PGR mira em contas no exterior

PGR mira em contas no exterior

Procuradores tentam reforçar a denúncia contra Eduardo Cunha com foco nas ramificações do esquema fora do Brasil

» EDUARDO MILITÃO
postado em 24/08/2015 00:00
 (foto: Miguel Schincariol/AFP)
(foto: Miguel Schincariol/AFP)

Mesmo após denunciar Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a Procuradoria-Geral da República (PGR) continua a investigar o presidente da Câmara dos Deputados sob acusação de cobrar propina de um estaleiro para que negociasse dois navios à Petrobras. Na denúncia, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e 11 procuradores e promotores de Justiça mapearam o ;caminho do dinheiro;, a rota percorrida pelo suborno que saiu dos bolsos do ex-lobista da Samsung Heavy Industries Júlio Camargo até chegar às mãos do operador Fernando ;Baiano; Soares e de Cunha.

Não há uma operação financeira direta localizada entre Baiano e o deputado, mas fatos denunciados por Camargo e confirmados por documentos ; como reuniões em datas, locais e horários específicos ; são considerados indicativos fortes de que isso ocorreu. O Correio apurou que a PGR intensificou as investigações no faro das contas e depósitos no exterior, cujo beneficiário seria o presidente da Câmara. O Código Penal ainda abre uma brecha para que alguém seja condenado por corrupção, mesmo que o dinheiro não tenha chegado até o beneficiário, desde que exista comprovação de exigência de propina.

Trabalho de cooperação internacional com o Ministério Público da Suíça, onde Júlio Camargo manteve dinheiro do esquema, foi fundamental para esclarecer os pagamentos de propina atribuídos a executivos da empreiteira Odebrecht na Operação Lava-Jato. Além disso, descobriu-se que ex-dirigentes da Petrobras, como Renato Duque e Jorge Zelada, mantinham cerca de R$ 119 milhões em Mônaco. Essa é a expectativa do grupo de trabalho montado por Janot: localizar contas desconhecidas que reforcem as provas contra o presidente da Câmara.

Eduardo Cunha informou aos procuradores do grupo de trabalho da Lava-Jato na PGR que não queria prestar depoimento. A reportagem questionou a assessoria do presidente da Câmara se ele administra dinheiro próprio ou de terceiros no exterior, mas não obteve esclarecimentos. O deputado disse que não poderia comentar as denúncias por orientação de seu advogado, o ex-procurador geral da República Antônio Fernando de Souza. ;Estou absolutamente sereno e refuto com veemência todas as ilações constantes da peça do procurador geral da República;, disse mais tarde, em nota a toda a imprensa.

Bunker de Janot

O procurador Rodrigo Janot montou uma espécie de bunker ao lado do seu gabinete, na cobertura de um dos edifícios espelhados da Procuradoria-Geral da República, no Setor de Administração Federal Sul (SAFS). É uma sala com porta travada e que só abre com identificação biométrica. Os autorizados a entrar são apenas os 11 procuradores e promotores que ele designou para compor o grupo de trabalho da Lava-Jato nos tribunais superiores da capital. Foi de lá que os profissionais trabalharam na redação das denúncias contra Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e Fernando Collor (PTB-AL) e ainda apuram as dezenas de inquéritos contra outros políticos suspeitos de terem recebido propina no esquema de desvio de dinheiro da Petrobras.

Na sala, há mesas, computadores e muitos papéis. Os depoimentos são tomados em outro lugar para evitar que os investigados observem documentos esparramados pelas mesas do bunker. Assessores e secretárias só entram quando chamados, e por pouco tempo. A sala de depoimentos possui estrutura para filmar as oitivas das testemunhas. O chefe maior é, obviamente, Janot, quem assina as denúncias. Algumas decisões, no entanto, são coletivas. Uma fonte conta que, quando foi fechada a acusação contra Cunha, Janot se opôs à epígrafe no início da peça com frase de Mahatma Gandhi que associava o deputado a ;tiranos e assassinos;, aqueles que ;no fim sempre caem;. Inicialmente, o grupo tinha a ideia de colocar epígrafe em todas as peças, algumas com trechos da Bíblia. ;As epígrafes dizem algo além da denúncia;, justificou um investigador que destacou o caráter do deputado na avaliação do grupo. Janot queria tirar a frase. O grupo insistiu e ele assentiu.

Agenda politica
Legislativo
Está prevista a votação do projeto que prevê a repatriação de recursos do exterior no Senado. A matéria faz parte da chamada Agenda Brasil, apresentada pelo presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), que começa a ser analisada amanhã. O Senado também deve analisar o veto ao reajuste do Judiciário.

Executivo
Dilma Rousseff reúne ministros e líderes do Congresso, hoje, em encontro da coordenação política. Amanhã, a presidente viaja a Catanduva, no interior paulista, onde vai
inaugurar 1.512 domicílios do programa Minha Casa, Minha Vida.

Judiciário
O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) marcou para a próxima quarta-feira o julgamento sobre a validade da delação premiada de Alberto Youssef, como parte da operação Lava-Jato. A análise atende a um pedido de Erton Medeiros, um dos executivos da Galvão Engenharia, que pretende anular os depoimentos e provas apresentadas pelo doleiro.



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