Boa de briga

Boa de briga

postado em 08/08/2015 00:00

Um gesto de Israel Pinheiro fez eclodir o primeiro movimento de cidadania brasiliense. Quando o superpoderoso presidente da Novacap mandou fechar as entradas de Brasília para conter as levas sucessivas de nordestinos que saltavam dos paus-de-arara nas proximidades da Cidade Livre, provocou os brios dos brasileiros que queriam participar da construção da utopia e ter acesso a um cadinho da riqueza que jorrava dos cofres públicos para o canteiro de obras da nova capital.


Impedidos de entrar na cidade, os caminhoneiros largavam os passageiros na entrada da Cidade Livre e pegavam o caminho de volta. Ali, na confluência da BR-060 com a via que hoje dá acesso a Taguatinga, os recém-chegados foram se ajeitando em barracos de saco de cimento, matéria-prima abundante na cidade. Surgiria a Sacolândia e, com ela, o desejo coletivo de participar da construção de Brasília. O fechamento da cidade para novos candangos tinha se mostrado inútil.


Os rejeitados candangos se organizaram para se aproximar de Juscelino, numa de suas visitas à Cidade Livre, e cobrar dele um cadinho da utopia que construía. Antes que o caldo desandasse, Juscelino e Israel se viram forçados a buscar um lugar para acolher a multidão de retirantes ; a maioria deles vindos da terrível seca de 1958.
Às pressas, criou-se Taguatinga.


Esse episódio é conhecido de todos quantos acompanham a história de Brasília. Agora, com o lançamento de Cidade Cidadã, livro do jornalista e advogado Wílon Wander Lopes, o movimento dos moradores da Sacolândia tem o reconhecimento devido. E não apenas como um episódio heroico de brasileiros sem-teto.


Nascida desse gesto de coragem, Taguatinga pegou gosto pela insubordinação civil e, ao longo de seus 57 anos, honrou a origem cidadã. Quando, por exemplo, um grupo de moradores defendeu a Caixa d;Água construída na entrada da cidade, em 1959. Na época da ditadura, se quis derrubar a construção. Havia evidências de que o volume suspenso em colunas provocava acidentes de trânsito, devido a sua localização em percurso viário. Uma ação popular conseguiu impedir, durante dois anos, a destruição de um dos símbolos da cidade. Mas ela acabou sendo derrubada.


Foi em Taguatinga que começou a luta pela emancipação política do Distrito Federal, conta Wílon, dono do Jornal Satélite, que existe há 49 anos. Brasilienses da periferia reclamavam que os prefeitos e governadores indicados destinavam migalhas para as cidades-satélites e todos os recursos para o Plano Piloto. Queriam ter o direito de votar para escolher seus representantes.


Em 11 de outubro de 1984, no auditório da OAB-DF, Wílon perguntou a Tancredo Neves qual a opinião que o candidato a presidente da República tinha sobre o fato de os brasilienses não terem direito a voto. ;Conheço cidadãos cassados, conheço grupos cassados, mas cidade cassada, só conheço Brasília;, respondeu Tancredo. O livro traz depoimentos de taguatinguenses pioneiros, entre os quais o fotógrafo Orlando Brito. O menino Orlando está na foto germinal de Taguatinga. Próximo a ele, o pai, Antônio Brito, e o diretor administrativo da Novacap, Ernesto Silva. Era 5 de junho de 1958, dia em que os brasileiros barrados à entrada da utopia começaram a receber seu cadinho de terra num ermo de uma fazenda chamada Taguatinga.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação