Droga para impotência pode vir de aracnídeo

Droga para impotência pode vir de aracnídeo

Pesquisa brasileira mostra que peptídeo presente no veneno da aranha-armadeira é capaz de estimular a ereção. Descoberta pode levar a medicamento em forma de adesivo a ser aplicado sobre a pele

Augusto Pio
postado em 24/08/2015 00:00
 (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press %u2013 10/10/11)
(foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press %u2013 10/10/11)

Belo Horizonte ; Pesquisas mostram que medicamento para ereção sintetizado do veneno da aranha-armadeira (Phoneutria nigriventer) é eficaz. Esse assunto foi destaque na revista Nature Reviews Urology, dirigida aos urologistas e afiliados. Em Belo Horizonte, um grupo de pesquisa coordenado por Maria Elena de Lima Perez Garcia, professora titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, apresentou, por meio de técnicas de bioinformática, uma forma menos tóxica de melhorar a ereção. Fruto de um estudo sobre os efeitos da picada do aracnídeo, que vem sendo realizado há 10 anos, a pesquisa mostrou que, com menos da metade dos aminoácidos presentes no peptídeo (pequena proteína) do veneno, foi possível sintetizar um remédio eficaz.


Maria Elena Garcia, que é coordenadora-geral do projeto e, como tal, responsável direta pela pesquisa, explica que testes em roedores comprovaram que a redução da quantidade de aminoácidos não alterou a ereção. ;Devido à sua toxidade, se usássemos o peptídeo inteiro, seriam observados efeitos colaterais no sistema nervoso e no coração;, observa a professora. ;Trabalhamos no assunto há cerca de 10 anos. Já tivemos uma tese de doutorado e uma de mestrado defendidas, além de estudantes de pós-doutorado trabalhando no tema. Começamos a trabalhar com a toxina isolada diretamente do veneno.;


Ela conta, ainda, que o grupo está trabalhando com pesquisadores da Faculdade de Farmácia da UFMG numa formulação do peptídeo sintético (Pn-PP19), não tóxico, para ser administrado por aplicação tópica. ;Seria via adesivo, por exemplo, que poderia ser colocado na virilha. Esse tipo de administração permite usar quantidades menores da substância e também evita possíveis efeitos colaterais para o organismo. Embora não tenhamos detectado nenhum efeito colateral nos animais, com doses até 100 vezes superiores às utilizadas para a potenciação da função erétil.;


A aranha-armadeira ganhou esse nome pela posição típica que assume ao atacar, e se concentra, principalmente, na Região Sudeste, mas pode ser também encontrada em outras regiões do Brasil. Garcia ressalta que tudo começou há tempos, quando homens picados por esse tipo de aranha e também por alguns escorpiões apresentaram como um dos sintomas o priapismo, uma ereção prolongada e dolorosa. ;O veneno da aranha é constituído por uma mistura de proteínas e é bastante tóxico. O grupo da Fundação Ezequiel Dias, nosso colaborador, purificou a molécula responsável pelo priapismo, que foi chamada PnTx2-6. Mas essa pequena proteína, que tem 48 aminoácidos (como se fossem 48 continhas em um colar), é também muito tóxica (1,4 microgramos, que corresponde a 0,000001g, mata 100% dos animais injetados, em geral, camundongos, que são utilizados nos testes de toxidade). Esses pesam, em média, 20g, e a toxidade é, em geral, proporcional ao peso corporal.;

Inovação
A cientista salienta que estudos farmacológicos com a toxina foram feitos na UFMG por seu grupo. ;Publicamos alguns trabalhos, mostrando que essa toxina é capaz de fazer com que ratos hipertensos, velhos ou diabéticos, recuperem total ou parcialmente a capacidade erétil. Todos esses animais apresentam disfunção erétil ; há técnicas no laboratório para medir esse efeito nas cobaias. Assim, a toxina da aranha mostrou ser muito ativa e teve efeito diferente dos medicamentos já utilizados, como o Viagra, o que abria perspectivas para pacientes que não podem utilizar tal medicamento ou mesmo que não respondem a ele. O grande problema é que a molécula (PnTx2-6) é muito tóxica e causa dor, conforme verificamos no laboratório, por meio de experimentos.;


A inovação do grupo foi sintetizar uma parte dessa molécula que estudos de bioinformática indicavam ser a parte ativa. ;Assim, obtivemos um peptídeo (pequena proteína) de 19 aminoácidos lembrando que a molécula original, vinda do veneno da aranha, tem 48 aminoácidos e é mais complexa na estrutura. Ao testarmos a molécula sintética, então chamada PnPP-19 (de Phoneutria nigriventer potentiator peptide-19 aminoácidos), verificamos que ela também potencia a ereção nos animais, (ratos e camundongos) e, o melhor, não mostrou nenhuma toxidade. E, além do mais, a molécula não causa nenhuma dor. Verificamos que, ao contrário, esse peptídeo tem propriedades analgésicas. Ele também não gera nenhuma alteração no coração, o que é muito positivo, pois os medicamentos vigentes são desaconselhados para alguns indivíduos que apresentam problemas cardíacos.;


O efeito do veneno já está aprovado, segundo garante a professora. ;Temos publicação mostrando isso e, o mais importante, com a substância (peptídeo) purificada do veneno. Isso foi em 2008, quando publicamos na revista científica internacional Toxicon. O efeito do veneno já era conhecido há tempos, mas nosso grupo purificou o peptídeo, que causa esse efeito e mostrou como ele age no organismo. A primeira notícia desse trabalho com a toxina foi divulgada erroneamente como tendo sido feito nos EUA. O que ocorreu é que nossa aluna foi fazer um estágio na Universidade da Georgia em Augusta e levou o trabalho feito aqui a um congresso lá.;


Maria Elena Garcia não sabe dizer quando esse remédio estará à venda no mercado. ;Não podemos prever. A tecnologia tem de ser transferida para uma indústria. Já pedimos a patente, mas, antes de ser um medicamento, há ainda um longo caminho. Há a exigência de vários testes dos órgãos controladores, como a Anvisa. É um processo caro, e a universidade não tem como patrociná-lo. É preciso que uma indústria farmacêutica assuma essa parceria. No momento, temos algumas indústrias interessadas, e há uma negociação mediada pela Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica, escritório da universidade, que cuida de patentes e da transferência de tecnologia para o setor privado.;
Até agora, não foi detectado nenhum efeito colateral, nem toxidade, mesmo usando doses até 100 vezes superiores àquelas necessárias para potenciar a ereção. ;Uma análise histológica de vários tecidos de animais injetados com o peptídeo sintético não mostrou nenhuma alteração. Os animais também não sofreram nenhuma toxidade com esse peptídeo, ao contrário da toxina ; que mata, dependendo da dose injetada.; Ela acredita que o medicamento possa ser usado tanto em adultos quanto em idosos, embora os testes tenham sido feitos somente em animais. ;Numa próxima etapa, serão feitos em seres humanos. Logicamente seguindo todos os princ

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