Crise força mercado a negociar aluguéis

Crise força mercado a negociar aluguéis

Oferta de imóveis residenciais aumenta e cria cenário favorável aos inquilinos na discussão de valores de locação e renovação de contratos. Com o poder aquisitivo comprimido pela recessão, porém, muitos optam por mudar-se para locais mais em conta

» RODOLFO COSTA
postado em 17/08/2015 00:00
 (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)


A deterioração da economia não está poupando o bolso de quem vive de aluguel. O aumento da oferta de imóveis, em consequência da crise no setor, tem ampliado o poder dos inquilinos na hora de negociar o preço da locação ou a renovação do contrato. Só no Distrito Federal, havia 10,8 mil imóveis residenciais livres para locação em junho último, segundo o Sindicato da Habitação (Secovi-DF), quase o dobro do existente no mesmo período do ano passado. Mesmo assim, a perda do poder de consumo está levando muitas famílias a fazer as malas e se mudar para outro endereço de menor custo. Foi o que aconteceu com a professora Paula Augusto Pinto, 48 anos, que, em três meses após a troca de residência, já economizou R$ 2.250 com aluguel e condomínio. ;Em um ano, serão R$ 10,2 mil que eu terei poupado;, afirma.


No atual ambiente de recessão, a mudança da Asa Norte para o Cruzeiro Velho foi considerada por Paula como uma estratégia eficaz contra o arrocho no orçamento. Endividada, ela está usando parte da economia mensal para honrar os compromissos na expectativa de, após quatro anos, alcançar o sonho da casa própria. ;Após esse período, além de eu estar aposentada, imagino que a economia voltará a crescer e o crédito ficará menos escasso e caro. Por enquanto, mesmo com o dinheiro que sobra, não consigo fazer uma reserva suficiente para dar entrada em um imóvel;, diz.


O mercado de aluguéis tem se tornado um tormento para as imobiliárias. Para minimizar o risco de ficar com os imóveis vagos, corretores estão recomendando aos proprietários que segurem os preços, na expectativa de manter os inquilinos. Apesar disso, o cenário de endividamento elevado, desaceleração da renda, aumento do desemprego e disparada da inflação está comprometendo algumas renovações contratuais.


;Em muitos casos, ainda conseguimos convencer o locatário a ficar. Mas é cada vez mais comum o cliente trocar o imóvel por outro com aluguel mais barato. Se não consegue renovar o contrato pelo mesmo valor ou reduzir a mensalidade, ele não pensa muito para rescindir o vínculo;, diz Rafael Oliveira, gestor do departamento de consultoria da Thaís Imobiliária. Em uma das unidades da empresa, a taxa de desocupação dos imóveis administrados era de cerca de 12% em junho, acima dos 8% registrados no início do ano.

Entregas

Na capital federal, com o avanço de rescisões frente às contratações, a oferta de imóveis para locação, em junho, foi 18,4% superior à de maio, de acordo com o Secovi-DF. Na comparação com junho de 2014, o número quase dobra, chegando a um crescimento de 95,1%. Em grande parte, esse quadro é resultado do período de forte aquecimento do setor, até 2013, no qual as construtoras aumentaram o número de lançamentos. ;Tivemos, agora, uma elevação grande de ofertas em decorrência de muitas entregas de apartamentos que estavam em construção, mas esse número também reflete o ambiente recessivo. Para algumas famílias, é mais eficaz economizar buscando um aluguel mais barato, do que reduzir em outras despesas;, explica Carlos Hiram Bentes David, presidente da entidade. ;Não há dúvida de que as pessoas estão procurando alternativas para diminuir seu comprometimento mensal de renda;, afirma.


No caso da servidora pública Maria do Socorro, 55 anos, a situação foi diferente. A ampliação da oferta ajudou-a a encontrar um imóvel mais perto do local de trabalho. Ao contrário de outros, ela fez o movimento inverso. Abandonou o aluguel de um quarto, que saía a R$ 1 mil, somando condomínio e aluguel, por uma contrato de locação de R$ 1,7 mil. ;Hoje, moro em uma casa com três quartos, sala, cozinha, copa e garagem para três carros. Há um ano, era difícil encontrar algo com essas características e por esse valor;, comemora.

Desaceleração

No Distrito Federal, o índice imobiliário de locação do Secovi-DF, que mede o comportamento geral dos preços dos imóveis ofertados, registrou em junho uma queda de 0,4% na comparação com o mês anterior ;; a terceira consecutiva. No acumulado do ano, o indicador apresenta um recuo de 0,3%. A mediana de um apartamento de três quartos em Águas Claras saiu de R$ 1,8 mil em junho do ano passado para R$ 1,7 mil este ano. Em Taguatinga, os valores de casas de dois, três e quatro quartos também caíram, em desacelerações que chegam a 10,2%.


A expectativa é de menor crescimento também nos reajustes de contratos, apesar do avanço do Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M), o indicador mais utilizado para calcular as correções. ;É um movimento lento. Os proprietários estão percebendo isso e vão fazer algum movimento para obter o que é possível;, pondera Salomão Quadros, coordenador de análises econômicas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).


;Se estivéssemos em uma fase muito aquecida da economia, como há um ou dois anos, dificilmente algum proprietário aceitaria discutir preço. Hoje, a situação se inverteu. O enfraquecimento do mercado, com a perda do poder aquisitivo do inquilino, acaba sendo um fator favorável à negociação;, diz Quadros.

; Locação onerosa

Oferta de imóveis cresce, mas inflação pesa na
hora de renovar o contrato

Índice de reajuste (IGP-M - em %)

Oferta de imóveis residenciais para locação no DF

2014
Jun ; 5.540
Jul 5,32 5.658
Ago 4,88 5.857
Set 3,54 6.069
Out 2,94 8.375
Nov 3,65 8.953
Dez 3,67 8.876
2015
Jan 3,96 8.769
Fev 3,84 7.447
Mar 3,14 8.745
Abr 3,54 9.832
Mai 4,10 9.132
Jun 5,59 10.811
Jul 6,97 ;

Fontes: FGV e Secovi/DF

Multa por rescisão
Quem decidir romper um contrato para procurar por outro imóvel para morar pode estar sujeito a multa. O presidente da Associaç

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