Medo que não passa

Medo que não passa

Você sente o corpo tremer, taquicardia e outros sintomas que se confundem com infarto? Pode ser ataque de pânico. E, quanto mais cedo se tratar, maior a chance de se curar

Gustavo Perucci
postado em 24/08/2015 00:00

Belo Horizonte ; Você está tranquilo em casa e, de uma hora para outra, começa a sentir taquicardia, acompanhada de dor no peito, falta de ar e tremor. Qual seria a sua primeira reação? Ir a um pronto-socorro? Ligar para o cardiologista? O recomendado é, realmente, diante de tais sintomas, procurar atendimento médico o mais rápido possível. Mas, em muitos casos, depois de realizados os exames, constata-se que a pessoa não tem problema físico. Isso é o que ocorre com 90% dos pacientes que sofrem de transtorno do pânico, que se manifesta por ataques intensos de ansiedade, acompanhados de sintomas físicos.


Segundo o psiquiatra e chefe do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Humberto Correa, em um primeiro momento, o ataque de pânico se assemelha a uma doença orgânica. ;A pessoa pensa que está infartando. Com frequência, o primeiro contato médico que ela tem é com um serviço de atendimento de urgência. Esses profissionais precisam ser capazes de identificar a doença e encaminhar o paciente para um especialista;, observa.


A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que de 3% a 4% da população mundial tenha trastorno do pânico. Assim como a depressão, ele costuma ser mais frequente em mulheres. Cientistas, porém, ainda não descobriram a razão dessa diferença. Segundo Humberto Correa, mesmo que o transtorno possa se manifestar em qualquer idade, o normal é que ocorra em indivíduos adultos, geralmente na terceira década de vida. Os ataques duram de cinco a 20 minutos.
;O ataque de pânico normalmente ocorre sem nenhum fator desencadeante. A pessoa pode estar tranquila, dormindo, inclusive. A principal característica é de uma ansiedade maciça. São dois tipo de sintomas: os psíquicos e os físicos. Os psíquicos são uma sensação de morte iminente, de que algo grave esteja ocorrendo ou esteja para ocorrer. Os físicos são ligados muito à esfera cardíaca e respiratória. E isso, possivelmente, vai desaparecer da mesma forma que apareceu;, completa.


O psiquiatra alerta que metade dos pacientes diagnosticados com transtorno do pânico desenvolve a agorafobia, que corresponde ao medo de que determinadas situações e determinados lugares deflagrem um ataque. Ele explica que, quanto mais tempo se leva para iniciar o tratamento, maior a chance de a doença evoluir até chegar a esse quadro. ;O que ocorre é que a pessoa tem um, dois ataques e começa a ficar com medo de sair sozinha, de passar mal e não ter ninguém por perto para ajudar. Quanto mais ataques de pânico sem tratamento, mais o problema vai se agravando.;


Troca de experiências
O tratamento farmacológico, segundo o médico, resolve muito bem o transtorno de pânico. No quadro de agorafobia, os medicamentos não são tão eficazes e é necessário a terapia. ;Ainda existe muito preconceito relacionado à doença mental. Temos que reconhecer que melhorou muito em relação ao que era no passado, mas ainda existe um estigma;, completa.


Com o objetivo de trazer uma visão menos clínica sobre a síndrome e diminuir o preconceito em relação à doença, as jornalistas brasilienses Daniella Cronemberger e Lara Haje se uniram ao fotógrafo José Maria Palmieri e à artista plástica Daniela Ktenas para produzir o livro Paúra ; Um mergulho na síndrome do pânico. A publicação traz relatos de 12 pessoas sobre suas experiências com o transtorno, incluindo os quatro autores. ;Passamos pelo pânico e todos transformaram essa experiência em texto, fotografias e bordados. A Lara e eu ficamos responsáveis pelos textos; o José, pelo ensaio fotográfico que vem no fim do livro; e a Ktenas, pelas ilustrações;, detalha Daniella.


A autora conta que, num primeiro momento, descartou a ideia do livro, pois considerou fora de questão escrever sobre um assunto tão pessoal, expondo sua intimidade. Para ela, a terapia a ajudou a mudar de opinião. ;É complicado falar de seus problemas, ainda mais num momento em que as pessoas estão tão preocupadas em construir uma imagem perfeita de si mesmas nas redes sociais. É difícil admitir isso. Mas, no momento que se naturaliza a questão, o retorno é muito positivo. Hoje, acho um desperdício não se falar de coisas delicadas.;


O processo de coletar depoimentos, conversar com as pessoas e escrever os textos ajudaram Daniella a se entender melhor. Ela e os outros autores esperam que o livro provoque o mesmo efeito nos leitores. ;É um assunto que ainda é tratado como um tabu. Quem sofre de pânico tem medo de ser visto como desequilibrado, maluco. Num momento difícil, seja ele qual for, o compartilhamento de experiências parecidas é muito importante. Você deixa de se sentir tão sozinho, como se fosse a única pessoa que está passando por aquilo, e aprende muito com o processo do outro. Escutar uma vivência semelhante ajuda a acelerar o autoconhecimento;, completa.]

Principais sintomas

Falta de ar ou sensação de asfixia
Vertigem, sentimentos de instabilidade ou sensação de desmaio
Palpitações ou ritmo cardíaco acelerado (taquicardia)
Tremor ou abalos
Sudorese
Sufocamento
Náusea ou desconforto abdominal
Despersonalização ou desrealização
Anestesia ou formigamento (parestesias)
Ondas de calor ou frio
Dor ou desconforto no peito
Medo de morrer
Medo de enlouquecer ou cometer ato descontrolado

Fonte: Alexandre Martins Valença, doutor em psiquiatria pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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