Renan na liderança

Renan na liderança

Ivan Iunes ivaniunes.df@dabr.com.br
postado em 17/08/2015 00:00


Pela terceira vez em menos de seis meses, brasileiros deixaram o domingo de descanso de lado para protestar. Dessa vez, manifestações ocorreram em ao menos 24 estados e no Distrito Federal. Coros contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua sucessora, Dilma Rousseff, foram ouvidos. Os pedidos de impeachment e de intervenção voltaram à baila. A camisa da Seleção Brasileira foi item obrigatório, e os cartazes de apoio à Operação Lava-Jato e ao juiz federal Sérgio Moro se multiplicaram. Nada disso é novidade para quem acompanha o desenrolar da crise política no país. Tudo já havia ocorrido nas manifestações de março e de abril. Os protestos de agosto, no entanto, trouxeram um cenário substancialmente diferente em torno da disputa pelo poder na Esplanada. Esqueça Dilma, Lula, PSDB e DEM. Até aqui, quem lidera o jogo é Renan Calheiros (PMDB-AL).

Do lado do governo, o Planalto pôs à prova no domingo o acordão fechado com o PMDB do Senado para conter a rebelião deflagrada na Câmara dos Deputados por Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A conta da ;governabilidade; apresentada por Renan condiciona a aprovação das propostas defendidas pela equipe econômica do governo a um pacote feito sob encomenda para ruralistas e tubarões dos ramos de telefonia, saúde e turismo, entre outros mecenas eleitorais. Em outros tempos, seria tachado como o velho toma lá dá cá. Embrulhado pela marquetagem política, virou ;Agenda Brasil;.

As propostas desconsideram minorias, meio ambiente, questões indígena e de direitos humanos, atingem ainda mais o contribuinte, além de esvaziar o poder de atuação das agências reguladoras sobre setores vitais da economia. Parte dos brasileiros que foram às ruas até direcionaram ataques diretos a Renan, mas poucos tinham relação com as propostas. Ele foi alvo do ódio popular por estar supostamente ajudando Dilma a se manter no cargo. Ocorre que o pacote apresentado pelo peemedebista está longe de levar a petista à súbita melhora nos níveis de popularidade.

O que o chefe do Senado fez foi vender caro a permanência da presidente no posto. O preço foi o divórcio definitivo de Dilma com o eleitorado que a elegeu. A tirar pelo resultado das manifestações de ontem, o Planalto deve estar satisfeito. Em termos de presença de público, o movimento contrário reuniu menos manifestantes do que os que toparam ir às ruas em março. Em contrapartida, ainda que em número irrisório, houve quem se dispusesse a participar das vigílias arregimentadas por sindicatos em favor da petista. E o tal pacote de Renan repercutiu mais por manter Dilma no cargo do que pelo teor das propostas absurdas que carrega. Aprová-lo vai ser fichinha.

Popularidade
Os manifestantes que foram às ruas ontem tiveram, pela primeira vez, a companhia direta de líderes de PSDB, DEM e PPS. Nas duas primeiras manifestações, a estratégia das principais bandeiras contrárias ao Planalto foi a de apoiar o movimento, auxiliar no que fosse preciso para que ele arrastasse milhares de brasileiros. A presença física nas ruas, no entanto, foi tímida, quando existiu. Desde então, com a derrocada na popularidade da presidente, a governabilidade na lona e a Câmara dos Deputados em ritmo de festa, a oposição avaliou que era hora de avançar, e mudou de estratégia. Participou ativamente dos protestos. A menor presença da população nas ruas e o posicionamento dos principais nomes do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro a favor da agenda de governabilidade acabaram frustrando os planos, e exigirão uma reavaliação do discurso a ser adotado daqui para a frente.

O cenário inusitado dos protestos de domingo mostra que, hoje, PT, PSDB, governo, oposição, manifestantes pró e contra o governo e, principalmente, o eleitor em geral, estão perdendo o jogo político em torno da crise. Quem vence a disputa, até aqui, é Renan Calheiros.




Os protestos de agosto trouxeram um cenário substancialmente diferente em torno da disputa pelo poder na Esplanada. Esqueça Dilma, Lula, PSDB e DEM. Até aqui, quem lidera o jogo é Renan Calheiros






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