Impasse nas urnas

Impasse nas urnas

Abstenção elevada, violência e irregularidades truncam o processo eleitoral no país mais pobre da América Latina, ainda às voltas com os impactos do terremoto de 2010. Em dezembro, votação abre caminho para a segunda transição pacífica na história

Gabriela Walker
postado em 24/08/2015 00:00
 (foto: Hector Retamal/AFP - 8/8/15)
(foto: Hector Retamal/AFP - 8/8/15)

A turbulência e a baixa participação no primeiro turno das eleições legislativas do Haiti, no último dia 9, levaram o Conselho Eleitoral Provisório (CEP) a anunciar uma repetição do processo em 25 dos 119 distritos. Os haitianos foram às urnas depois de quase quatro anos de atraso, em meio a uma profunda crise entre o presidente Michel Martelly e a oposição, que o acusa de abuso de poder. Até o fim do ano, o país deve renovar todas as cadeiras da Câmara dos Deputados e dois terços do Senado, além da presidência ; Martelly está impedido de concorrer a outro mandato. Segundo informações divulgadas pelo CEP na última sexta-feira, 18% dos eleitores compareceram no dia 9 e apenas três das 119 cadeiras da Câmara foram preenchidas. Nenhum dos 20 postos no Senado foi definido.


Ao todo, mais de 1,8 mil candidatos de 128 partidos disputaram um total de 139 vagas em ambas as casas, além de 140 prefeituras e diversos postos das administrações locais. Nos últimos dias, o conselho anunciou a exclusão de 16 candidatos por terem participação em incidentes de violência durante as eleições. Duas pessoas morreram nessa primeira rodada e vários centros de votação foram fechados antes do horário previsto, devido à insegurança.
Segundo um comunicado do CEP, os políticos afastados são acusados de disparar armas automáticas próximo a centros de votação, de agressão armada a um membro da equipe eleitoral, saques a gabinetes e violação de urnas. Representantes do conselho, que apresentaram os resultados na última semana, foram escoltados por policiais e informaram que novas sanções contra candidatos e partidos podem ser anunciadas nos próximos dias, como consequência das investigações.


O professor de antropologia e história Omar Ribeiro Thomaz, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), analisa com pesar o atual cenário político. ;O Haiti não é um país particularmente violento, mas momentos de grande descontentamento podem gerar contornos como os vistos recentemente;, diz. Thomaz ressalta o ;cansaço dos haitianos com a política e com inúmeras promessas não cumpridas; pelo governo de Martelly. ;De alguma maneira, o pior já passou: o terremoto e a crise de cólera estão no passado, mas existe uma institucionalização da precariedade. O panorama é de grande desânimo.;


Para a analista internacional Juliana de Paula Bigatão, que participou de pesquisas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) no Haiti, ;os distúrbios comprovam a precariedade do desenvolvimento da democracia; no país. Pouco depois das votações, Pierre Esperance, diretor-executivo da Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos (RNDDH), reunião de organizações sociais, denunciou à imprensa uma ;violação dos direitos dos haitianos;. Segundo Esperance, ;o que ocorreu em 9 de agosto é uma mancha na democracia;.


Desde o terremoto destruidor de 2010, foram muitas as promessas locais e internacionais para reconstruir o Haiti e promover a democracia. A maioria delas nunca saiu do papel. O país mais pobre da América Latina amarga um abandono que faz a maior parte das famílias apostar em um futuro melhor no exterior, o que gerou uma onda de emigração. ;O Executivo concentrou muitas promessas depois do terremoto e, a rigor, não as cumpriu;, explica Thomaz. ;O Brasil também fez parte desse universo de promessas não cumpridas. O que vemos é que, à medida que a comunidade internacional falha, a gente tem mais um fator que provoca cansaço e desesperança na população.;

Candidatos demais
O CEP não esclareceu quando as eleições serão refeitas, mas os haitianos devem voltar às urnas em 25 de outubro, data agendada para o segundo turno das legislativas e o primeiro turno da disputa presidencial. Ao todo, 58 candidatos lutam para suceder Martelly. De forma geral, o altíssimo número de concorrentes é motivo de confusão entre os eleitores e contribui para questionamentos sobre a credibilidade do processo. Em algumas regiões, os eleitores precisam votar em mais de 50 candidatos, uma maratona na qual boa parte dos políticos é desconhecida do público.


Esta será a segunda vez na história do Haiti que um presidente entregará o comando do país a um sucessor eleito democraticamente. O segundo turno da eleição presidencial está marcado para 27 de dezembro.

Centenário da ocupação

Centenas de haitianos saíram às ruas para protestar no aniversário de 100 anos da invasão americana, celebrado no mês passado. O pequeno país caribenho tem uma relação historicamente conturbada com o vizinho do norte e, segundo analistas e historiadores, parte da miséria vivida hoje é consequência dos anos desastrosos nos quais Washington esteve no controle. Em 1914, o então presidente americano, Woodrow Wilson, tomou o comando do Banco Nacional do Haiti. No ano seguinte, invadiu efetivamente o território. A ocupação durou 19 anos e deixou 2 mil mortos. Os americanos impuseram uma nova Constituição, que permitia a posse de terras por estrangeiros e abriu caminho para a consolidação de uma elite privilegiada e uma ampla desigualdade social.

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