Negligência com o meio ambiente

Negligência com o meio ambiente

postado em 08/08/2015 00:00

Cinco anos após a edição da Política Nacional de Resíduos Sólidos, série de reportagens do Correio sobre o destino das sucatas de veículos ; automóveis, tratores, aviões e os respectivos componentes ;, iniciada na quinta-feira, mostra o quanto a legislação está longe de impactar positivamente no ambiente e na qualidade de vida dos brasileiros. O modelo econômico, praticado no mesmo período, transitou na contramão da norma ambiental.


Os resíduos de veículos espalhados pelas cidades são focos de disseminação de doenças, sem contar que comprometem a qualidade do solo e da água. Colocam vidas em risco permanentemente. Hoje, estima-se que chegam às ruas do país 3,5 milhões de novos carros. A frota nacional deve somar 86,7 milhões de veículos. O total de unidades descartadas inadequadamente é desconhecido. Em contrapartida, o poder público dá resposta medíocre à realidade, que bem pode ser ilustrada pela dolosa precariedade dos serviços de saúde; pela ausência de gestão competente dos meios de locomoção, que afeta a mobilidade e a acessibilidade; e, enfim, pela ineficiência dos órgãos de fiscalização no controle e defesa do patrimônio natural.


A fim de superar a crise global, o governo optou por estimular o consumo. Apelou para a renúncia fiscal, a fim de favorecer, em especial, os segmentos automobilísticos e de linha branca. Ampliou a oferta de crédito, reduziu as taxas de juros e alongou prazos de pagamento. Mais: modificou a regra de correção do salário mínimo, o que garantiu mais dinheiro no bolso do trabalhador.


Tem sido prática comum focar as medidas econômicas no incentivo ao consumo e na concessão de benefícios ao setor industrial, sobretudo, automotivo e de bens de consumo. Indiscutível a importância dos segmentos, sobretudo, na oferta de empregos. Mas só isso é insuficiente. Os aspectos ambientais são negligenciados, quando, na verdade, poderiam ser caminho lucrativo a ser seguido e dar novo contorno à economia nacional.


A série de reportagens deixa claro que o Brasil não conseguiu, com toda a tecnologia disponível, produzir modelo de desenvolvimento que compatibilize consumo e preservação do meio ambiente. Mostrou que falta ao país política de incentivo à reciclagem, segmento da indústria capaz de dar respostas positivas à necessidade de reduzir o impacto nocivo do consumo desenfreado sobre o acervo ambiental e ter efeitos importantes sobre a renda e a qualidade de vida dos cidadãos. Ao contrário. As empresas preocupadas com os recursos naturais não são contempladas com estímulos.


O Brasil deixa, assim, incompleto o ciclo de produção, ainda que isso implique maior exigência de recursos públicos em setores, como a saúde, em decorrência da inépcia frente às demandas estruturais. Mostra incapacidade de compatibilizar desenvolvimento e preservação do meio ambiente. Ainda que tenha invejável patrimônio natural, o país fica menor frente ao descompromisso do poder público com a sustentabilidade.

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