente esboça uma estratégia para lutar pelo terreno ainda possível em meio à irresistível expansão dos chineses ; e, em menor grau, dos indianos ; o Brasil tem no baralho outra carta que parece fora do jogo nos últimos anos. Siglas como Embrapa e Fiocruz ajudaram a fincar a bandeira verde-amarela no continente nos anos 2000, no embalo de projetos de cooperação.

De lá para cá, algumas das iniciativas mais promissoras ficaram no papel. Entre elas, programas triangulares em que o país entrava com a excelência técnica, como era o caso da produção de biocombustíveis em Gana, para abastecimento da Suécia. Os financiadores europeus e asiáticos, assim como os beneficiários potenciais na África, lamentam hoje que as intenções firmadas há algum tempo mal tenham saído do papel ; que, como ensina o ditado, aceita-as todas.

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