Intolerância em nome da fé

Intolerância em nome da fé

Embora a Constituição de 1988 garanta a liberdade religiosa, grupos fundamentalistas vandalizam as práticas de matriz africana. No DF, só neste ano, a Sepir registrou 10 casos de violência contra casas afrorreligiosas. Tema será debatido quarta-feira na Câmara Legislativa

» RAFAEL CAMPOS
postado em 24/08/2015 00:00
 (foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)


Cinco de agosto não sai da memória do babalorixá Babazinho de Oxalá. Enquanto fazia compras no mercado, ele foi avisado pela mulher de uma ligação da vizinha, que dizia: ;Volte agora para o terreiro. Mas não venha sozinha, chame a polícia;. Ao chegar lá, a cena era desoladora: a maior parte dos materiais usados nos rituais de candomblé, sua religião, estava destruída, portas e janelas arrombadas e vários objetos de uso da casa haviam sido roubados. ;A situação, aqui, era de chorar. Tudo arrombado, furtado, quebrado. Os bens materiais, vamos repor. O que dói é ver o sagrado ser tratado dessa forma.;

Há cinco anos como sacerdote do terreiro, que fica em Santo Antônio do Descoberto, município do Entorno, Babazinho disse que jamais havia sofrido ato de violência religiosa tão extremo. Apesar dos prejuízos financeiros terem ficado próximos dos R$ 30 mil, ele garante que nada se compara a ver sua fé tratada dessa maneira. ;Para quem não é do candomblé, o que foi destruído pode não ter valor algum. Para nós, é de muita importância. Isso nos agrediu demais.; Embora a Constituição Federal garanta a liberdade de religião como direito fundamental, o ato não é isolado.

De acordo com Coordenação de Enfrentamento ao Racismo da Secretaria Especial da Promoção da Igualdade Racial (Sepir), em 2015, já foram pelo menos 10 crimes contra centros religiosos de matrizes africanas praticados no DF e Entorno. O número pode ser maior, já que episódios dessa natureza são registrados dentro dos crimes comuns, independentemente de onde ocorreram. ;Fazer essa classificação desses delitos não é tão simples, pois é preciso exortar a crença do outro. A prática do proselitismo religioso é um acinte, mas não é fácil categorizá-la como violência;, diz Carlos Alberto Santos de Paulo, chefe da coordenação.

O poder das bancadas fundamentalistas nos Legislativos espalhados pelo país tem estimulado discussões sobre a laicidade do Estado. No Distrito Federal, audiência pública, marcada para a próxima quarta-feira, debaterá o tema. De acordo com Patricia Zapponi, diretora da Central Organizada de Matriz Africana (Afrocom), a audiência permitirá que representantes das mais variadas crenças exponham as preocupações acerca do que ela chama de política de ódio, que vem sendo estimulada no DF por um grupo de parlamentares ligados a movimentos religiosos.

;Atualmente, há parlamentares querendo equiparar o poder religioso ao político. O Brasil é um país laico, signatário do Tratado da Paz Global da ONU e, desde as Constituições de 1968 e de 1988, o Estado é separado da religião. Por que essa preocupação? Porque o poder político está se confundindo com o religioso.; Patrícia, também candomblecista, explica que os atos de hostilidade não ficam restritos às invasões de terreiros, que são mais de 6 mil em todo o DF. ;Um pastor já ficou orando atrás de mim, num dia em que vim trabalhar de torso. Já cantaram hinos de louvor. Está havendo um estreitamento no pensamento das pessoas.;

Extremismo analisado

Para o professor de filosofia da religião da Universidade de Brasília (UnB) Agnaldo Cuoco Portugal, mesmo que muitos grupos neopentencostais estejam envolvidos em ações violentas contra as religiões de matrizes africanas, o mais importante nesse momento é não generalizar. De acordo com ele, são os atos de intolerância que devem ser analisados de forma mais imediata, pois acontecem com maior frequência, estimulados por grupos privados e servem como ponte para atitudes mais graves.

;O princípio da liberdade de culto é constitucional. O Estado não pode se intrometer na fé das pessoas. Mas é dever dele manter a ordem pública. A partir do momento que a intolerância gera violência, há uma desordem, que deve ser combatida pelo Estado;, explica, ao analisar que procedimentos como audiências públicas podem ajudar grupos minoritários a conseguir uma visibilidade que assegure a autonomia da sua fé. E mesmo os grupos evangélicos temem que o sectarismo de alguns fiéis possa reforçar preconceitos contra suas crenças.

Pastor da Assembleia de Deus, há 25 anos, e membro do Conselho dos Pastores Evangélicos do DF, Elias Castilho não tem dúvida de que a violência evoluiu ao mesmo tempo em que um maior número de religiões tem reivindicado os seus direitos. ;Isso tem despertado conflitos que não deveriam acontecer, como no caso da menina carioca que foi apedrejada por ser do candomblé. Isso faz com que os cristãos evangélicos passem a ser também perseguidos.; Para Castilho, o caminho para maior equilíbrio exige releitura do que é a laicidade do Estado.

;Um Estado laico é aquele em que todas as religiões têm liberdade do exercício da fé, seja nos templos ou nos órgãos públicos. Laicidade não pode ser interpretada como neutralidade. Porque todos os parlamentares representam cidadãos com bandeiras;, acredita. A concepção de país laico infere que a religião não pode ter qualquer ingerência sobre assuntos de cunho sociopolítico e cultural. A Constituição Federal de 1988, no Art. 5;, garante ser ;inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;.

Agressão gratuita

O conhecimento da lei é garantia de respeito para a advogada Márcia Bianchi, 52 anos. Na wicca, religião que professa há 25 anos, ela é conhecida pelo nome Mavesper Cy Ceridwen. Mas é com o nome civil que ela tem de encarar as situações de preconceito pelas quais passou em nome da fé. Ela se lembra de um evento organizado no Parque da Cidade, que atraiu mais de 200 seguidores. ;Mesmo com todas as autorizações, um grupo neopetencostal se reuniu para tentar ;acabar com esse evento do diabo;;, conta. Questionado por policiais que faziam a segurança, o grupo respondeu dizendo que mais três ônibus lotados de fiéis estavam a caminho.

;Quando estacionaram, um policial avisou que era preciso manter distância de 100m do evento. O pastor retrucou: ;O senhor não vai impedir a palavra de Cristo.; Foi quando um tenente deu voz de prisão a todos.; Para a advogada, a sensação é de que o Brasil está prestes a se ver diante de uma batalha religiosa. Márcia acredita que religiões de cunho político direitista têm se militarizado em tentativa de garantir, por meio da força, a transformação do Brasil em país obrigatoriamente cristão.

;Democracia não significa ditadura da maioria. Se você amanhã tiver uma epifania e quiser criar a igreja do palito de fósf

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação