Educador do êxtase

Educador do êxtase

Biografia reconstitui os lances dramáticos da vida do professor, psicanalista e escritor Rubem Alves, autor de mais de 100 livros e um dos mais influentes pensadores da educação no país

Severino Francisco
postado em 01/08/2015 00:00
 (foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)
(foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)


A vida de Rubem Alves pede mesmo biografia, pois é marcada por reviravoltas dramáticas e lances de superação. Os pais eram donos de quase tudo na cidadezinha em que nasceu, Boa Esperança, no sudeste de Minas. Mas o negócio do café desandou, eles quebraram e se mudaram para o Rio de Janeiro. Na escola, Rubem seria alvo de discriminação por ser pobre e por falar com um sotaque interiorano. Refugiou-se na religião e tornou-se pastor presbiteriano, mas, com o golpe de 1964, foi denunciado por colegas e pela própria igreja. Em um doutoramento em Princeton, nos Estados Unidos, escreveu uma tese em que formula, pela primeira vez, o conceito de teologia da libertação. Ao retornar ao Brasil, em plena era do regime militar, perdeu o emprego e se candidatou a ser vendedor da Enciclopédia Barsa. O nascimento da filha Raquel, com problema na boca, provoca o surgimento do escritor. Ele escreve mais de 40 livros especialmente para a filha.

Pouco mais de um ano depois da morte, o professor, educador, psicanalista e escritor Rubem Alves ganha uma alentada biografia de quase 500 páginas: É uma pena não viver, de Gonçalo Junior (Ed. Planeta). Rubem Alves escreveu mais de 100 livros e permanece um dos educadores mais influentes do país. Nesta entrevista, Gonçalo ; que é o mesmo autor da biografia Quem samba tem alegria, sobre Assis Valente ; fala sobre o dramático período da vida de Rubem sob o regime militar, a importância da filha Raquel na vida dele, o sentido dos embates de contestador das instituições religiosas e educacionais, e do amor pela vida.


Qual é o peso da experiência de ser alvo de discriminação na escola por ser pobre e com sotaque de interiorano no Rio de Janeiro nas concepções de educação de Rubem Alves?
No caso dele e de todo mundo, a experiência de bullling é muito traumática. Acompanha você a vida inteira. Aquele episódio de ser chamado de ridículo por um colega está em muitos textos dele. Quantos artistas não deslancharam por causa de uma humilhação? No caso do Rubem, aquele episódio impulsionou a carreira dele como crítico e teórico da educação no Brasil.

Rubem Alves era um pensador existencialista, mudava com as experiências da vida. Qual foi o impacto do período de repressão durante o regime militar de 1964?
Rubem tem dois livros de memórias, e elas vão dos pais e avós até o golpe militar de 1964, quando nota, nos Estados Unidos, um cara lendo a notícia do golpe que derrubou o presidente João Goullart. Ele jamais completou as memórias. Depois dá um salto, fala da década de 2000, porque foi uma experiência extremamente dolorosa. Aquele período vira um mistério.

E o que aconteceu naquele período sombrio?
Rubem não tinha ideia, morreu sem saber, quanto ele era monitorado pelos serviços de informação até 1985. Existiam mais de 40 fichas sobre ele. Sofreu delação de colegas no tempo em que era pastor da igreja presbiteriana. Mandou jogar os livros no rio, mas conversei com uma mulher que me disse que não atirou os livros na água, pois eles tinham autógrafos, alguém poderia descobrir e comprometer Rubem. Ele sofreu muitas traições, de supostos amigos e da própria igreja, que entregou um dossiê contra ele. Isso matou muito de Deus, da igreja e da fé nele. Mas Rubem passou a acreditar em outras formas de Deus.

Que formas eram essas nas quais passou a acreditar?
Um deus diferente, não cruel, não perverso, que encontrava nas crianças, nas plantas, na natureza, na beleza da luz do sol. Um deus compreensivo e tolerante. Achavam que para fazer uma promessa não precisava arrebentar os seus joelhos em uma penitência. Podia simplesmente tocar música clássica. Era algo superior e espiritual.

Embora tenha abandonado a igreja, em tudo que escreveu e falou havia uma busca da sacralidade...
Ele foi um pastor a vida inteira, fazia pregação o tempo todo. Dizia que a morte era uma companheira implacável, mas era preciso colher morangos. Esse sentido figurado que dava para falar da vida. Mas nos últimos anos, ele pensou muito na morte.

O que ele pensava da morte?
A morte de Rubem foi muito dolorosa; desafio você ler esta parte do livro e não chorar. Questões pessoais foram decisiva para o definhamento da saúde dele. Ele teve uma segunda esposa, a primeira família não recebeu bem, houve pressões de ambas as partes, ele passou a viver atormentado na solidão. Tenta buscar esse segundo amor, mas não quer magoar os filhos, paga um preço muito caro. Teve um câncer no aparelho digestivo, e, em seguida, um enfarto. Só ficou com 80% do aparelho digestivo. Era um cara fortão, muito alto, mas, nos últimos cinco anos, tornou-se uma sombra do que era. Teve de operar do coração e, depois, sofreu com o Parkinson. Mas aceitava a condição com um amor intenso à vida.

É esse o sentido do título do livro É uma pena não viver?
Sim, não é uma frase de efeito. Rubem achava que há pessoas que vivem e outras que existem. Tem muita gente que não aproveita a vida. Preocupa-se com coisas mesquinhas, acumular bens, ter muitos seguidores nas redes sociais, por exemplo. Rubem dava muita atenção às coisas simples e essenciais da vida. Dormir com o barulho da chuva no telhado, ver o sol baixando no horizonte, acompanhar uma planta crescer. A vida é uma coisa divina e a maioria das pessoas não atentava para isso. Ele tinha defeitos e contradições. Mas era muito coerente. Poucas pessoas faziam um exame de consciência tão implacável quanto ele. Dizia: fui estúpido, insensível e preconceituoso. Usava a experiência da vida para o autoconhecimento, para se tratar e tratar os outros, pois ele era também psicanalista.

Rubem Alves escreveu que o amor é a melhor maneira de melhorar a vida das pessoas e do mundo. Ele não pode ser confundido com um autor de livros de autoajuda?
Se você pegar um livro dele, parece autoajuda. Mas autoajuda é algo que acontece de pessoa para a pessoa. E Rubem enfatizava era a sua relação com o próximo, com o mundo e com a natureza. Era uma visão social e humanista. Ele tinha uma visão ácida sobre o sistema de educação, queria uma reinvenção da educação. Mas, de fato, ele era profundamente cristão, humanista e solidário com os pobres. Chama atenção para a mensagem do Cristo que sensibiliza mesmo pessoas ateias como eu, pois confere uma base de valores para viver em sociedade.

Em que medida Rubem Alves é o criador da teologia da libertação?
Ele criou a teologia da libertação nos tempos em fez doutorado na universidade de Princenton, no

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