Dólar em alta, planos em baixa

Dólar em alta, planos em baixa

Aumento da cotação da moeda norte-americana obrigou o brasiliense a mudar hábitos de consumo, adiando viagens ou deixando de consumir produtos. Economistas explicam que novo cenário afeta todas as classes sociais, mesmo que de forma diferente

CAMILA COSTA LUIZ CALCAGNO
postado em 08/08/2015 00:00
 (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

Aquela viagem dos sonhos para o exterior ficará para depois. As compras de produtos importados serão freadas. O comércio também precisará passar por adaptação. Tudo por causa de um motivo: o dólar. Ou melhor, do alto valor da moeda norte-americana, que tem mexido com os planos dos brasilienses. Ontem, o dólar fechou em queda de 0,83%, mas ainda acima dos R$ 3,50 na venda. Um crescimento de 2,33%, em comparação ao mês passado, quando operou em R$ 3,42, no maior valor desde 20 de março de 2003 (R$ 3,478). A cotação segue a lei da oferta e da procura. Se há dólares demais em circulação, o valor cai. Se as notas somem do mercado, aumenta a concorrência entre compradores e vendedores, ou seja, a cotação sobe. O modelo vale para qualquer moeda no mercado internacional e influencia a vida de muita gente.


O servidor público Sgualdo Chianelli, 31 anos, que o diga. Ele e a namorada, a servidora pública Gleis Jesus de Queiroz, 30, planejavam se casar em Las Vegas este ano. Mas o sonho terá de ser adiado. ;O preço do dólar foi decisivo na nossa viagem. Agora, só no ano que vem, se a cotação baixar;, afirmou Gleis. Com a mudança de planos, os dois se juntaram ao casal de amigos, o fotógrafo Magno Silva, 30, e a funcionária pública Evelin Matos, 32, e seguirão um roteiro pela Europa. ;Já que estava caro e íamos gastar mesmo, preferimos ir para a Europa;, explicou Sgualdo. Segundo Magno, a tarefa agora será economizar, também, em euros. ;Não será viagem para compras. A ideia é passear muito, em vez de gastar com compras;, justifica Evelin.


Para o comércio, a situação não é diferente. Muitos planos terão de ser adiados por conta do orçamento. No caso das lojas que trabalham com produtos importados, esse recuo terá de ser ainda maior. O comerciante Antônio Lúcio de Sousa, 44 anos, tem uma loja de vinhos na 212 Sul desde 1986. A previsão era de que este ano pudessem aumentar o espaço da loja, reformar outra parte e incluir novos serviços. No entanto, tudo permanecerá no papel. Pelo menos por mais um ano. ;A cada compra, percebemos que a fatura vem com um valor maior. E não tem jeito. A gente faz um esforço danado, mas acaba tendo que repassar para o consumidor;, explicou. Um exemplo prático é o preço de um vinho com boa saída na loja. Em dezembro, o valor de mercado ficou em R$ 168. Agora, quase sete meses depois, a mesma garrafa não sai por menos de R$ 256.


Economista do Conselho Regional de Economia (Corecon), Roberto Piscitelli explica que a alta no dólar afeta todas as classes sociais, embora de formas diferentes. As classes média e média alta sentem os efeitos mais diretamente, tanto pelo consumo de viagens quanto pela compra de produtos importados. Mas a desvalorização do real afeta também o preço do pão, por exemplo, já que o Brasil importa 50% do trigo utilizado, e até da carne, por conta do uso do insumo na ração dos animais para o abate. Nesse caso, o bolso das classes mais baixas é o mais prejudicado, pois afeta produtos essenciais na mesa de uma parcela da população que tem menor poder de compra.

Ruim para todos
Em resumo, de acordo com Piscitelli, a alta no dólar influenciará negativamente o poder de compra de toda a população. ;Quando o câmbio se torna mais caro e o real se desvaloriza, a população como um todo fica em situação de desvantagem, à medida que produtos importados ficam mais caros. Isso afeta o consumo de diferentes maneiras, dependendo da posição de cada pessoa. Notamos de modo mais sensível a compra no varejo, no comércio, nos bens finais. Mas ela afeta a economia de forma mais ampla, no sentido de que muitos produtos brasileiros utilizam insumos importados, matérias-primas que vêm do exterior;, explica.


Esse efeito dominó no aumento de preços ocorre porque mesmo equipamentos elétricos e eletrônicos produzidos no país dependem da matéria-prima e dos produtos importados. Para as classes mais altas, a desvalorização do real será sentida diretamente por influenciar nos preços de viagens, de vinhos importados e do azeite, por exemplo. ;No caso de viagens, essa percepção é muito evidente, principalmente para famílias que viajam muito para o exterior ou que têm parentes que moram fora do Brasil. A pessoa vai comprar a moeda estrangeira e vê que vai precisar de mais reais para adquirir a mesma quantidade. Mas isso também afetará também o preço do pão, do bolo, do biscoito;, destaca.


Presidente da Federação do Comércio do DF (Fecomércio), Adelmir Santana afirma que o mercado brasiliense já sofre as consequências da alta no dólar, que, segundo ele, também alimenta a inflação. ;Temos muitos produtos vinculados ao dólar: bebidas, cosméticos, massas. As pessoas formaram um hábito de consumo e os preços aumentaram muito. O pior é que isso realimenta a inflação, embora a alta no dólar beneficie exportadores da nossa indústria. Eles receberam mais reais pelo mesmo produto;, pondera.


Segundo Adelmir, é questão de tempo até que a alta do dólar influencie diretamente na mesa da população. Além disso, ele afirma, há um alto índice de endividamento e desconfiança. ;O brasiliense está comprando menos. A nossa sorte é que temos uma forte contingência de funcionários públicos. Mas mesmo eles estão preocupados e reduzindo as compras, sendo mais cuidadosos.;

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