Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Conceição Freitas conceicaofreitas.df@dabr.com.br
postado em 01/08/2015 00:00

Retratos candangos

Tenho diante de mim, todos os dias, um calendário 2015 com fotos de candangos na construção. Um menino ; não mais de 15 anos ; está sentado no meio-fio atrás do Congresso Nacional. Usa chapéu de palha, calça de brim e camisa de malha. Tem o Sol por testemunha. A sombra que se projeta do corpo do candanguinho anuncia que o dia está começando. Mas o garoto não parece disposto com o amanhecer. Com os braços sobre os joelhos, olha para o vazio. Do arquivo do O Cruzeiro.

Na outra imagem, cinco candangos chegam ao que parece ser um canteiro de obras de alguma construtora de Brasília. Os dois da frente estão de calça e camisa branca sobre a terra vermelha. Calça e camisa de tecidos. Calça com prega na cintura, cinto de couro e camisa de manga comprida dobrada até o meio do braço. Três carregam malas de madeira e dois, sacos de estopa com seus pertences. Foto de Jorge Audi, de O Cruzeiro.

Mulheres candangas aparecem numa terceira foto. É uma feira improvisada, com caixas de madeira oferecendo hortaliças murchas. Ao fundo, casinhas populares geminadas, como caixinhas de fósforo coladas umas nas outras. Um jipe com capota de lona. Uma das candangas carrega um galinha pelos pés. Ao fundo, um homem de cócoras aguarda alguma coisa. Imagem de Ubiratan de Lemos, de O Cruzeiro.

Mulheres de saias rodas, vestidos acinturados e lenços envolvendo os cabelos se amontoam diante da Fundação Assistencial Candangos de Fátima, entidade mantida pelos frades capuchinhos. É uma construção de madeira, o que sugere que seja na Cidade Livre nos tempos da construção da capital. Um menino de muleta sorri para o fotógrafo. Um homem de macacão de brim e botina encara a máquina fotográfica. Imagem retirada do acervo de O Cruzeiro.

Dois homens acocorados lavam roupas à beira de um córrego. Ao fundo, camisas secam
penduradas em árvores retorcidas. E ainda mais ao fundo, brotam dois edifícios que, pela forma e distância um do outro, parecem ser dois blocos de superquadras. O registro é de Luciano Carneiro, de O Cruzeiro. Luciano morreria num acidente de avião na volta de uma cobertura do primeiro baile de debutante em Brasília.

Os candangos da construção costumavam usar uma caneca de alumínio ou folha de flandres pendurada no bolso ou no cinto da calça. É assim que o homem negro, de calça de brim, camisa de manga comprida dobrada até o meio do braço, de dois bolsos, chapéu de aba larga, levanta o machado para cortar uma árvore. Há um edifício ao fundo em construção. Parece ser o Brasília Palace Hotel. A foto é de Eugênio Silva, da revista O Cruzeiro.

Corre o tempo, desaparecem as utopias, o país se perde de si mesmo, mas haverá sempre um poema épico brasileiro para nos fortalecer. Pelo menos, a mim fortalece.

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