Embaixadas reabertas em Londres e Teerã

Embaixadas reabertas em Londres e Teerã

Na esteira do acordo nuclear assinado em junho, Irã e Reino Unido reativam as relações bilaterais, congeladas desde um incidente registrado há quatro anos

postado em 24/08/2015 00:00
 (foto: Behrouz Mehri/AFP
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(foto: Behrouz Mehri/AFP )

Reino Unido e Irã reabriram ontem as respectivas embaixadas, em uma demonstração clara da reaproximação promovida nos últimos anos e, recentemente, incentivada pela assinatura do acordo que limita o programa nuclear iraniano. O chanceler Philip Hammond presidiu a cerimônia na representação britânica em Teerã, que estava fechada desde 2011, quando manifestantes invadiram e saquearam o prédio em protesto contra o apoio britânico a uma nova rodada de sanções imposta ao Irã.


;A cerimônia de hoje marca o fim de uma fase da relação entre os nossos dois países e o início de uma nova ; uma que, eu acredito, oferece uma promessa melhor;, disse Hammond, que assistiu o hasteamento da bandeira britânica ao som do hino Deus salve a rainha. O ministro confirmou que a invasão da embaixada marcou ;um ponto baixo; nos laços bilaterais, mas destacou que, desde a chegada do presidente Hassan Rouhani ao poder, em 2013, a situação melhorou ;passo a passo;. Rouhani, que se elegeu com um projeto mais liberal e aberto ao Ocidente, promoveu esforços para firmar um acordo nuclear com um grupo de seis potências mundiais e aliviar as sanções contra o país.


;O acordo histórico do mês passado foi outro ponto crucial e mostrou a força da diplomacia, conduzida em uma atmosfera de respeito mútuo, para resolver desafios;, destacou Hammond. Acompanhado por uma comitiva de empresários, ele deixou claros os interesses econômicos no país e afirmou que a embaixada apoiará ;o comércio e os investimentos britânicos, uma vez que as sanções sejam aliviadas;. O ministro também destacou que o Irã é ;um país importante em uma região estrategicamente importante, mas volátil;, e defendeu que o diálogo ;é crucial;.


De olho nas oportunidades que a economia iraniana oferece, com o mercado interno castigado pelas sanções internacionais, autoridades europeias e americanas foram rápidas em visitar o país nas semanas que se seguiram à assinatura do entendimento nuclear. Por sua vez, o governo de Rouhani busca facilitar a normalização das relações para atrair investimentos externos e desenvolver os diversos setores afetados pelo isolamento, em especial o de combustíveis.


Londres

A embaixada da República Islâmica em Londres também foi reaberta em uma cerimônia na tarde de ontem. O vice-chanceler iraniano, Mehdi Danesh Yazdi, participou do evento, acompanhado por Jack Straw, que foi o único chanceler britânico a visitar Teerã depois da Revolução Islâmica de 1979. Ambas as representações serão conduzidas por encarregados, enquanto não são nomeados embaixadores para os postos.


Apesar da celebrada aproximação, os países ainda buscam fortalecer a confiança mútua. Iranianos críticos à manutenção de laços com o Ocidente organizaram uma pequena manifestação em Teerã, mas não chegaram a ameaçar a embaixada, protegida por guardas locais. Para noticiar a reabertura da representação, a agência de notícias Fars reportou a cerimônia como ;o retorno da raposa;, uma referência ao apelido dado ao Reino Unido em círculos mais radicais do regime islâmico.

Memória

Relações turbulentas

Em novembro de 2011, em resposta ao apoio britânico a sanções mais duras aprovadas pela ONU contra o Irã, motivadas pelo desenvolvimento do programa nuclear, Teerã decidiu expulsar o embaixador do Reino Unido. O líder supremo do regime, o aiatolá Ali Khamenei, referiu-se à representação como ;embaixada demoníaca;. Dois dias depois, centenas de manifestantes furiosos invadiram o local.


Além de saques, eles incendiaram bandeiras, quebraram janelas e picharam paredes. O ataque se desenvolveu diante da passividade da polícia e provocou protestos internacionais. Em atitude recíproca, ambas as representações foram fechadas.


Após a eleição do presidente Hassan Rouhani, em 2013, Londres propôs a reabertura das embaixadas, mas o processo foi postergado por ;problemas técnicos;. Para lembrar o incidente, os britânicos decidiram deixar sem retoques algumas marcas na invasão. Entre elas, uma frase em farsi, escrita logo acima de um retrato da rainha Elizabeth II, que diz ;morte aos ingleses;.


Ao longo dos anos, a relação conturbada entre os países teve outros episódios de tensão. Depois da Revolução Islâmica, em 1979, a embaixada britânica ficou fechada por nove anos. Em 1980, a missão iraniana em Londres foi atacada.

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