Conversa de gêneros

Conversa de gêneros

Criador de arranjo para o tema de Games of Thrones, o quarteto Break of Reality toca amanhã em Brasília uma mistura de rock e música erudita

» Nahima Maciel
postado em 17/08/2015 00:00
 (foto: Maxim Petrov/Divulgação)
(foto: Maxim Petrov/Divulgação)


A fronteira sagrada entre música clássica e rock não existe para o quarteto Break of Reality. Separar os dois gêneros é excludente e juntá-los sempre pareceu mais produtivo. Ivan Trevino (percussão) e Patrick Laird (violoncelo) cresceram na região de Rochester, no estado de Nova York, e nunca foram radicais: iam de um concerto do Metallica ou do Radiohead ao Eastman School of Music, o conservatório de música clássica. Tocavam Bach e gostavam muito, mas não dispensavam uma guitarra bem dedilhada e uma bateria encorpada. Em 2003, ao lado de Laura Metcalf (violoncelo) e Adrian Daurov (violoncelo) formaram o Break of Reality com o objetivo de quebrar as fronteiras entre os dois gêneros.


O quarteto se apresenta amanhã no Teatro Pedro Calmon ao lado da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro como parte de uma turnê organizada pelo projeto American Music Abroad, do Departamento de Estado dos Estados Unidos. A formação é diferente da original e tem, além de Laird e Trevino, os violoncelistas Meta Weiss e Andrew Janss. No repertório, alguns dos hits dos quatro discos da banda, que já venderam, juntos, mais de 100 mil cópias, e o tema do seriado Games of Thrones (Ramin Djawadi), cuja versão para cello teve mais de oito milhões de visualizações no YouTube.


Classificada como alt-classical, cello rock e indie-classical, a música do quarteto é uma mistura equilibrada e agradável de sonoridades pesadas com o volume e a técnica da música erudita. ;Acho que o rock e a música clássica compartilham muitas similaridades. Elas podem ser épicas na sonoridade, no volume e na emoção. Ambas podem ser tecnicamente exigentes também. Quando escolhemos fazer o cover de um rock, tentamos encontrar músicas que tenham uma linha melódica forte, que tenham uma melodia vasta e variada;, explica Trevino. ;Como não cantamos e não temos vozes, uma linha melódica forte pode nos ajudar a comunicar a música, mesmo sem palavras.;

Potência

Trevino acha graça das tentativas de classificar o som do Break of Reality. A mistura rock e erudito, ele acredita, é uma tendência contemporânea e os dois gêneros têm mais em comum do que se pensa. Um exemplo é a música Lateralus, do disco Covers, um arranjo para melodia da banda progressiva Tool que ele promete tocar em Brasília. A introdução com os violoncelos ganha potência com a entrada da bateria, que marca o ritmo das cordas.


O percussionista também gosta de ressaltar a capacidade do quarteto de atrair os mais diversos tipos de fãs. ;Não acho que tendemos muito para um lado ou para outro. Alguns de nossos fãs nos chamam de banda de rock, outros nos chamam de conjunto de câmara. É legal ser considerada uma banda multigêneros e amamos ver a multiplicidade de audiências que isso produz. Nossas audiências são inteiramente misturadas: jovens, velhos, fãs de música clássica, de rock;, conta. Ao lado, Ivan Trevino fala sobre a experiência com o tema de Game of Thrones, que tornou a banda conhecida no mundo.

Break of Reality

; Ivan Trevino (percussão),
; Patrick Laird (violoncelo),
; Meta Weiss (violoncelo) e
; Andrew Janss (violoncelo).

; Apresentação com a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional
Claudio Santoro.

; Amanhã, às 20h, no Teatro Pedro Calmon (Setor Militar Urbano). Entrada franca ; ingressos disponíveis para retirada uma hora antes da apresentação. Disponibilidade de assentos
sujeita à capacidade do auditório.

Três perguntas para Ivan Trevino

Quais são suas influências?
O rock influenciou várias coisas na nossa performance. Por exemplo, nós não usamos partituras e memorizamos a nossa música, exatamente como faz uma banda de rock. Às vezes, nós improvisamos, ou fazemos jam sessions no palco, que também é comum no mundo do rock e não tanto na música clássica. Os celistas da nossa banda tentam imitar os sons que os guitarristas e vocalistas de rock fazem, mostrando que, às vezes, eles estão criando algo rústico, sons agressivos que não são típicos da música clássica. Ao mesmo tempo, nosso treinamento clássico nos dá muita informação. Por exemplo, nós ensaiamos como um quarteto de música clássica, pensamos sobre o fraseado, o equilíbrio, a entonação e a ambiência. Dizemos para todos os jovens instrumentistas de música clássica: ;Se não fosse pela nossa formação clássica, não teríamos como tocar nessa banda;.

Sobre a versão do tema de Game of Thrones, como vocês a criaram?
Alguns membros do Break of Reality são fãs do seriado, inclusive eu. A música tema tem um cello e minha mulher, Amanda, sugeriu que nós fizéssemos um arranjo. Fez sentido. É uma grande música para nossa banda: é melódica, é rítmica, é épica. Tinha todas as características de muitas das nossas músicas originais. Patrick acabou fazendo o arranjo e queria dar a ele um pouco mais de corpo que a música original, então acrescentou ritmos e harmonias para dar uma roupa de Break of Reality. Gravamos o vídeo do YouTube num bar de vinhos em Nova Jersey, sem expectativa nenhuma de que se tornasse tão popular. Nosso vídeo teve mais de 8 milhões de visualizações. É realmente inacreditável.

Você acha que os dois gêneros deveriam estar mais misturados?
É legal ver um músico misturar os dois gêneros de uma maneira autêntica e informada. Gosto de ver músicos que têm uma formação clássica, mas também carregam a alma e a energia que o rock pode produzir. E é isso que o Break of Reality deseja: capturar o sentimento e a emoção de cada música e um espírito verdadeiro, seja ele clássico ou de rock. Misturar gêneros nos traz diferentes tipos de pessoas e isso é uma coisa bonita também. O movimento alt-classical está mais forte que nunca e nós adoramos ser parte disso.

www.correiobraziliense.com.br
Veja vídeo da banda tocando o tema de Game of Thrones e entrevista completa com Ivan Trevino.

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