Quatro perguntas para

Quatro perguntas para

José Geraldo Brito Filomeno, Vice-presidente e relator dos trabalhos da comissão que elaborou o anteprojeto do Código de Defesa do Consumidor entre 1988 e 1990.

postado em 17/08/2015 00:00
 (foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)

Como era trabalhar no projeto de um Código de Defesa do
Consumidor em um país que voltava há pouco para a democracia?

O biênio 1987-1988 foi um período extremamente favorável para a elaboração do anteprojeto do código do consumidor: os movimentos de defesa acabaram por conseguir que a sua própria defesa e proteção fosse colocada como um dos direitos fundamentais da Constituição de 1988, determinando, expressamente, que, ao Estado, caberia a defesa do consumidor mediante uma lei específica. Os trabalhos de redação do anteprojeto começaram em junho de 1988, por meio de nossa comissão, instituída pelo extinto Conselho Nacional de Defesa do Consumidor. Todos os passos dos nossos trabalhos eram reportados ao referido colegiado, do qual participavam, ativamente, representantes do setor produtivo e todas as forças vivas da sociedade civil interessadas nessa revolucionária lei.

Quais foram as principais dificuldades para fazer
o anteprojeto? Havia muita pressão dos setores produtivos?
À época, chegou-se a cogitar um desabastecimento por causa da lei;

É evidente que houve debates, muitas vezes acalorados entre os diversos interessados. No início, aliás, a própria imprensa, ao ouvir setores mais radicais, sobretudo da indústria, dizia que uma lei extremamente ;perigosa; estava em gestação, por ;um grupo de terroristas jurídicos!” e que isto seria ;o começo do fim; da atividade produtiva. Os setores econômicos, porém, logo entenderam a importância do código do consumidor para eles mesmos, uma vez que ele prevê, claro, sanções para os maus fornecedores de produtos e serviços.

Na opinião do senhor, 25 anos depois, o Código de Defesa do
Consumidor é exercido em sua plenitude, conforme proposto no anteprojeto?

Penso que muito se caminhou nesses 25 anos: as empresas procuraram se adaptar ao novo código, esforçando-se para o atingimento de objetivos, ao mesmo tempo em que órgãos públicos e entidades civis se prepararam para os novos desafios. Ainda há uma longa marcha a demandar mais informação aos próprios consumidores sobre os seus direitos e, sobretudo, uma maior atenção da parte dos fornecedores no sentido de diminuírem seus ;passivos;, ou seja, pendências e reclamações não atendidas ou mal atendidas, o mesmo acontecendo com os órgãos do Judiciário. Esperamos maior celeridade na condução dos feitos relativos às relações de consumo. Parece-me igualmente de vital importância a educação formal do consumidor, desde a tenra idade até os bancos universitários, e a informação pelos múltiplos meios de comunicação.

O que o senhor espera para as próximas duas décadas
e meia? A atualização que está no Senado é um bom começo?

O que se espera é que o código funcione efetivamente e cada vez mais. Com relação a modificações, não acho as propostas feitas convenientes, muito menos oportunas. O que posso afirmar é que, trabalhando nessa área há 32 anos e à luz da experiência, não podemos deixar que a lei venha a correr o risco de perder o que já foi arduamente conquistado, e sim ser cada vez mais implementada para o bem do consumidor e do fornecedor também.

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