A luta de Zanele

A luta de Zanele

Com retratos íntimos de mulheres lésbicas negras da África do Sul, Zanele Muholi luta pelo fim do preconceito e pelo empoderamento feminino em uma realidade hostil

» REBECA OLIVEIRA
postado em 08/08/2015 00:00
 (foto: Zanele Muholi/Divulgação)
(foto: Zanele Muholi/Divulgação)



Falar em empoderamento feminino e em fim do preconceito contra homossexuais no continente africano exige, no mínimo, destemor e intrepidez. Em Uganda e na Nigéria, por lei, é proibido ser homossexual. O preconceito invade até nações mais desenvolvidas, como a África do Sul, que tem uma das legislações mais brandas do mundo e foi o quinto país do planeta a legalizar o casamento gay, à frente de locais como o Brasil. O abismo entre o cumprimento da legislação que pune a discriminação e o cotidiano de lésbicas negras choca principalmente quem cresceu em meio às dicotomias sul-africanas, como a fotógrafa Zanele Muholi.



Homossexual assumida, Muholi se considera mais uma ativista social do que uma fotógrafa. Seus trabalhos são explícitos e de confronto ao patriarcado. Em uma das séries mais premiadas, Faces e fases, Zanele reivindica igualdade. ;São muitos os nossos desafios. O primeiro é conquistar direitos iguais para todos dentro da comunidade LGBT e interromper padrões heteronormativos. Desde pequenas somos obrigadas e internalizar nossos desejos, esquecendo-nos que os corpos se conectam, e que a sexualidade ultrapassa esses conceitos ultrapassados de gênero;, comenta a artista, em conversa por e-mail com o Correio.



Mulheres negras e transgêneros são o centro dos retratos, em sua maioria na profundidade dos tons em preto e branco. ;Até então, não haviam fotos íntimas e amorosas de lésbicas negras;, conta Zanele, nascida no mesmo país que grandes nomes da fotografia, como David Goldblatt, conhecido pelo olhar crítico em relação ao apartheid. As imagens, aliás, já estiveram em cartaz numa mostra em São Paulo, há dois anos.



Grupo de risco

O amor, riso e alegria que tenta registrar em fotografias contrastam com a realidade de violência, do avanço da Aids, dos crimes de ódio, da pobreza e do desemprego que ainda afligem as mulheres da nação de Nelson Mandela. ;Os pesquisadores tendem a achar que não somos um grupo de risco da Aids, por exemplo. Mas se esquecem que nossas irmãs são estupradas, isso quando não são mortas, algo que acontece com mais frequência do que se pode imaginar;, lamenta.



Um dos objetivos das imagens, ela explica, é criar conscientização na comunidade africana e, quem sabe, sensibilizar políticos e autoridades. Na África do Sul, cerca de 60 mil estupros são denunciados anualmente à Polícia, o dobro do que é registrado na Índia, nação criticada pela onda de ataques coletivos a jovens garotas. Em diversas comunidades, Zanele denuncia que mulheres crescem com a expectativa de serem atacadas, enquanto a maioria dos homens pensa ter poder sobre elas. ;A sociedade sul-africana ainda é muito violenta;, lamenta.




Domínio masculino

O termo patriarcado se refere ao conjunto de práticas interessadas em manter as mulheres sob o domínio dos homens. É uma perspectiva cultural que favorece o sexo masculino em detrimento do feminino e que é reproduzida em todas as esferas sociais, atrasando o desenvolvimento social das nações. O machismo, por sua vez, é a ideologia que mantém o patriarcado.



Para saber mais

Ativista premiada

Zanele Muholi nasceu na África do Sul em 1972. Antes de se iniciar na fotografia, a artista trabalhou como ativista de direitos humanos em Umlazi, cidade onde nasceu. Foi a criadora do Fórum de Empoderamento Feminino em 2002, onde dava visibilidade a questões de gênero.

De alguns anos para cá, passou a receber diversos prêmios como artista e ativista, como o troféu Jean-Paul Blach;re, na Bienal Africana de Fotografia, e o Prêmio Casa África, com o qual foi agraciada em 2009 como melhor fotógrafa residente no continente.

Junto à premiação, Zanele ganhou um livro biográfico sobre a sua obra. As fotos de Muholi também se incluem para além de galerias africanas. Inúmeras exposições e mostras dão espaço a sua arte, como a Figures and fictions: Contemporary South African photography, exposta no Museu Victoria and Albert de Londres, em 2011; e a série Dokumenta13 de Kassel, na Alemanha, em 2012.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação