Correio Econômico

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Paulo Silva Pinto paulosilvapinto.df@dabr.com.br %u2014 Interino
postado em 08/08/2015 00:00
Vamos todos ganhar milhões

Está aberta a maior corrida salarial do serviço público do Brasil, quiçá do mundo. Basta a cada categoria interessada procurar os parlamentares e lembrar-lhes que sua carreira é essencial para o funcionamento do Estado. Não me ocorre uma que não seja, então não será difícil convencê-los. O prêmio a ser conquistado é inscrever na Carta Magna do país que sua remuneração é vinculada à dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), garantindo ganhos de R$ 30 mil no topo da carreira. É melhor correr, porque todo mundo vai fazer isso depois da aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) n; 443, pela Câmara, em primeiro turno, na madrugada de quinta-feira, concedendo esse direito a advogados e delegados da União e de unidades da Federação.

Quem não se movimentar vai ficar de fora. Em meio ao desgoverno em que vivemos, a tendência é de que todo mundo que pedir com certa perseverança acabe levando o megarreajuste. Os trabalhadores da iniciativa privada também vão acabar contemplados por um aumento da mesma magnitude. Afinal, com tantos funcionários públicos ganhando R$ 30 mil, os gastos públicos vão explodir e a inflação seguirá o mesmo caminho. Em breve, vamos ganhar milhões todo mês. Todos nós. E isso não valerá nada. Não faz muito tempo, era assim, lembram-se?

Funcionários do Estado deveriam abrir mão de reivindicar maiores salários? Certamente não. Os brasileiros deveriam exigir serviços públicos de maior qualidade e menor custo? Certamente sim. A questão é que os servidores são também contribuintes e cidadãos. Não adianta querer que a própria categoria se salve e que o país, como um todo, afunde.

Ninguém espera que uma categoria apresente junto de sua pauta um plano para o desenvolvimento do país. Mas é preciso, no mínimo, ter essa preocupação no radar. É algo que resultaria, por exemplo, em necessária humildade por parte alguns defensores dos aumentos salariais gigantescos. Talvez elas até consigam angariar maior simpatia, portanto maior sucesso na empreitada de convencer outras pessoas

O empregador, no caso do serviço público, somos todos nós. E o ideal para quem contrata é pagar o mínimo possível. A única razão para remunerar mais uma função do que outra é a lei da oferta e da procura. Às vezes é difícil encontrar pessoas para preencher a vaga, ou porque o trabalho é indesejável, ou porque a qualificação muito elevada reduz a oferta. Mas a lógica continua sendo a de limitar a despesa: pode-se pagar bem, mas dentro do possível. Como há escassez de pessoas qualificadas no país, a aplicação desse preceito não resultaria em salários aviltantes.

É difícil convencer alguns funcionários públicos dessa ideia, porém. Quem tenta discutir se a média salarial de sua categoria é razoável enfrenta perguntas do tipo: ;você está com inveja?;. É algo claramente irrelevante. O questionador pode almejar a posição da pessoa ou não. O que importa é que a remuneração no serviço público é algo que concerne a todos. É preciso, claro, saber a hora e o lugar de discutir essas coisas.

Outra pergunta com que pode se deparar alguém que questiona a remuneração do servidor: ;Você sabe o quanto é difícil passar nesse concurso?;. É como se o mérito de ter atravessado o certame lhe desse direito a um privilégio, uma capitania, concedida pelo rei. Um tipo de pensamento que vem de nossa herança ibérica. Mas não adiante culpar os colonizadores, porque o país já está há muito tempo em nossas mãos. E, na antiga metrópole, eles evoluíram muito, graças à implantação de critérios de outros países da Comunidade Europeia para o funcionamento do Estado. Em alguns deles, não há diferença de remuneração entre juízes e professores, por exemplo.

República de privilégios
Para ser justo, essa dificuldade para discutir os pleitos e a sustentabilidade das contas públicas não existe apenas entre funcionários públicos. É um problema disseminado. Empresários vivem falando na necessidade de controle dos gastos públicos ao mesmo tempo em que defendem privilégios específicos para o setor em que atuam. Os argumentos, também recorrentes, são de outro tipo: somos responsáveis por milhares de empregos e sofremos com a concorrência desleal de produtores de outros países.

E não são só empresários que batalham por privilégios. Fala-se agora em pauta-bomba, mas o problema é velho. Todos os dias o Congresso aprova pequenos privilégios para determinados grupos. Argumenta-se frequentemente que o custo não é tão grande assim quando se pensa no Orçamento da União ; aliás, algo mencionado por alguns parlamentares em defesa da PEC n; 443. O problema é que a tendência é sempre todo mundo querer ser contemplado pela extensão do benefício. E aí é que nasce o rombo.




Vincular a remuneração de servidores à do STF é o caminho do descontrole inflacionário. Poderemos até voltar àqueles contracheques de sete dígitos, que valiam muito pouco




Acerto nas previsões
; A Itaim Asset Management ficou em primeiro lugar nas previsões para a taxa de câmbio de acordo com o ranking dos Top 5 de estimativas a curto prazo divulgado ontem pelo Banco Central (BC). O Banco Pine liderou nas estimativas da Selic. Para os índices de preços, três instituições diferentes ficaram na frente em precisão: Itaú, no IPCA; Credit Suisse, no IGP-DI; e J. Safra Asset Management, no IGP-M.


Ranking de geração
; A Hidrelétrica Santo Antônio, no Rio Madeira, conquistou a quarta posição em geração de energia no segundo trimestre de 2015, ficando atrás de Itaipu, Tucuruí e Jirau. Santo Antônio, inaugurada em 2012, antes do cronograma original, ainda opera com 32 turbinas. Em novembro de 2016 terá 50 turbinas, com capacidade para atender, no máximo da geração, a demanda de até 45 milhões de pessoas.




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