Diário de uma era de horror

Diário de uma era de horror

Em texto sóbrio e equilibrado, marcado por 2.600 tarjas pretas, prisioneiro narra a passagem por Guantánamo e expõe as práticas de tortura do serviço de inteligência americana

» NAHIMA MACIEL
postado em 08/08/2015 00:00
 (foto: Aljazeera/Reprodução)
(foto: Aljazeera/Reprodução)


Mohamedou Ould Slahi foi preso em novembro de 2001 em Nouakchott, capital da Mauritânia, seu país natal. Dirigiu o próprio carro até a delegacia na qual era requisitado para depor sobre sua suposta participação no Complô do Milênio. Era a segunda vez que as autoridades queriam ouvir o jovem engenheiro sobre suas ligações com uma organização terrorista que planejava uma série de ações desmanteladas pelo governo americano. Mohamedou nunca mais voltou para casa.

Na delegacia, foi interrogado por agentes do Federal Bureau of Investigation (FBI) dos Estados Unidos. De lá, foi levado para a Jordânia, para o Afeganistão e outros lugares não identificados até chegar em Guantánamo. Os militares americanos acreditavam que o mauritano era um integrante estratégico da Al Qaeda e poderia estar envolvido com os ataques do 11 de setembro ao World Trade Center.

De fato, Mohamedou e a Al Qaeda haviam sido próximos em um passado distante. Quando o rapaz era estudante na Alemanha, no início da década de 1990, conheceu membros da organização e decidiu se juntar à luta no Afeganistão. Na época, a Al Qaeda era aliada dos Estados Unidos e lutava contra o comunismo na região. Muitos jovens muçulmanos se juntaram à causa e viajavam às claras. Afinal, os americanos eram os aliados na luta. Pouco tempo depois, o então estudante abandonou a organização e voltou aos estudos.

Quase uma década mais tarde, o serviço de inteligência da Alemanha captou uma chamada do telefone de Bin Laden para Mohamedou. Do outro lado da linha, falava o primo do rapaz, que ainda participava da Al Qaeda. Começou então o suposto envolvimento do estudante da Mauritânia em uma história que, narrada no livro O diário de Guantánamo, parece um roteiro de filme sobre o alcance ilimitado do poderio norte-americano.

Confidencial

Mohamedou está detido há 13 anos na prisão que Barack Obama prometeu desativar. Lá, aprendeu inglês, foi torturado, acusado de terrorismo e nunca teve direito a um julgamento. Entre 2005 e 2006, escreveu um diário que permaneceu classificado como confidencial até 2012, quando o governo americano decidiu liberar uma série de documentos sobre as diretrizes de tortura da CIA e deixou que os escritos do mauritano fossem revelados.

O jornalista Larry Siems se debruçou então sobre as mais de 400 páginas redigidas à mão por Mohamedou e tratou de encontrar uma editora. A publicação ; que no Brasil chega pela Companhia das Letras ; é parte de um processo que Siems identifica como de conscientização da população americana quanto aos métodos empregados nas esferas militares e de inteligência de seu país. Depois dos ataques terroristas em Nova York em 2001, a administração de George W. Bush instituiu o Ato Patriótico e permitiu, entre outras medidas, as práticas de tortura e o sequestro de cidadãos considerados suspeitos de ligação com o terrorismo.

Interrogação

Para Siems, o futuro de Mohamedou, hoje com 44 anos e cujo envolvimento com ações terroristas nunca foi provado, é também o futuro da consciência americana. Em dezembro de 2014, o governo liberou 525 páginas de um documento de 6 mil páginas sobre as práticas de interrogação da CIA, que seriam classificadas como improdutivas e ilegais. O diário de Guantánamo chegou às livrarias um mês depois com 2.600 tarjas pretas de censura oficial. ;Acho que essas histórias foram mantidas secretas com um propósito deliberado: os torturadores precisam desumanizar as pessoas que estão torturando para conseguir torturá-las e uma forma de fazer isso é calar as vozes das pessoas que você está torturando;, diz Siems ao Diversão & Arte.

Em uma narrativa equilibrada e direta, sem exageros nem ressentimentos, Mohamedou descreve a experiência em Guantánamo com os olhos focados no que acontece ao seu redor. A capacidade de observar o ambiente e narrar as histórias que o rodeiam surpreendeu Siems, jornalista que já trabalhou no The New York Times e no The Los Angeles Times e é autor de The Torture Report: What the Documents Say About America;s Post 9/11 Torture Program (;O relatório da tortura: o que os documentos dizem sobre o Programa de Tortura da América pós 9/11;). Abaixo, Siems, que nunca viu ou conversou com o autor do diário, fala sobre a publicação do livro e o que a história de Mohamedou representa para a relação dos Estados Unidos com o mundo.


O diário de Guantánamo
De Mouhamedou Ould Slahi. Organização: Larry Siems. Tradução: DOnaldson M. Garschagen e Paulo Geiger. Companhia das Letras, 460 páginas.
R$ 44,90



>> entrevista Larry Siems

Quando e em que situação você ouviu falar de Mohamedou pela primeira vez?

Ouvi falar dele pela primeira vez em documentos do governo. Entre 2009 e 2011, eu estava trabalhando em um lote de 145 páginas que eram confidenciais e foram liberadas. O documento falava sobre o abuso de prisioneiros em Guantánamo, no Iraque e no Afeganistão e muitos falavam sobre as técnicas de interrogação. Essas técnicas foram planejadas pelos oficiais superiores da administração Bush e foram aprovadas por Donald Rumsfeld, então secretário de defesa. Em 2006, a corte requereu que os militares liberassem as transcrições e isso me deu as primeiras amostras da voz de Mohamedou. Era muito interessante a maneira como ele descrevia o que aconteceu. Ele tinha um conhecimento incrível de Guantánamo, de como chegou lá passando pelo Afeganistão, pela Jordânia. Ele tinha uma voz muito interessante e percebi isso quando recebi o manuscrito do diário em 2012.

Como chegou ao manuscrito?

Ele escreveu em 2005, em um período de alguns meses, e deu aos advogados. Tudo que os prisioneiros de Guantánamo dissessem, escrevessem ou produzissem era considerado confidencial. Então, os advogados deram ao governo americano e o diário foi considerado confidencial por muitos anos. Entre idas e vindas de negociações, processos e litígios, os advogados finalmente conseguiram o direito de revelar o conteúdo do manuscrito no verão de 2012. Nessa época, já sabíamos, porque o governo havia liberado outros documentos, o básico sobre a história que ele contou, sobre como foi preso. Acho que tivemos acesso ao manuscrito em 2012 porque o governo não conseguiu mais argumentar com a corte sobre o porquê de manter a história secreta. Outros documentos já contavam essencialmente a mesma história sobre o tratamento recebido em Guantánamo.

Uma das promessas de campanha de Obama foi desativar Guantánamo. Por que ainda não fez isso, na sua opinião?
Acredito que Obama é muito sério sobre fechar Guantánamo e também acho que isso vai acontecer. Os oficiais sêniores da inteligência americana também acreditam que temos que fechar Guantánamo porque não está acontecendo nada de bom l

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