De cara limpa

De cara limpa

O ator relembra ao Correio o início da vida, ainda no interior de São Paulo, fala do prazer de estar no palco e do momento político do país

» Igor Silveira » Vinicius Nader
postado em 17/08/2015 00:00
 (foto: Luiza Dantas/Carta Z Noticias)
(foto: Luiza Dantas/Carta Z Noticias)

O ser humano é passível de falhas e desvios de caráter e pode, sim, voltar a ser bom. A opinião do ator, diretor e, agora, dramaturgo, Paulo Betti é direta e simples. Paulo demonstra ser daqueles que se atiram do trapézio sem rede de proteção, sem medo nenhum de se expor, no palco e fora dele. O teatro de sua vida é o tema de Autobiografia autorizada, espetáculo que cumpriu bem-sucedida temporada no CCBB Brasília há cerca de um mês e pelo qual concorre, pela primeira vez, ao Shell de melhor autor. Paulo Betti não tem medo de dar a cara a tapa, diz que o momento político é de crise e que ainda não é hora de avaliarmos quem está com a razão nos escândalos apontados contra a presidente Dilma Rousseff. ;É preciso esperar a poeira baixar para entender o que aconteceu;, afirma.

Você sempre esteve à frente de debates e discussões políticas. Essa é uma função do artista?
Não é uma obrigação, evidentemente. Cada um se comporta como quiser. É muito mais honesto você dizer que não tem uma opinião, que não quer se meter nisso do que, sem conhecimento de causa, começar a sair dando opinião sem pensar. Para mim, a política está em tudo. Você pode não atuar nela, mas ela atua sobre você. No meu caso, que sou filho de lavradores, estudei em escola pública e cheguei à USP na década de 1970, em plena efervescência política, era impossível não se envolver. Era preciso ser muito alienado para não ser mordido pela política. Não sei como não fui para a luta armada. Acho que é porque não fui requisitado.

Você já chegou a pensar nisso?
Não. Nunca fui aliciado, digamos assim, ou estimulado a isso, mas a política estava presente a todo momento. É um caminho sem volta.

Qual é sua opinião sobre o atual momento do governo Dilma?
No momento em que as crises acontecem, é como se a política fosse uma grande batalha em campo aberto e minado. O conflito de interesses é tão agressivo que você precisa esperar a poeira baixar para, mais tarde, entender o que aconteceu. Aí você acaba enxergando: ;Olha só quem era o verdadeiro vilão! Aquele que estava preso às vezes;. Por isso costumo ficar muito cauteloso com relação ao momento político. Mas, assim, eu apoio a presidente Dilma. Muitos fatos me desagradaram, mas não só no PT.

Onde mais? Em outros partidos?
Sempre me pergunto por que julgaram de forma midiática o mensalão do PT cinco, seis anos depois do mensalão do PSDB? Isso é jogo político e me deixa com uma pulga atrás da orelha. Há dois tipos de justiça: uma para o PT e que outra que para o PSDB. São duas forças antagônicas muito claras e definidas que estão em choque. Bota a figura do Fernando Henrique e a do Lula e veja como os dois são tratados pela mídia, pela imprensa. Um pode ficar hospedado no Copacabana Palace e o outro não. Um pode e tem o direito de andar de primeira classe de avião e o outro não. Parece que tudo que se quer é descobrir que o Lula é um tremendo ladrão e botá-lo na cadeia, e não provar nada a respeito do Fernando Henrique.

Você anda, então, decepcionado com a política?
Não, eu gosto de me envolver com posição política sim. Eu acho esse negócio de se decepcionar uma frescura porque a vida é assim, o ser humano é assim. Se você pegar 100 atores, colegas meus, vai achar 10 sacanas ali no meio. Às vezes você é mau caráter numa dada época da sua vida, e na outra você já não é mais. Veja o caso do Paulo Roberto Costa, na Petrobras. O cara devia ganhar mais do que na Globo. Além de ter estabilidade no emprego, aposentadoria, todos os seguros de saúde. Por que esse cara resolveu roubar? Por causa da natureza humana. Isso não me surpreende. O poder corrompe.

Visitar a infância no palco, com o espetáculo Autobiografia autorizada, foi prazeroso ou doloroso? Ou teve um pouco das duas coisas?

Eu nunca pensei em fazer essa peça sobre esse assunto basicamente. Foi uma necessidade. Senti que a peça que eu ia fazer não me representava tanto; Eu queria alguma coisa sobre a qual eu quisesse muito falar e, de repente, descobri que a coisa que eu queria muito falar era a minha história. Era contar as circunstâncias difíceis e ao mesmo tempo inspiradoras que me levaram a driblar uma situação adversa, inóspita. E o que aconteceu para que fosse possível eu dar o salto que eu dei. Salto até do ponto de vista social, o que não é muito comum.

Deve ter sido uma experiência gratificante...
Foi muito prazeroso e muito dolorido também. Foi muito estimulante para mim, porque, na medida em que você vai investigando o seu passado, lendo ou recordando, certas brechas escuras acabam se eliminando e você vai percebendo um pouco mais sobre você mesmo, do que te fez ser o que você é. E isso para o bem e para o mal é sempre bom, é como se fosse uma viagem, até de uma certa maneira, psicanalítica.

É como se, no processo de escrita e de montagem do espetáculo, você enfrentasse anos de terapia em um curto período de tempo...
Tive até apoio da minha terapeuta. Eu li o texto com ela, ela acompanhou e me estimulou muito a fazer a peça. Eu escrevia como uma necessidade de extravasar. Sou filho temporão e o único com uma formação regular de escola. Por isso eu me sentia responsável por aquela história oral que meus avós, meus pais e meus irmãos não paravam de me contar. Somos sete irmãos (nasceram 15 e sobreviveram sete) e eles sempre me contavam histórias. Hoje, com essa retrospectiva, sei que eles me viam como aquele cara que podia contar a história deles. Eu era aquele garoto que eles prepararam para ser o arrimo deles.

Essa viagem a seu passado deu tão certo que você foi indicado ao prêmio Shell como autor;
Esse reconhecimento me deixa muito feliz. Eu já ganhei o Shell como ator, com A fera na selva, em 1993, e fui indicado outras vezes. É um prêmio importante pelo tempo que existe e o fato de eu ter sido indicado como autor foi uma surpresa muito agradável porque realmente foi a primeira vez que eu me expus dessa maneira.

No Canal Brasil você tinha um programa no qual conversava com jovens atores, o Novos nomes em cena. Como você
analisa o momento do teatro brasileiro?

Gosto muito de participar desse momento em que as pessoas decidem pela carreira e estão começando nela. Tanto que ajudei na criação do curso de teatro da Unicamp. Eu gosto desse contato com os estudantes. Sempre aparecem muitos talentos no teatro. E hoje ser ator está na moda. Houve uma época que era meio proscrito. Quem fosse ator era condenado pelos pais e pelos parentes, hoje eles são incentivados, o que provoca os equívocos porque antigamente o cara tinha meio que romper com os

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