Sinal de alerta aceso no Planalto

Sinal de alerta aceso no Planalto

Aliados dizem que o governo precisa reagir para contornar o momento político. Opositores acreditam que a situação não será pacificada

PAULO DE TARSO LYRA JULIA CHAIB
postado em 17/08/2015 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


Aliados do Planalto, oposicionistas e analistas políticos afirmaram que a presença de milhares de pessoas nas ruas ontem força o governo a manter-se em estado de alerta. ;É preciso ter humildade, pé no chão e trabalhar cada vez mais para reverter essa situação. Tinha uma música cantada pelo Simonal e escrita por Carlos Imperial que dizia: ;Para ter fonfon (aplausos), trabalhei, trabalhei;, disse o líder do governo no Senado, Delcídio Amaral (PT-MS).

Para Delcídio, apesar da expressiva quantidade de manifestantes que pedem o impeachment da presidente Dilma Rousseff, as pessoas começaram a perceber que o país não poderia embarcar em ;uma aventura golpista;. ;Isso significa que o governo está bom? Não. Mas é um claro sinal de que elas também estão dispostas a seguir as regras democráticas. Sabem que temos apenas oito meses de governo e que a presidente Dilma foi eleita para um mandato de quatro anos;, completou o petista.

O presidente nacional do DEM, senador José Agripino (RN), acredita que os protestos são um reflexo da insatisfação dos brasileiros em relação ao governo atual. ;O que eu ouvi hoje (ontem) nas ruas, frente a frente com milhares de pessoas, resume fielmente o sentimento de 71% dos brasileiros que querem o fim deste governo;, afirmou. Mesmo assim, Agripino destacou que a atual crise trouxe mais desgaste para um personagem que ronda o imaginário popular e da oposição para 2018: ;No mesmo plano do ;fora, Dilma; e do ;fora, PT;, entra agora o ;fora, Lula;;, completou.

Também integrante da oposição, o presidente nacional do PPS, deputado Roberto Freire (SP), destacou que as multidões que foram às ruas mantiveram a disposição de protestar, apesar dos movimentos políticos emitidos pelo governo federal na semana que passou. ;Essa manifestação foi uma vitória e ajuda as forças democráticas do país. Mostra que a sociedade não vai aceitar um acordão palaciano entre os Poderes da República;, afirmou, após participar dos protestos que tomaram a Avenida Paulista, em São Paulo. Para Freire, fica evidenciado que o governo Dilma, Lula e o PT têm forte rejeição. ;A indignação é generalizada, mas o clima foi de alegria, com muitas crianças na rua. Mas, quando gritam ;fora, Dilma;, ;fora, Lula; e ;fora, PT;, fica clara a indignação com a corrupção e a incompetência deste governo;, ressaltou.

Já o deputado Danilo Forte (PMDB-CE) acredita que o país sofrerá mudanças a partir de hoje. Ele destacou que, no Ceará, estado governado pelo PT e cuja prefeitura da capital é ocupada por um aliado dos petistas, cerca de 50 mil pessoas foram às ruas em Fortaleza. ;Haverá ainda mais pressão após a queda no repasse do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e da parcela do 13; salário dos aposentados;, disse Forte.

Líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE) reforçou a necessidade de atenção do governo federal, pois a mobilização de ontem demonstrou que ainda existe um grau considerável de insatisfação com a gestão de Dilma. Embora tenha comemorado o fato de, segundo ele, a maioria da população perceber que não existem fundamentações jurídicas e justificativas políticas para a abertura de um processo de impeachment, o governo não pode cometer o erro de ;subir no salto alto; achando que está tudo bem. ;A história está dando à presidente Dilma uma nova oportunidade. Temos que aproveitá-la;, disse Costa.

Ex-líder do PT na Câmara, o deputado Paulo Teixeira (SP) acredita que, afastada, ainda que temporariamente, a pressão pelo impechment, existe uma agenda presente nas manifestações de rua que precisa ser ouvida pelo governo. ;Há uma pressão clara sobre a classe média, principalmente na questão do emprego, da renda e o aumento da inflação;, analisou Teixeira.

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Carlos Melo, professor de ciência política do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa, decretou um empate nas manifestações de ontem. ;Se as pessoas estão desistindo de ir às ruas porque acham que os protestos não surtirão efeito, o governo continua sem conseguir reverter a insatisfação de boa parte da população;, disse. Para Melo, a inflação continua alta e as acusações de corrupção prosseguem, mas os cidadãos estão descrentes porque a política é feita de ;rumos; e ;do dia seguinte;. ;Muitos se questionam o que viria caso Dilma saísse do governo. E a oposição parece não conseguir oferecer uma resposta segura para essa questão;, ponderou.

O professor de ciência política da FGV/Eaesp e da PUC/SP Francisco Fonseca discorda da visão dos petistas e ressalta os riscos ainda presentes do discurso a favor do impeachment e da volta do regime militar. Ele considera que essas demandas tornam o domingo como um dia de luto para democracia brasileira. ;Democracia implica não tolerar a intolerância. Ora, os manifestantes expressam incrível intolerância, pois querem quebrar a ordem democrática pelo impeachment ; que é um golpe branco ;, ou pelo regime militar;, alertou o especialista.




Análise da Notícia

Tudo certo, nada resolvido

; Luiz Carlos Azedo

A presidente Dilma Rousseff e seu estado-maior acompanharam, do Palácio da Alvorada, as manifestações de ontem. O fato de não terem sido maiores do que as realizadas em 15 de março foi comemorado. Caso ocorresse o contrário, poderiam implodir o acordão costurado com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), para barrar a rejeição das contas de Dilma em 2014 e um possível pedido de impeachment na Câmara, que o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ameaçava aceitar.

A lógica dos esforços para manter Dilma no poder a qualquer preço, mesmo com a sua popularidade em nível baixíssimo, parte do princípio de que as crises políticas podem ser resolvidas por acordos de cúpula. Na maioria das vezes, é isso mesmo que acontece. Ocorre, porém, que a política não é monopólio dos políticos, dos militares e dos diplomatas faz tempo. É por isso que o caseiro, o motorista ou a secretária, às vezes, mudam o curso da História. Um juiz federal imbuído de suas responsabilidades, então, nem se fala.

Os manifestantes de ontem, embora em menor número, não são uma força desprezível no processo, ainda mais porque traduziram a insatisfação difusa das manifestações anteriores em objetivos claros: ;Impeachment já;, ;Fora, PT; e ;Corruptos na cadeia

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